Como “Papa’s Got A Brand New Bag”, de James Brown, ajudou a dar forma ao funk em 1965
Resumo
- ▪ "Papa’s Got A Brand New Bag" foi a primeira música gravada por James Brown após o acordo com a King Records.
- ▪ A faixa enfatizava o primeiro tempo de cada compasso, traço que viria a definir o funk.
- ▪ O single de 1965 levou Brown ao Top 10 das paradas pop pela primeira vez.
James Brown colecionou apelidos grandiosos ao longo da carreira. “O Padrinho do Soul” e “O Homem que Mais Trabalha no Show Business” são os mais lembrados. Houve outro, menos conhecido: “Ministro do Novo Super Heavy Funk”. E foi o single “Papa’s Got A Brand New Bag”, de 1965, que garantiu o título de vez.
Antes de chegar ao grande público, Brown já emplacava sucessos no universo do R&B. Também já causava barulho fora da música, ao brigar por direitos de artista que considerava negados a ele.
Seus êxitos do início dos anos 1960, embora importantes, vinham sobretudo em baladas, estruturadas como muitos outros híbridos de gospel e soul. Quem o via ao vivo, com uma banda incendiária atrás, ouvia um talento que os singles de estúdio não capturavam por completo.
O álbum de show “Live At The Apollo”, de 1963, seu maior sucesso fora do nicho até então, ajudou a corrigir isso. Mas a carreira em estúdio travou um ano depois, quando ele entrou em conflito com a gravadora, a King Records, que conseguiu uma liminar impedindo novas gravações. Quando as partes fizeram acordo, um ano mais tarde, Brown correu para o estúdio. “Papa’s Got A Brand New Bag” foi a primeira música que registrou.
A faixa partiu de avanços rítmicos que ele já havia explorado em “Out Of Sight”, de 1964. Ao contrário dos hits da Motown, que dominavam o R&B na época e deslizavam com suavidade, a música gaguejava, cutucava e golpeava. Os metais surgiam em frases picantes nos espaços deixados pela guitarra cortante e pelo baixo borbulhante.
A maior novidade foi a ênfase no primeiro tempo de cada compasso, uma mudança grande em relação à música popular da época. Esse seria o traço definidor do funk, gênero que só atingiria seu auge muitos anos depois.
O público talvez não soubesse exatamente o que ouvia, mas adorou. Brown, que também escreveu e produziu a faixa, chegou pela primeira vez ao Top 10 das paradas pop.
A letra, improvisada em boa parte na hora, conta uma história que combina com a música. Na superfície, fala de um homem mais velho disposto a acompanhar todas as novas danças. “Ele não é muito descolado”, diz Brown “sobre essa coisa da nova geração”. E admite: “Ele não é muito elegante, mas o seu passo é bem limpo”.
No refrão (“Ele não é careta/O papai tem um novo estilo”), é fácil imaginar um recado nada sutil. Um artista já estabelecido mudava as regras do jogo em pleno andamento e desafiava todo mundo a correr atrás.