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Songs the Lord Taught Us: a estreia do The Cramps

Cortei sua cabeça e coloquei meu aparelho de TV / uso seus olhos como mostradores” cantava Lux Interior em TV Set, a música que abre Songs the Lord Taught Us de 1980, o disco de estreia do The Cramps. Com um visual vampiresco, peles de leopardo e um som psicobilly que foi muito além do punk dos Ramones ou da Blondie, destruíram a cena punk novaiorquina e entraram de vez naquele novo gênero psychobilly, garage-trash.

Uma banda de rock tão incrível, tão original, que fazem um som tão sexy em uma época em que as pessoas ainda não compravam o apelo sexual mainstream, que olhava para o rockabilly e o R&B dos anos 50 através de uma grande e suja lupa punk. Além dessa obsessão pelo rock antigo, ainda havia muitos artefatos inclusos da cultura popular do final dos anos 70: filmes B de exploração sexual, serial killers, garotas pinups, quadrinhos, lobisomens, óvnis, insetos do tamanho de humanos, no melhor estilo Rocky Horror Picture Show. E isso era o que atraia seguidores pra banda. Certa vez, Lux Interior, o vocalista da banda deu uma definição perfeita pra banda: “um ponto de encontro para que certos tipos de pessoas se unissem e para que certos tipos de pessoas ficassem de fora.” E Songs the Lord Thaught Us é o marco zero, me atrevo a dizer até que é o documento fundamental do psychobilly. É um álbum barulhento, teatral e, se analisarmos por tudo o que o The Cramps viria a ser, é um disco bruto, no sentido de ser macabro, que viria a se tornar a assinatura da banda.

A banda foi formada em meados dos anos 70, quando o vocalista e recém mudado de Akron, Ohio, Erick Lee Purkhiser, conhecido como Lux Interior conheceu a guitarrista Kristy Marlana Wallace, que viria a se chamar Poison Ivy Rorschach, na Sacramento State University. Os dois se apaixonaram, mudaram-se para Nova York e formaram o que se tornaria uma das bandas de rock mais influentes e duradouras de todos os tempos, ainda aterrorizando as praças até a morte prematura de Lux em 2009. Sempre houve quatro membros do Cramps, mas o vínculo de Lux e Ivy tornou tudo possível. Eles se apaixonaram pelos New York Dolls , foram morar juntos e começaram a colecionar discos, vasculhando lojas de lixo em busca do doo-wop dos anos 50, do R&B e do som acelerado e country das bandas brancas de rockabilly do sul. “Sempre gostei de coisas obscuras, nomes estranhos – e depois que descobri o rockabilly, simplesmente não consegui ouvir mais nada”, disse Lux à NME. Para Lux e Ivy, o rock’n’roll antigo tinha um poder místico. Foi visceral, erótico, quase transcendental.

O rockabilly deveria ter inspirado algo que fosse tão grande, tão apaixonado, tão sexual que deveria ter nos levado para outro lugar”, argumentou Lux. Que, em vez disso, tivesse desaparecido e se tornado obsoleto por nomes como Pink Floyd e Eagles, parecia injustificável.

The Cramps – Capa de The Songs the Lord Taugh Us

Contrastes

The Cramps aproveitou muito o contraste entre as travessuras loucas e suadas de Lux e a persona dominadora gelada de Poison Ivy, uma dinâmica que dá a Songs the Lord Taught Us seu filme pegajoso de erotismo. Enquanto seu marido se contorcia no palco com calças de couro puramente superficiais, ela se recostava com um desleixo perfeito de menina má, quebrando o chiclete e estabelecendo o ritmo. Seu tom de guitarra é quente e claro, sua forma de tocar é metronômica; é o capacitor de fluxo do rock ‘n’ roll que torna possível a viagem no tempo da marca Cramps. A guitarra acelerada de Bryan Gregory se mistura com a de Ivy para criar um som que é ao mesmo tempo nostálgico, moderno e infinitamente legal – sem necessidade de baixo.

