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Histórias

As cinco piores músicas do classic rock a vender mais de 10 milhões de cópias

5 min de leitura
Foto: Far Out / Allan Warren / Alamy
Foto: Far Out / Allan Warren / Alamy
Resumo
  • ▪ O ChartMasters aponta que só 290 músicas da era moderna venderam mais de 10 milhões de unidades.
  • ▪ A lista das cinco piores inclui Stevie Wonder, John Lennon, Rod Stewart, Elton John e Bryan Adams.
  • ▪ "Woman", de Lennon, vendeu 18.844.000 em parte pelo lançamento um mês após a morte do músico em 1981.

Se existe uma fórmula para entrar de vez na cultura popular e render royalties sem fim, ela talvez passe por um apóstrofo no título. Não é garantia, mas basta dizer “livin'”, “believin'” ou “stayin'” para que qualquer pessoa saiba de quais músicas se trata.

Os apóstrofos estão em “Livin’ on a Prayer”, do Bon Jovi “Don’t Stop Believin'”, do Journey, e “Stayin’ Alive”, dos Bee Gees. As três figuram entre as 20 músicas mais vendidas da história, segundo o levantamento do ChartMasters.

O site usa o Commensurate Sales to Popularity Concept (CSPC), um sistema que reúne singles em vinil, vídeo e streaming numa mesma escala. O resultado é uma estimativa não oficial, mas bem fundamentada, das vendas totais de cada faixa.

Pelos números mais recentes, só 290 músicas da era moderna passaram de 10 milhões de unidades. “Ramble On”, do Led Zeppelin, é a 290ª, mal cruzando a linha. No topo está “My Heart Will Go On”, de Celine Dion, associada ao filme “Titanic”, com cerca de 63.969.000 vendas.

Quanto mais velha a música, mais chances ela teve de voltar à conversa por meio de remasterizações e trilhas sonoras. Por isso a lista tem muitos clássicos do rock. Na maioria, não há o que contestar: “Hotel California”, do Eagles (54 milhões)”Bohemian Rhapsody”, do Queen (35 milhões), e “Wish You Were Here”, do Pink Floyd (24 milhões).

Bandas de rock lideradas por mulheres são raras ali, já que a maioria das artistas do clube dos 10 milhões é de cantoras pop. Como consolo, nenhuma banda com vocalista feminina entra nesta seleção das cinco piores.

Com 11.259.000 de vendas estimadas, a faixa representa uma guinada para o que o autor chama de a forma mais sem graça de sentimentalismo sintetizado. Os anos 1980 foram duros com muitos grandes nomes da década anterior, e Stevie já havia flertado com o açucarado em “You Are the Sunshine of My Life”.

Hoje é difícil ouvi-la sem lembrar da cena de Jack Black como o vendedor Barry no filme “High Fidelity” (2000), quando um cliente quer comprá-la de presente para a filha. “Não, não pode”, reage Barry, chamando o single de “porcaria sentimental e cafona”. E completa: “Você conhece mesmo sua filha? Não tem como ela gostar dessa música. Ah! Espera. Ela está em coma?”

A escolha pode parecer dura, pois “Woman” é bem melhor que a faixa de Stevie Wonder. Com 18.844.000 de vendas, é a segunda música solo mais vendida de Lennon na lista, atrás apenas de “Imagine”. O motivo é o momento do lançamento: foi o segundo single de “Double Fantasy” e o primeiro após a morte do músico, em janeiro de 1981, pouco mais de um mês depois.

Com milhões de pessoas de luto, chegou ao primeiro lugar no Reino Unido e ao segundo nos Estados Unidos, barrada apenas por “(Just Like) Starting Over”, single anterior de Lennon e Ono.

Quando surgiu como faixa do álbum, a bela ode a Yoko não se destacava como novo clássico. Alguns fãs acusaram Lennon de ter perdido a ferocidade depois de anos longe dos estúdios, com a raiva e o discurso político trocados por canções sobre ser rico e feliz. Também não é “I Am the Walrus” em matéria de letra: “Por favor, lembre que minha vida está em suas mãos / E, mulher, abrace-me junto ao seu coração / Por mais distante, não nos separe / Afinal, está escrito nas estrelas”.

Com 15.451.000 de vendas, a música rendeu a Rod Stewart muita crítica em 1978, por trocar o blues rock pela dance music de Studio 54. Para o autor, porém, o problema não é o estilo nem a produção.

A letra presunçosa já soa pouco atraente vinda de um cantor pop dos anos 1970, ainda mais sob os critérios atuais. Há também a falta de autenticidade: Stewart poderia ter defendido a guinada disco, mas fez o oposto diante das críticas. “Estou muito insatisfeito com o rádio”, disse ao Toronto Star em 1979. “Eles põem essas malditas músicas disco o tempo todo.”

Quando um repórter lembrou que ele acabara de emplacar um hit disco, respondeu: “Foi só uma música. Gosto de algumas, como Donna Summer e outras, mas a maioria é doentia. É música de lavagem cerebral.”

É a escolha mais polêmica, admite o autor. Com 13.821.000 de vendas, é a terceira música mais vendida de Elton John no ranking, atrás de “Your Song” e “Rocket Man”. Vender mais que o dobro de “Goodbye Yellow Brick Road” parece absurdo, mas ele entende: o piano pulsante prende a atenção de cara.

O problema é que, passada a novidade, a faixa não vai embora. Ela faz parte do pequeno grupo de hits do classic rock que usou a gagueira fingida como recurso estético, como “My Generation”, do The Who, e “You Ain’t Seen Nothing Yet”, do Bachman-Turner Overdrive, o que não envelhece bem. Para o autor, a música é longa demais para ser tão repetitiva: se caísse de 5:22 para 3:40, talvez houvesse acordo.

A power ballad de 1985 passou de 10 milhões (10.762.000) e ocupa a 248ª posição entre todas as músicas, um número alto para uma faixa que raramente aparece em conversas sobre os grandes sucessos dos anos 1980.

Adams, canadense, tem duas músicas entre as 40 mais vendidas da história: “Summer of ’69” e a balada de “Robin Hood”, “(Everything I Do) I Do It for You”. A segunda soou forçada como “classic rock”, então “Heaven” entra na lista. Não é terrível nem vergonhosa, é apenas uma música de Bryan Adams: um colete salva-vidas loiro e morno de rock para as massas num mar de esquisitices dos anos 1980. O autor acha que “Run to You” era melhor e não deveria ter ficado de fora.

Autor

  • Marcelo Scherer

    Jornalista, editor-chefe e fundador do portal Disconecta. Aos 46 anos, respira o ecossistema musical cobrindo rock, indie e cultura alternativa. É uma voz ativa no resgate da cultura física como host do podcast e newsletter Papo de Colecionador, dedicado a LPs e CDs. Além de assinar resenhas críticas no site, expande o debate musical no comando dos programas Disconecta na Rádio na Fm Cultura 107,7 de Porto Alegre/RS e Pôr do Som na Sintonia Fm 94.7 de Torres/RS.

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