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Hawkwind e os 55 anos da viagem sonora de “In Search of Space”

5 min de leitura
Hawkwind – In Search Of Space Foto: Reprodução
Foto: Hawkwind – In Search Of Space Foto: Reprodução

O Hawkwind lançava há 55 anos o gigantesco In Search Of Space, que representa uma das pedras fundamentais na construção da identidade da banda.

O segundo de estúdio ampliou as experiências apresentadas em seu primeiro disco, lançado um ano antes, levantando mais ainda a psicodelia e entrando no eletrônico e experimental, contando com passagens instrumentais, riffs insistentes e sons que parecem vir de outro mundo, estabelecendo também as bases para o space rock.

Enquanto algumas bandas exploravam as possibilidades do rock progressivo e outras mergulhavam na psicodelia, o Hawkwind apareceu nesse momento, desenvolvendo uma linguagem própria e menos preocupada para o convecional e buscando na repetição a improvisação e criação de atmosferas. O interesse pelo espaço, contracultura e ficção científica não o restrigiam às letras e ao visual.

Com In Shearch Of Space a consistência aumentou. Com seis faixas e um pouco mais de 42 minutos, o Hawkwind simplesmente ignora qualquer parâmetra e faz uma viagem cheia de sons e cores. Já na primeira faixa somos arrematados. A construção das músicas em composições por meio de ciclos, camadas instrumentais e mudanças graduais de intensidade, entramos em um ambiente que se transforma continuamente.

Com Dave Brock nas guitarras e vocais, Nik Turner nos saxofone, flautas e vocais, Dave Anderson no baixo e guitarra, Terry Ollis na bateria, Del Dettmar assumindo os sintetizadores e Dik Mik nas experimentações eletrônicas, o álbum inicia com You Shouldn’t Do That, com sua estrutura repetitiva e instrumentos se expandindo no ambiente ao redor. Detalhe para Nik que acrescenta com seu saxofone uma sonoridade pouco convencional, atravessando cada trecho sem assumir o papel de um solista.

Sem se apressar a chegar em um refrão ou procurar mudanças constantes, o efeito é dado pela insistência do ritmo, te forçando a entrar em uma espécie de transe, para logo os elementos se acumularem e os efeitos alterarem a percepção de espaço e hipnótica.

You Know You’re Only Dreaming é outra faceta do Hawkwind. Contínua na psicodelia, se desenvolve de maneira mais acessível, com uma melodia reconhecível e uma estrutura menos expansiva. Dave Brock assume o protagonismo, ao lado dos efeitos dando uma sensação de distanciamento. Não há abandono de experimentação, sendo aqui uma das canções mais definidas do grupo que não perdem a personalidade.

Além disso, a familiaridade e estranheza se chocam! As longas improvisações produzem a sensação de viagem, sendo que, em alguns momentos, a textura do instrumento se altera, insistindo no padrão rítmico. Não há perda de unidade na intensidade.

Masters Of The Universe traz o riff marcante somado com a condução direta, sintetiando a capacidade do grupo de se aproximar do rock. A base pesada se casa perfeitamente aos efeitos e ao saxofone que aumenta seu alcance, tendo uma estrutura mais concentrada do que a abertura, dando a sensação de movimento contínuo com sua letra de dimensão cósmica e a ideia de se enxergar como parte do universo.

A faixa se tornou uma das mais conhecidas do grupo, sendo presença garantida nas apresentações ao vivo. A simplicidade e impacto é suficiente para a condução da música.

A redução da intensidade chega com We Took The Wrong Step Years Ago, te entregando um momento mais introspectivo. Melancólica e menos agressiva, cria-se um contraste importante dentro da sequência, permitindo perceber outras possibilidades. O equilíbrio que a faixa entrega ao álbum evita que se seja ao uniforme.

Enquanto algumas privilegiam a expansão instrumental, outras se apoiam em melodias mais claras.

Em Adjust Me, a experimentação volta a ocupar o primeiro plano, tendo um caráter mais imprevisível, com passagens que surgem espontaneamente e sem o mesmo de sempre. Detalhe que os instrumentos não seguem uma melodia central, abordando uma interação, se sobrepondo em alguns momentos, emanando uma instabilidade.

Children Of The Sun encerra com seus três minutos, mantendo a psicodelia do disco, mas oferecendo uma conclusão mais direta, evidenciando a diversidade do repertório: após longos desenvolvimentos instrumentais e experimentações, o álbum encerra sem algo épico.

De fato, a experiência que o Hawkwind tanto almeja em In Search Of Space não se limita ao conteúdo. A construção de identidade da banda segue sendo trabalhada ainda com o propósito de fazer com o que o ouvinte apenas viaje.

Se aproximando de hard rock e do folk rock somado com as insistências eletrônicas, o Hawkwind acaba não se enquadrando em apenas um gênero. A linguagem do Hawkwind é explorada e segue sendo atualmente. O caminho do space rock foi moldada, pavimentada, construída graças ao Hawkwind e seu interesse em criar atmosferas sem se preocupar com a concisão típica do rock mais direto.

Cada composição acrescenta uma dimensão ao universo construído com seus constrastes entre momentos mais pesados, melódicos e experimentais. A viagem não perde a sua direção, mesmo que você queira tomar o controle da situação.

Resumidamente, In Search of Space não é apenas um passo importante entre a estreia do Hawkwind e os trabalhos que viriam depois. É o registro de uma banda encontrando uma linguagem própria, combinando psicodelia, eletrônica e rock pesado sem precisar se prender às convenções de nenhum desses estilos.

É justamente nesses fatores que In Search Of Space abre caminho para um universo onde o rock deixa de ser uma sequência de canções e sim uma experiência de imersão.

Autor

  • Victor Persico

    Jornalista, especialista em cultura pop, rock clássico e vertentes. Com um olhar analítico para a indústria contemporânea, acompanha de perto os novos lançamentos, resenhas de discos recentes e a movimentação do mercado musical global, traduzindo o impacto cultural dos artistas que estão moldando o cenário atual.

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