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Histórias

Como o primeiro Ozzfest, em 1996, tirou o metal da lona e abriu caminho para o nu metal

5 min de leitura
Foto: Mick Hutson/Redferns via Getty
Foto: Mick Hutson/Redferns via Getty
Resumo
  • ▪ O primeiro Ozzfest ocorreu em 25 e 26 de outubro de 1996, em Phoenix e San Bernardino, com 12 bandas.
  • ▪ Sharon Osbourne criou o festival depois de o Lollapalooza recusar Ozzy por ele não ser considerado relevante.
  • ▪ O evento cresceu, ajudou a lançar o nu metal e volta em 2027 no Reino Unido, nos EUA e no México.

Em 25 de outubro de 1996, uma sexta-feira quente, cerca de 20 mil pessoas lotaram o Blockbuster Desert Sky Pavilion, anfiteatro ao ar livre em Phoenix, no Arizona. Eram 12 bandas num palco que desafiava os árbitros do que era considerado descolado. O gênero, que penava para ter espaço no mainstream desde o início da década, mostrava que continuava vivo.

O cartaz misturava veteranos e sangue novo. Slayer e Danzig eram a realeza do metal dos anos 90. Logo abaixo vinham Sepultura, Fear Factory, Biohazard e Neurosis, que levavam a cena para uma nova fase, ainda que nenhuma delas tivesse extrapolado seus limites. No segundo palco, a nova geração aparecia com Coal Chamber e Powerman 5000, nomes ainda pouco conhecidos. No topo, de braços abertos, estava Ozzy Osbourne, que dava nome ao evento: Ozzfest (oficialmente The Ozzfest naquele primeiro ano). O show se repetiu no dia seguinte no Glen Helen Blockbuster Pavilion, em San Bernardino, na Califórnia.

O festival nasceu num momento difícil. Com exceção do Metallica, as bandas de metal já não vendiam milhões de discos em 1996, já que o grunge e o rock alternativo haviam tomado o lugar do gênero. Max Cavalera, então no Sepultura, resume o clima: “Naquele momento, o metal estava fora, tipo ‘vocês acabaram!’. Tudo o que as pessoas queriam era grunge. Era flanela, Seattle e chuva.”

Foi nesse cenário que Sharon Osbourne, esposa e empresária de Ozzy, transformou uma recusa em projeto. Segundo Dino Cazares, do Fear Factory, a banda soube por Sharon que o Lollapalooza havia rejeitado Ozzy por ele ser “metal demais”. A própria Sharon contou: “Eu queria o Ozzy no Lollapalooza, e a resposta foi: ‘Ele não é relevante.’ Eu disse: ‘Dane-se, vamos fazer o nosso, e vai ser um festival de metal.’” Ela também afirmou que sabia que o público esperava por isso: “A imprensa musical não escrevia sobre metal, mas ela só quer falar do gosto novo do dia. O metal não estava morto, de jeito nenhum.”

A aposta fazia sentido para bandas barradas no Lollapalooza, como Slayer, Sepultura e Danzig, e coincidia com os primeiros sinais de uma cena nova em Los Angeles, em torno de Fear Factory, Coal Chamber e Korn. Dino Cazares lembra que, apesar de “Demanufacture” já estar nas lojas, a banda estava sem dinheiro e aceitou qualquer chance de exposição. Dez Fafara, do Coal Chamber, conta que a banda procurou John Fenton, braço direito de Sharon, para tentar entrar no cartaz.

Nem todos estavam convencidos. Billy Graziadei, do Biohazard, admite que não via tanta demanda nos Estados Unidos, onde a música ainda era muito segregada, ao contrário da Europa. “Mostra o quanto eu sabia”, brincou. Ozzy também ficou nervoso. Segundo Sharon, ele disse: “Se isso fracassar, não vamos ficar só com ovo na cara, vamos ficar com a omelete inteira.” Houve ainda egos e atritos, como a disputa entre Sepultura e Slayer por comentários feitos em entrevistas. Os dois shows encerravam a turnê de retorno de Ozzy, a Retirement Sucks!, iniciada 16 meses antes no Reino Unido.

