A história tensa de “Marquee Moon”, contada por Richard Lloyd, guitarrista do Television
Resumo
- ▪ Richard Lloyd contou à Uncut como o Television nasceu em Nova York, do encontro com Tom Verlaine em 1973.
- ▪ O grupo abriu o CBGB em março de 1974 e levou Talking Heads, Ramones e Blondie ao palco da casa.
- ▪ "Marquee Moon" saiu em 8 de fevereiro de 1977, com Andy Johns como produtor e muita tensão no estúdio.
Quando “Marquee Moon” chegou às lojas, em 8 de fevereiro de 1977, o Television já tinha atravessado três anos de ensaios caóticos, brigas internas e um produtor que preferia dormir a trabalhar.
A história começa no outono de 1973. Lloyd tinha voltado a Nova York, circulava pelos fundos do Max’s Kansas City e acabou conhecendo Terry Ork, que tinha um loft enorme em Chinatown e um quarto sobrando. Ork gerenciava uma loja de memorabilia de cinema, a Cinemabilia, onde trabalhava Richard Meyers, o futuro Richard Hell. Foi Ork quem falou de um sujeito que, como Lloyd, passava os dias tocando guitarra elétrica sozinho: Tom Miller, o futuro Tom Verlaine.
Lloyd foi com Ork ao Reno Sweeney’s, onde Verlaine tocaria numa noite de testes. Ele chegou com uma camisa velha e amarelada, que Hell rasgou ali mesmo, aumentando um buraco até deixar um mamilo à mostra. Verlaine tocou três músicas, e a segunda era “Venus De Milo”. Só de ouvir os acordes rítmicos, Lloyd decidiu que a banda de Ork devia ser feita com os dois juntos.
As guitarras se encaixaram de imediato. Lloyd vinha do rock clássico, com bends de tom e meio-tom, e dizia ter aprendido com alguém que recebera lições de Jimi Hendrix. Verlaine usava um vibrato clássico, de violinista, com micro-bends, quase como um tocador de sitar. Para Lloyd, os dois estilos juntos tinham tudo o que uma dupla de guitarras poderia querer.
Faltava o resto. Hell resistiu a tocar baixo (“tocar com o Tom é como ir ao dentista, só que você preferiria o dentista”) e cedeu com elogios sobre o visual. Verlaine insistiu em Billy Ficca na bateria, que três dias depois já irritava o guitarrista por ter virado “baterista de jazz”. Lloyd argumentou que os grandes guitarristas, de Jimmy Page a Hendrix, sempre tiveram bateristas malucos.
Sem lugar para tocar, o grupo alugou o Townhouse, teatro de 88 lugares na Rua 44. Para conseguir uma frase de apoio, Ork levou o diretor Nicholas Ray, de “Rebel Without A Cause”, ao loft, mediante um galão de vinho. Ray ouviu o repertório desajeitado e disse: “São quatro gatos com paixão”. Depois, apagou. A frase foi usada. O show de 2 de março de 1974 encheu quase todo o teatro, ainda que, nas palavras de Lloyd, fossem “os Sex Pistols que não sabiam tocar”.
O passo seguinte mudou a cena da cidade. Verlaine, que andava pela Bowery até os ensaios, achou um bar decadente onde um homem consertava o toldo: Hilly Kristal e seu CBGB. O primeiro show lá foi no último domingo de março, a pior noite da casa. Ork garantiu que lotaria o lugar de amigos alcoólatras, e Kristal deu quatro domingos seguidos. Logo Ork passou a organizar a programação, e Talking Heads, Ramones e Blondie entraram por esse caminho, segundo Lloyd.
No fim de 1974, Richard Williams, da Island, levou Brian Eno para gravar uma demo. Eno veio com ideias como colar os amplificadores no teto e picar as letras e jogá-las para o alto. A banda recusou. Das seis músicas, cinco eram de Verlaine e só uma de Hell, o que irritou o baixista. Verlaine também o pressionava para parar de se mexer no palco e quis ocupar o centro, lugar até então de Lloyd.
Hell acabou saindo, e Lloyd quase foi atrás. Verlaine chamou Fred Smith, que deixou o Blondie. Em dez minutos de ensaio, Lloyd admitiu que funcionava: Smith segurava o andamento e Ficca podia enlouquecer sem que o grupo deixasse de soar como banda.
A gravadora veio devagar. Na audição para a Atlantic, o presidente Ahmet Ertegun disse: “Isso não é música da Terra”. Enquanto o resto do CBGB assinava rápido, o Television esperou uma oferta razoável da Elektra e assinou no verão de 1976. Sem querer produtor, mas obrigados pela gravadora, escolheram Andy Johns, engenheiro de discos dos Stones e do Zeppelin e irmão de Glyn Johns.
O primeiro dia, em novembro de 1976, começou às 14h, e Johns apareceu às 16h30. Reclamou do estúdio A&R, de Phil Ramone, e mostrou a bateria que montara na véspera, com um som enorme à John Bonham. Verlaine reagiu com horror. Johns murmurava que eles queriam soar mal como o The Velvet Underground ou o The Stooges.
Foi Lloyd quem propôs dobrar as partes de guitarra, tocando-as de novo igual para formar um par estéreo. Verlaine gostou e pediu o mesmo em tudo. O solo de “Elevation” é Lloyd tocando duas vezes, nota por nota. Sem dinheiro para alugar um alto-falante rotativo, Johns girou um microfone sobre a cabeça como laço, quase acertando o nariz do guitarrista.
As histórias de Johns não acabam aí. Num dia chegou às 18h, depois de ser algemado à cama por duas mulheres que levaram sua carteira. Em outro, dormia na cadeira de produtor com uma garrafa de vinho. A banda gravou “Prove It” ao redor dele, subindo o volume até acordá-lo. Ele perguntou, em pânico, se tinha gravado aquilo. “Deus, eu sou bom”, comemorou. Essa é a versão que está no disco.
O álbum ficou pronto no fim de 1976 e, segundo Lloyd, nunca saiu de catálogo em 35 anos. O contraste veio com “Adventure”, de abril de 1978. Sem ensaiar antes, só “Foxhole” e “Careful” vinham do repertório ao vivo, e Verlaine recusou canções como “Kingdom Come”, “Double Exposure” e “Breakin’ In My Heart”. Em três meses a banda acabou.
Por volta de 1990, os empresários reaproximaram os dois, e o grupo voltou a soar como Television. O terceiro disco, para Lloyd, ficou “Television-lite”, enquanto o ao vivo trazia a força real. De 1993 a 2007, Verlaine falava em gravar, mas nada saiu. Lloyd deixou a banda em 2007 e lançou “The Radiant Monkey”, mais dois discos solo e, com o Rocket From The Tombs “Rocket Redux” e “Barfly”. Sobre Verlaine, resume: pode ser o sujeito mais engraçado da Terra, mas muitas vezes não quer sair da cama.
Para Lloyd “Marquee Moon” não é uma coleção de faixas, mas uma coisa só: “Como o Monte Everest”.
A notícia da morte de Lloyd, guitarrista e cofundador do Television, já havia sido precedida pela do baixista Fred Smith, que entrou na banda na fase decisiva descrita acima. Para quem ouve hoje, o relato ajuda a escutar “Marquee Moon” como Lloyd pedia, de ponta a ponta e sem pular faixas.


