Promoções: Receba no seu whatsapp as melhores ofertas de CDs e LPs
Início - Os vencedores do Grammy de álbum do ano nos anos 1980, do pior para o melhor
Histórias

Os vencedores do Grammy de álbum do ano nos anos 1980, do pior para o melhor

5 min de leitura
Ricky Kej, 3 vezes vencedor do Grammy®
Ricky Kej, 3 vezes vencedor do Grammy® — Foto: Ricky Kej / Wikimedia Commons (CC0)
Resumo
  • ▪ O ranking põe "No Jacket Required", de Phil Collins, no fim e "Thriller", de Michael Jackson, no topo da lista.
  • ▪ O Grammy dos anos 1980 premiou discos de Toto, Christopher Cross e Lionel Richie e ignorou The Clash e The Smiths.
  • ▪ "The Joshua Tree", do U2, é lembrado como raro caso em que o prêmio acompanhou o rock da época.

Mesmo quem nunca assistiu a uma cerimônia do Grammy tem uma ideia geral de onde o prêmio se encaixa no vasto oceano da música popular ocidental: bem na superfície, boiando em segurança perto da margem.

Desde a criação, em 1959, o Grammy raramente fez questão de celebrar artistas de vanguarda, nem mesmo os queridinhos da crítica. São prêmios da indústria e, por isso, refletem mais para onde o dinheiro está fluindo, o que as rádios topam tocar e quais discos uma avó se sentiria à vontade para comprar aos netos.

Ninguém se surpreende ao saber que The Stooges, Sex Pistols e The Clash não receberam indicações nos anos 1970. Mais revelador é notar que Led Zeppelin também não, nem Marvin Gaye, Bob Marley, The Who, Grateful Dead ou The Kinks. Os Rolling Stones só foram indicados com “Some Girls”, de 1979, e David Bowie só com “Let’s Dance”, de 1984.

Os anos 1980 costumam ser lembrados como o auge da “monocultura”, quando todo mundo via os mesmos blockbusters, os mesmos programas de TV e comprava os mesmos discos, ou ao menos não escapava deles, em parte graças à MTV. Em tese, seria a década em que o Grammy finalmente abraçaria a música mais desafiadora que chegava ao mainstream, do synth-pop ao hair metal e ao hip-hop. Na prática, a premiação preferiu continuar sendo o Grammy, e o resultado do álbum do ano foi irregular. Eis a lista, do pior para o melhor.

9. Phil Collins – “No Jacket Required” (1986)

“Os trabalhos solo de Phil Collins parecem mais comerciais e, por isso, mais satisfatórios de um jeito mais restrito, principalmente “No Jacket Required “, “, diz o assassino fictício Patrick Bateman no romance e no filme “American Psycho”, chamando “Sussudio” de uma de suas favoritas.

Não é culpa de Phil Collins que seu terceiro disco solo, lançado entre sucessos igualmente grandes do Genesis, tenha virado assunto de comédia sombria, mas também não é por acaso. O álbum representa muito do que havia de bom e de ruim nos anos 1980, embalados por cocaína e pressa de enriquecer.

Collins era um astro pop refrescantemente diferente, mas vencia diluindo os instintos mais ousados do início do Genesis e usando uma bateria eletrônica, atitude curiosa para um baterista de carreira. “Take Me Home” é ótima e “One More Night” é uma balada lacrimosa sólida, mas álbum do ano? Nem o próprio Collins acha que merecia.

Álbum melhor que também foi indicado e perdeu: Dire Straits – “Brothers in Arms”. Álbum melhor que previsivelmente nem foi indicado: The Replacements – “Tim”.

8. Christopher Cross – “Christopher Cross” (1981)

A estreia autointitulada de Christopher Cross levou os cinco prêmios principais para os quais foi indicada, incluindo gravação do ano e canção do ano por “Sailing”, hino do yacht rock.

Lançado em 1979 (o Grammy costuma atrasar bastante a entrega de seus troféus), o disco rendeu outros sucessos, como “Ride Like the Wind” e “Never Be the Same”, e mostra o tipo de produção polida que a Academia costuma preferir.

Nos anos 1990, esse som impecável e um pouco estéril ficou démodé e transformou Cross em sinônimo de falta de estilo, até a reavaliação meio irônica do yacht rock nos anos 2000 tornar o disco descolado outra vez. Seja como for, não tinha por que vencer álbum do ano em 1981.

Álbum melhor que também foi indicado e perdeu: Pink Floyd – “The Wall”. Álbum melhor que previsivelmente nem foi indicado: The Clash – “London Calling”.

7. Lionel Richie – “Can’t Slow Down” (1985)

Depois de deixar os Commodores, Lionel Richie se firmou como uma das maiores estrelas solo do planeta.