Nos bastidores, o clima era de camaradagem. Cazares lembra que a banda chegou de van e foi mandada estacionar ao lado do ônibus de Ozzy, sem as restrições corporativas dos festivais de hoje. Graziadei conta que o primeiro dia foi meio caótico e o segundo, bem mais organizado. Para Fafara, ver o Slayer circulando ali foi o momento de pensar: “Agora estamos no clube dos grandes.” Sharon disse que as bandas se comportaram tão bem que ela não precisou dar bronca em ninguém, exceto na empresa de merchandising, porque os produtos acabaram às duas da tarde.

O cartaz do palco principal reuniu Fear Factory, Biohazard, Sepultura e Danzig (que haviam acompanhado Ozzy na Retirement Sucks!), além de Slayer e Neurosis. No segundo palco estavam Earth Crisis, Coal Chamber, Powerman 5000, Cellophane e King Norris, banda liderada por Fred Norris, parceiro de Howard Stern. Graziadei notou que havia cadeiras vazias e que os assentos fixos até o palco impediam a formação de rodas. Anos depois, as casas aprenderam a remover as primeiras fileiras. Já Cazares viu fogueiras acesas no gramado durante o show do Slayer, com rodas de pogo em volta do fogo. Fafara descobriu o Neurosis ali (“isso mudou minha vida”) e saiu do palco com um convite de Sharon, que lhe deu uma pulseira cromada e disse: “Quero ser sua empresária.”

Sobre o saldo, Graziadei foi direto: o set de Ozzy foi o ponto alto do dia e de toda a turnê. Sharon não hesitou: foi um sucesso “mil por cento”.

O teste passou com louvor. No ano seguinte, o festival voltou ampliado, numa turnê de 22 datas com o Black Sabbath reunido e Ozzy fazendo também um show solo. Nos anos seguintes, cresceu em tamanho e sucesso. Não reviveu o metal sozinho (Korn, Deftones, Limp Bizkit e Slipknot tiveram papel inegável), mas deu ao gênero a plataforma e a identidade de que precisava. Vieram outras turnês nessa linha: o Family Values, do Korn, o Anger Management, do Limp Bizkit, e o Projekt Revolution, do Linkin Park.

Cazares diz que o evento subiu de patamar em 1997, com o Pantera no cartaz: Dimebag Darrell e Vinnie Paul montavam churrasqueira ao lado do ônibus e mantinham caixas de gelo cheias de cerveja. Segundo ele, o Ozzfest lançou carreiras de System Of A Down, Slipknot, Limp Bizkit e Disturbed. Cavalera resumiu: “O Ozzfest fez o metal ser importante de novo. Fez ele ser relevante.”

O brilho foi diminuindo no fim dos anos 2010, e o último Ozzfest ocorreu em 2018, num show único no LA Forum. Mas não foi o fim: Sharon planeja trazer o Ozzfest de volta em 2027, com datas em Milton Keynes (Reino Unido), no Glen Helen Amphitheater, em San Bernardino, e no Estadio GNP Seguros, no México. Fafara celebra a ideia: “O que Ozzy ia querer fazer? Ele ia querer trazer o Ozzfest!” Sharon completa: “Ozzy tinha muito orgulho do que fizemos. Era sobre manter o metal vivo e passar a tocha para os mais jovens. Esse é o gênero que não morre.”

Autor

  • Marcelo Scherer

    Jornalista, editor-chefe e fundador do portal Disconecta. Aos 46 anos, respira o ecossistema musical cobrindo rock, indie e cultura alternativa. É uma voz ativa no resgate da cultura física como host do podcast e newsletter Papo de Colecionador, dedicado a LPs e CDs. Além de assinar resenhas críticas no site, expande o debate musical no comando dos programas Disconecta na Rádio na Fm Cultura 107,7 de Porto Alegre/RS e Pôr do Som na Sintonia Fm 94.7 de Torres/RS.

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