A bateria estrondosa de Nick Knox abre TV Set, uma ode alegre a um serial killer com licks substanciais da guitarra de surf de Poison Ivy. Rock on the Moon é um trecho solto e agitado, energizado pelos uivos do aguilhão de gado de Lux. Lux que conseguia cantar profundo e suave, ganhando comparações com Iggy Pop, que também estava sem camisa, mas estudou os tremores e soluços de cantores dos anos 50 como Carl Perkins, que escreveu Blue Suede Shoes, e Charlie Feathers, que escreveu Can’t Hardly Stand It, outra música que os Cramps reivindicariam para si. Além disso, eles tomaram pra sim um termo que o próprio Jhonny Cash usou para descrever um Cadillac de aparência maluca em One Piece at Time de 1976. Mas vale lembrar que esse gênero já dava os primeiros passsos com seus ídolos como The Shadow Knows de Link Wray, Monster Mash de Bobby Pickett entre outras bandas obscuras.

O CBGB é logo ali

E essa produção grosseira e suja foi que deu aquele start em Lux e Ivy de que eles poderiam ter uma banda e tocar estes sons também, por que não. Quando eles ainda moravam no estado de Ohio leram sobre o CBGB e aquilo foi como um verdadeiro chamado. Se mudaram pra NY e lá começaram a ensaiar freneticamente no porão de uma loja de discos na Upper East Side de Manhattan. E, quando chegaram a cena, foram vistos com ceticismo. Felizmente após alguns shows eles fechariam contrato com uma gravadora, a Illegal Records, que tinha Miles Copeland (irmão de Stewart) como manager. As sessões foram difíceis. A mixagem foi problemática. Mas tudo isso deu ao Cramps aquele empurrãozinho de que eles precisavam, já que o som deles era desse jeito, soava como tinha que soar. Obviamente para os próximos discos tudo foi melhorando, mas esse é o charme de Songs the Lord Taught Us.

The Cramps Songs The Lord Taught Us LP/Tour Ad, NME, March 1980 via Zombies En El Ghetto

O disco é recheado de covers e músicas próprias. Além das já citadas, destaco I Was A Teenage Werewolf, The Mad Daddy, Tear It Up e o cover de Fever, popularizado por Peggy Lee. Songs the Lord Taught Us evoca nada mais do que o resultado de uma festa selvagem em casa, à medida que elementos familiares do cânone do rock são virados de cabeça para baixo para se tornarem fascinantemente estranhos.

Os desajustados do interior que se mudaram pra cidade grande criou a música perfeita para aquele momento e não apenas porque é deliciosamente divertida. Mas é porque a sua aceitação delinquente é que faz com a os Cramps soassem perfeitos, com aquele toque punk rebelde com um toque exagerado, obsceno até, mas muito alegre, tipo carnaval sabe? Tem aberrações? Tem, mas isso é que faz com que eles se destacassem dos demais. É um som de Halloween perfeito. Recentemente eles voltaram a ganhar exposição na mídia, já que na série Wandinha do ano passado a cena mais legal de todas foi ao som de Goo Goo Muck e, com isso, ajudou a resgatar esse som e vou te contar, tem tudo a ver com a série. Espero que se houver uma segunda temporada, que tenham mais sons do Cramps. Lembrando que na 4ª temporada de Stranger Things, que não por acaso é de 2022 também, a música I Was a Teenage Werewolf toca viu?

Por mais que eu queira, os Cramps sempre fizeram parte de meu imaginário, desde meados dos anos 90, quando eu trabalhei na extinta CD & Cia. Lá tinham alguns CDs do The Cramps, mas eu não havia dado muita bola na época, quando os ouvi achei muito esquisito. E olha só que esquisito falar isso pra vocês, mais de 30 anos depois estou aqui falando sobre… A vida dá voltas mesmo.

E te digo, o Cramps é uma banda muito legal e sua estreia é muito bacana. E vou te falar assim: Ao curtir Cramps, você vai começar a sacar sons tipo Stooges, The Meteors, New York Dolls, Circle Jerks, Germs, Dead Kennedys, Dead Boys, X e muito mais.

Abaixo você tem o vídeo completo desta resenha, então te convido a conferir, inscreva-se no canal e deixe seu like.

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