50 anos de polêmica: O lado obscuro de David Bowie em “Station to Station”
Há exatos cinquenta anos, em 23 de janeiro de 1976, David Bowie lançava um dos álbuns mais desconcertantes de sua carreira. “Station to Station” não é o disco para se começar a conhecer o artista — isso é algo que até seus maiores fãs concordam. É um trabalho para iniciados, para quem já percorreu as transformações anteriores e está preparado para encontrar um Bowie à beira do abismo, mergulhado em excessos e, ainda assim, criando algumas das obras mais fascinantes de sua vida.
O álbum surge como uma ponte. Depois de “Young Americans”, onde Bowie flertou abertamente com a soul music e o R&B, vinha sendo necessária uma nova direção. O que ninguém esperava era que essa transição acontecesse em meio a uma tempestade de cocaína e delírios psicóticos. O próprio Bowie admitiria depois que mal se lembrava da gravação daquele disco. As gravações ocorreram em Los Angeles, no coração de um período que seus biógrafos chamam de seus “anos de coke”. Ele dormia pouco, vivia com a “narina branca” e alimentava uma rotina que beirava o insustentável.
É nesse contexto que nasce o Thin White Duke, o Duque Branco e Magro, personagem que Bowie incorporou durante aquela turnê. Um figura fria, de camisa branca impecável e cabelo alisado para trás, que muitos interpretaram como mais uma de suas máscaras artísticas. Outros enxergaram ali os sinais de uma mente em colapso. As declarações polêmicas da época, incluindo comentários sobre fascismo e ocultismo, geraram repercussões negativas que perseguiriam o cantor por anos. Seus defensores dizem que ele estava interpretando um papel. Os críticos apontam para o que chamam de psicose induzida pelas drogas. A verdade, como quase sempre acontece com Bowie, está em algum lugar no meio do nevoeiro.
Musicalmente, “Station to Station” é um disco de contrastes. A faixa-título, com seus dez minutos de duração, é uma das mais longas que ele já gravou, uma epopeia que começa com o som de um trem chegando e se desdobra em camadas de art rock, krautrock e uma tensão que nunca se dissipa. É música para sentir o chão tremer. A guitarra repetitiva, as mudanças de andamento, a voz que oscila entre o sussurro e o desespero: tudo ali respira um ar de crise e êxtase ao mesmo tempo.
Depois vem “Golden Years”, o momento mais acessível do álbum, com seu groove contagiante que parece vir de outra dimensão. “Stay” mergulha de cabeça no soul e no R&B, com um riff hipnótico que poderia ter sido gravado por uma banda de funk envenenada. “Word on a Wing” traz uma rara vulnerabilidade, uma prece em meio ao caos. E “Wild is the Wind”, cover de Johnny Mathis, encerra o disco com uma interpretação de uma beleza que desarma qualquer ouvinte.
Os debatedores do podcast Redação DISCONECTA, que dedicaram um episódio ao assunto, apontam algo crucial: “Station to Station” funciona quase como um disco conceitual. Há uma narrativa subterrânea que conecta as faixas, um fio que ata as obsessões de Bowie com espiritualidade, amor, vício e identidade. Não é um álbum para ouvir distraidamente. Ele exige entrega.
O que torna esse trabalho tão especial é justamente sua posição na cronologia bowieana. Ele é o último disco antes da Trilogia de Berlim, que viria logo em seguida com “Low”, “Heroes” e “Lodger”. É como se Bowie precisasse queimar tudo em Los Angeles para renascer na Alemanha. As influências do krautrock, que se insinuam aqui, explodiriam logo depois com a parceria com Brian Eno e Iggy Pop.
Para quem conhece Bowie apenas pelos hits, “Station to Station” pode soar estranho, hermético, até perturbador. Para quem se dispõe a entrar no labirinto, ele se revela como uma das obras mais ricas de um dos artistas mais inquietos do século XX. Não é um álbum para começar. É um álbum para chegar depois de muita estrada percorrida — e sair do outro lado transformado.