“Can’t Slow Down”, seu segundo disco solo, provavelmente o flagra no auge, puxado pela dobradinha do clássico de pista “All Night Long (All Night)” e da balada “Hello”. Quem esquece o clipe da MTV em que a amada não correspondida apalpa uma escultura de argila da cabeça dele?

O disco merece reconhecimento como coletânea de clássicos dos anos 1980, mas não é um exemplo de excelência de ponta a ponta nem uma declaração coesa como álbum. A vitória parece ainda mais exagerada diante dos indicados que ele superou, como “Born in the USA”, de Bruce Springsteen, e “Private Dancer”, de Tina Turner.

Álbum melhor que também foi indicado e perdeu: Prince – “Purple Rain”. Álbum melhor que previsivelmente nem foi indicado: R.E.M. – “Reckoning”.

6. Billy Joel – “52nd Street” (1980)

O sexto disco de Billy Joel saiu em 1978, mas só venceu o Grammy em 1980, o que deixa um álbum claramente dos anos 1970 numa lista sobre os anos 1980.

Batizado em homenagem à rua de Manhattan associada ao jazz, o álbum mostra o pianista incorporando arranjos de jazz-pop mais sofisticados à fórmula já conhecida. “My Life”, “Big Shot” e “Honesty” são bons singles que abrem o disco, e o restante é agradável, polido e sem arestas, ao estilo de Wings ou Steely Dan, mas pouco marcante.

“Until the Night” é uma tentativa divertida de megabalada à moda da Motown, mas, se aquilo representava o melhor do pop na virada para os anos 1980, não era lá muito eletrizante.

Álbum melhor que também foi indicado e perdeu: Donna Summer – “Bad Girls”. Álbum melhor que previsivelmente nem foi indicado: Talking Heads – “Fear of Music”.

5. Toto – “Toto IV” (1983)

Assim como Christopher Cross, o Toto foi tratado com mais gentileza pelas décadas do que se esperava.

Essa celebrada equipe de músicos de estúdio era o oposto de contemporâneos como o Minor Threat: o objetivo era compor e gravar canções pop num nível extremamente refinado, em vez de exorcizar demônios aos gritos contra a onda do reaganismo.

Os músicos conheciam bem uma mesa de som e ainda ganham pontos por tentar a sorte com a atriz Rosanna Arquette (o hit “Rosanna” foi escrito em sua homenagem). Já a faixa final “Africa”, transcendeu a etiqueta de “o melhor dos anos 1980” e virou favorita eterna do karaokê. “Toto IV” levou seis Grammys, mas não está claro se alguém ouviu o disco inteiro, do início ao fim, sem pular para “Africa” neste século.

Álbum melhor que também foi indicado e perdeu: não há. Álbum melhor que previsivelmente nem foi indicado: King Sunny Adé and His African Beats – “Juju Music”.

4. George Michael – “Faith” (1989)

“Minha imagem ainda é muito pop”, disse George Michael em 1989. “É que eu acredito mais na música pop do que a maioria dos outros artistas. E não acho que dê para chamar “Faith ” de outra coisa que não um álbum pop. É muito diverso, mas acho que é só um álbum pop muito bem-feito.”

Parte do triunfo da estreia solo de Michael, lançada em 1987, é que muita gente, inclusive antigos fãs do Wham!, estava pronta para odiá-la. Ele se saiu da melhor forma possível, criando uma pose rockabilly na faixa-título e uma alma de slow jam em “Father Figure”, sem parecer estar encenando em busca de identidade nem lutando para preencher o espaço antes ocupado por Andrew Ridgeley.

O disco seguinte funcionaria como uma rejeição total ao primeiro, mas foi divertido enquanto durou.

Álbum melhor que também foi indicado e perdeu: Tracy Chapman – “Tracy Chapman”. Álbum melhor que previsivelmente nem foi indicado: Public Enemy – “It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back”.

3. John Lennon & Yoko Ono – “Double Fantasy” (1982)

Quando John e Yoko lançaram “Double Fantasy”, em novembro de 1980, o disco marcou a volta de Lennon à gravação após cinco anos longe da indústria.

As contribuições alternadas do casal formam um retrato da vida doméstica em Nova York, tratando de paternidade, envelhecimento e entusiasmo criativo renovado, em vez das declarações políticas inflamadas que marcaram o trabalho deles uma década antes.

“Watching the Wheels” e “Woman” estão entre as canções mais tocantes da fase tardia de Lennon, mas foi a morte dele, semanas após o lançamento, que mudou para sempre a forma de ouvir o disco. Foi também o que tornou quase inevitável que o Grammy indicasse e provavelmente premiasse “Double Fantasy”, coletânea por vezes irregular e dispersiva que talvez não gerasse a mesma resposta em outras circunstâncias.

