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Songwriter: As vozes perdidas de Johnny Cash

No início dos anos 1990, Johnny Cash vivia um período sombrio em sua carreira. Sem uma grande gravadora pela primeira vez desde 1958, ele se encontrava em Branson, Missouri, uma cidade conhecida por seus teatros bregas que abrigavam estrelas em declínio. Mesmo ali, as coisas não iam bem. O financiamento para o seu teatro desmoronou antes mesmo da inauguração em 1992, e quando finalmente tocou no local um ano depois, foi como substituto de Wayne Newton, um cantor de lounge notório.

Entretanto, a descoberta de gravações de estúdio inéditas lança luz sobre o notável retorno de Cash no início dos anos 1990. Esse renascimento foi impulsionado pela parceria com Rick Rubin para as American Recordings de 1994, um dos grandes atos finais da música americana do século XX. As novas gravações encontradas por John Carter Cash, filho de Johnny e June Carter Cash, mostram um lado mais íntimo e pessoal do cantor.

Imagem gerada por IA – créditos DISCONECTA

Essas gravações foram feitas no LSI Studios em Nashville, onde Cash registrou várias canções inéditas no início dos anos 90. A intenção por trás dessas gravações ainda é incerta, mas é possível que Cash estivesse tentando ajudar financeiramente sua enteada Rosie e seu então marido Mike Daniel, proprietários do estúdio. Outra possibilidade é que ele estivesse tentando atrair a atenção de uma nova gravadora, um objetivo que foi finalmente alcançado quando conheceu Rick Rubin em 1993.

O álbum póstumo “Songwriter” inclui dois dos momentos mais leves das American Recordings, “Drive On” e “Like a Soldier”, que aqui aparecem em versões mais robustas e emocionais. Este álbum mostra um lado de Cash que Rubin evitou: seu humor e sentimentalismo. Em canções como “I Love You Tonite”, uma carta de amor para June Carter Cash, Cash reflete sobre as décadas passadas juntos e se pergunta se durarão até o novo milênio.

Em “Songwriter”, Cash aborda preocupações pessoais e temas mais amplos, como o destino do planeta em “Hello Out There”, mas também escreve sobre aspectos mais cotidianos, como mães solteiras que encontram força na música de James Taylor e flertes em uma lavanderia em “Well Alright”. Essas canções têm um tom leve e descontraído, semelhante aos LPs que Cash gravou no início dos anos 1980.

A produção póstuma do álbum, liderada por John Carter Cash e David Ferguson, transformou esses demos originais em gravações que se assemelham às American Recordings. Com novos arranjos que incluem contribuições de músicos como Vince Gill e Dan Auerbach, o foco permanece sempre na voz distintiva de Cash. As harmonias vocais de Waylon Jennings e a guitarra de Auerbach complementam as músicas sem roubar a cena, mantendo a essência das gravações originais.

“Songwriter” é uma prova da solidez do ofício de Cash. Embora essas músicas não tivessem o potencial de mudar a carreira de Cash em 1993 como as American Recordings fizeram, elas oferecem um vislumbre encantador do talento duradouro do Homem de Preto.

Autor

  • Julio Mauro

    Júlio César Mauro é aquele típico nerd e pai de duas meninas, que tem seu jeito único – um pouco rabugento e com TDA. Não deu certo na música, mas encontrou seu caminho na TI, onde está há uns 26 anos. O cara é conhecido por não ter papas na língua e por um senso de humor bem afiado, que nem todo mundo entende. Já rolou até uma fase de co-apresentador no programa Gazeta Games na Rádio Gazeta de São Paulo, mostrando seu lado gamer. E, claro, a música? Continua sendo uma das suas grandes paixões.

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Uma resposta para “Songwriter: As vozes perdidas de Johnny Cash”

  1. Avatar de Lucas de Souza Campos
    Lucas de Souza Campos

    Excelente texto, como sempre, Júlio!

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