Juan Atkins, “The Originator”: a trajetória do homem que desenhou o mapa do techno
Resumo
- ▪ Juan Atkins, o "The Originator" do techno, morreu em 31 de outubro, aos 64 anos, na Cidade do México.
- ▪ Ele ganhou seu primeiro Korg MS-10 aos 15 anos, formou o Cybotron e lançou "No UFO’s" em 1985 como Model 500.
- ▪ Com Derrick May e Kevin Saunderson, os "Belleville Three", ajudou a levar o techno de Detroit ao mundo.
Juan Atkins morreu em 31 de outubro, aos 64 anos, vítima de um ataque cardíaco, pouco antes de se apresentar no Yu Yu Cine Club, na Cidade do México. Conhecido como “The Originator”, ele é apontado como o criador do techno de Detroit. A história de como isso aconteceu passa por uma avó, um sintetizador e um programa de rádio.
Atkins nasceu em Detroit, em 1962. Quando seus pais se separaram, ele acabou indo morar com os avós em Belleville, subúrbio da cidade. Foi a avó, Lily, quem ajudou o garoto de 15 anos a comprar seu primeiro monossintetizador, um Korg MS-10. Ele já tocava em bandas de funk e prestava atenção no trabalho de Bernie Worrell no Funkadelic. Belleville era pacata, e Juan passava dias e noites experimentando com o instrumento, gravando bases, graves e percussões em fitas demo.
Na escola, conheceu Derrick May e Kevin Saunderson. O que unia os pioneiros do techno era o DJ The Electrifying Mojo, que durante cinco horas por noite, cinco noites por semana, misturava de tudo, com doses de pensamento sociopolítico e afrofuturista. “Nós ouvíamos religiosamente. Toda noite”, disse Atkins. No repertório de Mojo cabiam P-Funk, The B-52s, Kraftwerk, Herbie Hancock, Sparks e Human League, entre outros.
Já numa faculdade comunitária, Atkins chegou à primeira aula com demos de música eletrônica prontas e fez amizade com Richard Davis, o “3070”, dez anos mais velho. Juntos, formaram o Cybotron. Davis, ex-soldado no Vietnã que sofreu com o racismo e a violência na volta a Detroit, fazia música eletrônica desde o fim dos anos 1970 com um ARP Axxe, inspirado por Pink Floyd, Tangerine Dream e Goblin. Em 1978, gravou “Methane Sea”, que o texto original chama de a Pedra de Roseta do techno.
Os primeiros singles do Cybotron “Alleys of Your Mind” (1981) e “Cosmic Cars” (1982), seguiam de perto o modelo de Kraftwerk. Em “Clear” (1983), tudo se encaixou: depois de uma viagem a Nova York, onde ouviu o que Afrika Bambaataa fazia, Atkins incorporou a bateria eletrônica Roland TR-808 e trouxe o funk para a mistura.
Pouco depois, ele deixou o grupo. Davis queria guitarras num formato rock para o disco seguinte, e Atkins considerava aquilo um retrocesso. Ao lado de May e Saunderson, ele havia mergulhado nos romances de Arthur C. Clarke e nos escritos do sociólogo Alvin Toffler. Os três viam Kraftwerk, Gary Numan e o Ultravox de John Foxx como a imagem de um mundo pós-raça. Com equipamentos mais baratos e sintetizadores considerados obsoletos ao alcance das mãos, formaram o coletivo de pesquisa Deep Space Soundworks.
Em 1985, Atkins lançou “No UFO’s” como Model 500, pelo seu próprio selo, o Metroplex. Havia um ano que usava o termo “techno” para descrever sua música, e todos os elementos do gênero já estavam presentes. Toffler, em “The Third Wave”, chama de “Techno Rebels” quem usa a tecnologia a seu favor, e Atkins tirou “metroplex” de “Future Shock”, em que o autor descreve cidades que crescem até se fundir. Para o autor do texto, há consenso possível de que “No UFO’s” foi a primeira faixa de techno, num selo que foi o primeiro do gênero.
“Strings Of Life”, de Derrick May, é creditada por levar o techno de Detroit para o outro lado do Atlântico, e “Big Fun”, de Kevin Saunderson com o Inner City, foi o primeiro grande sucesso. O compilador Neil Rushton batizou o trio de “The Belleville Three”. O historiador DeForrest Brown Jr., autor de “Assembling A Black Counterculture”, diz que o rótulo foi “uma estratégia de marketing útil para vender o techno a um público de rock e synth pop” e que ele “ignora a comunidade interpessoal e a mitologia de ficção científica que se desenvolveram a partir da visão, à frente do seu tempo, de Juan Atkins”.
Em Detroit, o techno demorou a pegar: era considerado “branco demais para o público negro e negro demais para o público branco”. Mas, principalmente por meio da coletânea “Techno! The New Dance Sound Of Detroit”, de 1988, alimentou a cena rave do Reino Unido. O produtor King Britt afirma que o gênero ajudou a “moldar uma Berlim unificada, pós-Muro, como trilha de um novo mundo”. Os três de Belleville montaram seus estúdios na região do Eastern Market, logo apelidada de Techno Boulevard, e fundaram o clube Music Institute. Ondas posteriores trouxeram ritmos mais duros e a ética faça-você-mesmo do coletivo Underground Resistance.
Richie Hawtin reconhece a dívida: “Juan imaginou o techno antes de todos nós. Sem ele, nossa música não soaria como soa, se é que existiria. Ele recebeu um garoto nerd do Canadá na Techno Blvd com um sorriso encorajador e me fez sentir que havia um lugar para mim numa cena que ainda estava nascendo. Aquele momento mudou minha vida. Obrigado.”
Atkins seguiu ativo, lançando discos solo e em parceria, com o próprio nome e com aliases como Borderland, Infiniti e Audiotech. O Metroplex continuou funcionando, e ele também fez lançamentos com a Tresor. Sobre o que o atraía no sintetizador, disse certa vez: “O interessante do sintetizador é que ele podia fazer todo tipo de som que nunca tinha sido ouvido. Aquilo me fascinava porque eu sempre gostei de ficção científica. Eu queria pousar naves espaciais nos meus discos.” Perguntado se conseguiu, respondeu: “Com certeza.”
Quando se fala de exportações musicais negras dos Estados Unidos, jazz, funk, soul, hip hop e blues costumam vir primeiro. Mas, se existe uma linguagem musical internacional do século 21, ela é o techno, e o mapa dessa linguagem foi desenhado por Juan Atkins.
Para quem escuta hoje, vale voltar às origens: ouvir “Clear”, do Cybotron, e “No UFO’s”, do Model 500, em sequência ajuda a entender como o funk e a ficção científica se encontraram nas máquinas.