Álbum melhor que também foi indicado e perdeu: não há. Álbum melhor que previsivelmente nem foi indicado: Elvis Costello and the Attractions – “Trust”.

2. U2 – “The Joshua Tree” (1988)

Se o Grammy algum dia premiasse um álbum de rock que unisse enorme apelo popular e ambição artística real “The Joshua Tree” era candidato óbvio.

Lançado em 1987, o quinto disco de estúdio mostrou Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr expandindo o som para algo mais espaçoso e atmosférico, com Brian Eno e Daniel Lanois criando os cenários sonoros ao redor da aproximação da banda irlandesa com o blues, o gospel e o folk americanos.

Você conhece as grandes faixas: “Where the Streets Have No Name”, “With or Without You” e “I Still Haven’t Found What I’m Looking For”. Foram escritas para estádios, não para clubes punk, mas não são lisas a ponto de lembrar o Toto. Bono era um vocalista magnético, ainda longe de irritar as pessoas. Num raro caso de o Grammy acompanhar o espírito do rock, a vitória pareceu merecida, como a cereja do bolo do grande ano da banda, e não um aceno constrangedor de um establishment ultrapassado tentando ser descolado.

Álbum melhor que também foi indicado e perdeu: não há. Álbum melhor que previsivelmente nem foi indicado: The Smiths – “Strangeways, Here We Come”.

1. Michael Jackson – “Thriller” (1984)

O autor lembra que, quando criança, a coisa mais assustadora que viu foi uma imagem 3D de Michael Jackson no clipe de “Thriller”, com olhos amarelos de gato e maquiagem de zumbi, dentro de um brinquedo View-Master dos anos 1980.

Sem ter visto o clipe na MTV, ele conheceu a transformação do “Rei do Pop” pelas oito imagens do disco do brinquedo, e a experiência gelou a espinha. Era um bom exemplo de como “Thriller” estava por toda parte: não dava para escapar dele por vários anos seguidos. Era tão grande quanto qualquer fenômeno pop poderia ser, e quase todos gostavam dele em algum nível, musical, estilístico ou teatral.

Dar um Grammy ao álbum mais vendido da história parece óbvio, mas Michael Jackson e Quincy Jones mereceram. O primeiro single “The Girl Is Mine”, saiu em outubro de 1982, um ano inteiro antes do single “Thriller” e do clipe de Halloween. No meio do caminho? Só um par de músicas chamadas “Billie Jean” e “Beat It”.

Álbum melhor que também foi indicado e perdeu: não há. Álbum melhor que previsivelmente nem foi indicado: não há.

Bônus: Paul Simon – “Graceland” (1987)

“Profunda admiração e amor pelos cantores e músicos da África do Sul que trabalharam comigo em “Graceland “, “, disse Paul Simon ao receber o prêmio de álbum do ano, em 1987.

“Eles vivem, como outros artistas sul-africanos, sob um dos regimes mais opressivos do planeta hoje, e ainda assim conseguem produzir música de grande nuance, força e alegria, e acho isso extraordinário.”

Simon, que já tinha vencido duas vezes a categoria, recebeu muitas críticas na época, sobretudo por gravar na África do Sul durante um boicote. A reavaliação do disco tem sido mais negativa do que positiva na última década, por conta da imagem de um astro americano rico e branco lucrando com a colaboração com artistas africanos sem entender por completo a política do país deles.

Os músicos que tocaram com Simon, porém, costumam falar de forma mais favorável da experiência, e a atenção que “Graceland” deu à música sul-africana permanece enorme ao longo de gerações. Além disso, as canções são ótimas, bem tocadas e produzidas, diferentes de tudo o que acontecia no pop comercial americano em meados dos anos 1980.

Autor

  • Marcelo Scherer

    Jornalista, editor-chefe e fundador do portal Disconecta. Aos 46 anos, respira o ecossistema musical cobrindo rock, indie e cultura alternativa. É uma voz ativa no resgate da cultura física como host do podcast e newsletter Papo de Colecionador, dedicado a LPs e CDs. Além de assinar resenhas críticas no site, expande o debate musical no comando dos programas Disconecta na Rádio na Fm Cultura 107,7 de Porto Alegre/RS e Pôr do Som na Sintonia Fm 94.7 de Torres/RS.

    Ver todos os posts
Compartilhe esta matéria:

Relacionados

Deixe seu comentário

Participe da discussão

Seu comentário será analisado pela nossa equipe antes de ser publicado.

RÁDIO
DISCONECTA
Rádio Disconecta