Como Cliff Burton virou uma lenda do baixo antes mesmo de entrar no Metallica
Resumo
- ▪ Cliff Burton nasceu em Castro Valley, em 1962, e escolheu o baixo aos 13 anos após a morte do irmão Scott.
- ▪ Antes do Metallica, tocou em Fry By Nyte, EZ-Street, Agents Of Misfortune e Trauma, ao lado de Mike Bordin e Jim Martin.
- ▪ Brian Slagel o indicou ao Metallica no fim de 1982, e ele aceitou se a banda fosse para a Bay Area.
Muito antes de subir ao palco com o Metallica, Cliff Burton já chamava atenção por onde passava. Quarenta anos depois da morte do baixista, ex-companheiros de banda, amigos e professores contam como nasceu o músico que só viria a ser conhecido pelo mundo todo na década de 1980.
Cliff nasceu em Castro Valley, na Califórnia, em 1962. O interesse pela música veio cedo, quando o pai, Ray, o apresentou a compositores clássicos e o colocou em aulas de piano. A virada para o baixo, porém, aconteceu aos 13 anos, por uma soma de circunstâncias.
A primeira foi a morte do irmão mais velho, Scott, vítima de uma hemorragia cerebral aos 16 anos. “Pouco depois da morte de Scott, Cliff veio até a mãe e a mim e disse: ‘Mãe e pai, eu gostaria de aprender baixo'”, contou Ray Burton ao Alphabetallica. Cliff dizia que seria “o melhor” baixista em homenagem ao irmão.
A segunda foi a amizade com o colega de escola Mike Bordin, que depois cofundaria o Faith No More. Os dois descobriam juntos cada vez mais estilos musicais. “Era 1975, eu estava no quarto do meu amigo Cliff Burton e ele disse: ‘Cara, eu vou tocar baixo’. E eu respondi: ‘Beleza, eu toco bateria’. Foi uma reação totalmente impulsiva, sem pensar”, disse Mike à Modern Drummer. Segundo ele, ver os Sex Pistols no Winterland, em 1978, foi um ponto de virada: “Estávamos abertos à evolução”.
A dupla formou a Fry By Nyte. Mike descreveu o primeiro show como “pura bagunça”, num antigo cinema, de forma “totalmente ilegal”, com um caminhão de bebida nos fundos e nenhuma licença. Depois de alguns anos, o guitarrista Jim Martin, que também se tornaria nome do Faith No More, os chamou para a EZ-Street, banda batizada com o nome de um clube de striptease local.
“Nosso baixista saiu e ele nos falou do Cliff”, disse Jim à Guitar World em 1992. “Ele já era muito bom, bem melhor do que o resto de nós. E tinha praticamente o mesmo visual da época do Metallica: calça boca de sino e cabelão.” Cliff conhecia Bordin e o levou para o grupo.
Sempre ansioso por evoluir, Cliff procurou um professor de baixo. Com apoio dos pais, testou dois e dispensou ambos, porque nada tinham a ensiná-lo. O terceiro foi Steve Doherty, músico de jazz com formação clássica. “Era como ser um detetive, em vez de dizer: ‘Vire a página e toque esta escala'”, lembra. Ele incentivou o aluno a ler partitura e apresentou melodias barrocas de Bach e compassos irregulares, de Dave Brubeck a Tchaikovsky. “Cliff chegava totalmente preparado, cheio de perguntas”, diz Steve.
Quando a EZ-Street se desfez, no início de 1981, Cliff estudou música clássica e teoria musical no Chabot College. Integrou o Agents Of Misfortune, trio instrumental com Jim Martin, e tocava com músicos da região. Mike Overton, guitarrista do Trauma, primeira banda profissional de Cliff, recorda as festas de Castro Valley, como as do Judd’s Barn: “Cliff era figura constante no baixo naquelas jams”.
Cliff aceitou entrar no Trauma numa festa, no verão de 1981, mas antes tocaria numa Battle Of The Bands com o Agents Of Misfortune. Mesmo com futuros integrantes de duas das maiores bandas do mundo, não impressionaram os jurados. “Deram 12 minutos para tocarmos algumas músicas e tocamos a mesma por 12 minutos”, disse Jim Martin no livro “The Real Story”, do Faith No More. Para Overton, os jurados “procuravam o próximo Journey”.
No começo, Overton estranhou o jeito de Cliff: “Ele tocava coisa demais e eu ficava confuso. Mas encaixava”. O Trauma ganhou nome na cena local e, em 1982, Brian Slagel, fundador da Metal Blade Records, que lançara a coletânea “Metal Massacre” (com a primeira aparição profissional do Metallica, em “Hit The Lights”), incluiu a banda na sequência. Ele foi ver um show no Troubadour, em Los Angeles. “Em 30 segundos percebi que a banda era OK, mas o baixista era incrível”, diz. “Passei o show inteiro olhando para ele.”
No fim de 1982, Lars Ulrich contou a Slagel que o Metallica buscava um substituto para Ron McGovney. Brian indicou Cliff de imediato. Depois de vê-lo ao vivo, a banda fez o convite, que ele aceitou com a condição de o grupo se mudar de Los Angeles para a Bay Area. O Metallica topou sem pensar duas vezes.
Dave Mustaine lamentou depois o modo como tudo se deu, comparando a captura de integrantes a ser “um destruidor de lares”. Já Overton não guardou mágoa: “Os outros do Trauma estavam indo para um som mais leve. No primeiro show do Metallica com o Cliff, ele me pôs na lista de convidados e fiquei impressionado com a força bruta”. A conclusão dele: Cliff tomou a decisão certa.
O Cliff Burton Day acontece em 10 de fevereiro de 2026, no Chabot Theater, em Castro Valley.
A memória do baixista segue viva nas matérias da casa. O museu imersivo em 3D sobre Cliff Burton, criado pelo espólio do músico e pela KnuckleBonz360, é um dos projetos recentes. Já as memórias do assistente de engenharia de “Kill ‘Em All”, em “Bass Solo, Take One”, ajudam a entender o começo da banda com ele.


