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Ed Motta — Toc-Toc (2026)

5 min de leitura
Ed Motta - Toc Toc
Foto: Ed Motta – Toc Toc

Em Toc-Toc, Ed Motta retoma uma sonoridade que faz parte de sua formação musical: o soul, o funk e o electrofunk que marcaram sua juventude e influenciaram seus primeiros trabalhos. Não se trata, porém, de uma tentativa de repetir o passado. O álbum recupera essas referências com a experiência acumulada ao longo de décadas, deixando de lado parte da elaboração dos trabalhos mais recentes para privilegiar o groove, as melodias e os refrões.

A volta também acontece pela língua. É o primeiro álbum inteiramente em português desde AOR (2013), que ganhou também uma versão com letras em inglês. Para encontrar outro trabalho totalmente em seu idioma materno, é preciso voltar a Piquenique (2009). Nesse intervalo, Ed lançou discos que aprofundaram sua relação com o jazz, o soul e arranjos mais complexos, como Perpetual Gateways (2016), Criterion of the Senses (2018) e Behind the Tea Chronicles (2023). Toc-Toc não rompe com essa trajetória, mas recupera uma relação mais direta com a canção pop.

As referências ao Cameo, à S.O.S. Band e ao Enchantment aparecem na combinação de baixo eletrônico, bateria programada, sintetizadores e melodias próximas do R&B produzido entre o fim dos anos 1970 e os anos 1980. Também há uma conexão com Robson Jorge e Lincoln Olivetti, especialmente no uso dos teclados e na maneira como os arranjos combinam sofisticação harmônica e balanço. O resultado tem uma sonoridade oitentista assumida, mas não depende apenas da nostalgia.

Ed Motta. Foto: Jorge Bispo
Ed Motta. Foto: Jorge Bispo

“Eu Quero Ser Feliz”, que abre o álbum, apresenta bem essa proposta. O baixo eletrônico e a bateria programada conduzem a música, enquanto Ed trabalha uma melodia de apelo imediato. Sua maneira de encaixar as palavras no ritmo continua particular. O músico já explicou que costuma pensar nas melodias a partir da sonoridade fonética do inglês, adaptando depois as letras ao português. Isso ajuda a entender algumas divisões pouco convencionais, mas que fazem parte de seu estilo.

“O Desejo Está Nu” aproxima o disco da música brasileira dos anos 1980. A lembrança de Robson Jorge e Lincoln Olivetti aparece nos timbres e na combinação de harmonia e groove. É uma faixa que lembra as trilhas de novelas da época e as imagens ensolaradas das ilustrações de Hiroshi Nagai. Já a faixa-título aposta em um funk mais direto, com referência a James Brown e uma base rítmica construída sobre a repetição. Aqui, baixo e bateria são o centro da composição.

“Glamour Hotel” tem uma história particular. A música é uma parceria antiga com Leoni, composta há cerca de três décadas e cogitada para Manual Prático para Festas, Bailes e Afins (1997), mas deixada de fora na ocasião. Em Toc-Toc, encontra um contexto mais adequado, com sua atmosfera pop oitentista. É interessante que uma composição guardada por tanto tempo tenha sido recuperada justamente em um álbum que revisita parte das referências musicais de Ed.

O repertório também oferece variações. “Casa de Frente pro Mar” se aproxima da bossa nova, enquanto “A Marina Acende” traz um balanço que lembra João Donato e Marcos Valle. “Beth”, com participação do saxofonista Marcelo Martins, segue pelo caminho da balada funk. Já “Não Tem Contradição”, “O Grande Plano” e “Um Dia de Sol” mantêm a unidade do álbum sem repetir exatamente a mesma fórmula. “Voltei Pra Mim”, que encerra o disco, funciona como uma síntese do movimento proposto: uma reconexão com elementos que sempre fizeram parte da identidade do músico.

Ed Motta — Toc-Toc (2026)

Dez das onze letras são parcerias de Ed com sua esposa, Edna Lopes. A exceção é “Glamour Hotel”, assinada com Leoni. A colaboração com Edna, presente também em trabalhos anteriores, contribui para o caráter mais direto das composições. As letras deixam espaço para as melodias e não procuram acompanhar a complexidade harmônica dos arranjos com imagens excessivamente elaboradas.

A produção, dividida entre Ed e Michel Limma, segue a mesma orientação. Gravado em casa, o álbum utiliza sintetizadores, baixo eletrônico e programação de bateria como elementos centrais. Depois de anos trabalhando com arranjos cheios de camadas, Ed parece ter buscado outro tipo de desafio: escrever canções pop com refrões fortes e estruturas mais concisas, sem abrir mão de sua personalidade musical.

O título pode até sugerir uma porta sendo aberta, mas o que interessa em Toc-Toc está nas próprias canções. Ed Motta demonstra que continua à vontade com o soul, o funk e o electrofunk, especialmente quando encontra espaço para trabalhar melodias e grooves sem sobrecarregar os arranjos. O álbum tem momentos muito bons, embora algumas faixas não alcancem a mesma força e a unidade sonora acabe tornando parte do repertório previsível.

No conjunto, é um trabalho que valoriza o prazer de tocar, cantar e construir boas canções. As referências aos grupos de funk e soul dos anos 1980 estão por toda parte, mas não funcionam como simples citações: fazem parte da linguagem que Ed desenvolveu ao longo da carreira. Toc-Toc talvez não esteja entre seus discos mais surpreendentes, mas oferece onze composições bem cuidadas e mostra um artista que sabe exatamente o tipo de música que quer fazer.

Autor

  • Luis Fernando Brod

    Publicitário, redator e pesquisador musical com foco em classic rock, hard rock e bastidores da indústria fonográfica. Especialista com mais de 5 anos em resgatar a história por trás de álbuns lendários e dissecar a trajetória de ícones da música nas décadas de 70, 80 e 90. No Disconecta, assina reportagens especiais, retrospectivas e a cobertura diária do rock internacional. Criador do canal no youtube Minha Vida em Vinil onde cobre música e colecionismo em mídia física.

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