A história do punk: como nasceu o gênero
1º de dezembro de 1976. Um programa da TV inglesa, o Today, apresentado por Bill Grundy, precisa de convidados de última hora. O Queen cancelou. A gravadora, a EMI, oferece uma banda que acabou de assinar contrato: os Sex Pistols.
Eles chegam com uma comitiva que inclui uma jovem chamada Siouxsie Sioux. O apresentador tenta flertar com ela. Desafia os músicos: “diga algo ultrajante”. E o guitarrista Steve Jones responde com uma série de palavrões que a Inglaterra de 1976 não esperava ouvir na TV, até fechar com “What a fucking rotter”.
O escândalo tomou os jornais. A turnê dos Pistols desmoronou, a EMI acabou largando a banda, e o punk virou assunto nacional da noite para o dia.
Mas é aí que mora o engano.
Esse foi o dia em que o punk virou notícia. Não o dia em que ele nasceu.
Meses antes, em Nova York, os Ramones já tinham lançado o primeiro disco, gravado em questão de dias, por cerca de seis mil e quatrocentos dólares. E a expressão “punk rock” já tinha aparecido impressa em um jornal de Chicago seis anos antes.
Então, afinal, onde nasceu o punk? Em Nova York? Em Londres? Em Detroit, nas garagens americanas dos anos 60?
A resposta depende do que você chama de punk: o som, a palavra, a atitude ou a cena. E é seguindo esses quatro fios, da guitarra suja de 1958 até o barco dos Pistols no Tâmisa em 1977, que vamos desvendar essa história.
A garagem que ninguém chamava de punk
Em 1958, o guitarrista Link Wray gravou um instrumental chamado “Rumble”. Conta a história que, para conseguir o som sujo que queria, ele furou o alto-falante do amplificador com um lápis. A música foi banida por algumas rádios americanas, que viam no título uma apologia às brigas de gangue, mesmo sem uma única palavra cantada. Foi um dos poucos casos de uma faixa instrumental proibida.
Cinco anos depois, em abril de 1963, uma banda de Portland, os Kingsmen, entra em um estúdio e grava uma versão de “Louie Louie”, composição de Richard Berry. Dizem que a sessão custou algo em torno de cinquenta dólares. Conta-se que o cantor Jack Ely teve que gritar acima da banda, com o microfone alto demais. Ninguém entendia a letra. Deu tão certo que a música chegou ao segundo lugar da parada Hot 100, e a confusão em torno do que estaria sendo dito foi tamanha que o FBI investigou o disco por cerca de 31 meses e concluiu que não conseguia interpretar nada do que era cantado.
Em 1965, os Sonics, de Tacoma, lançam “Psycho”, gravada em Seattle no estúdio do engenheiro Kearney Barton, com equipamento simples e um som propositalmente cru.
Em 1966, “Wild Thing” dos Troggs, escrita por Chip Taylor, chega ao primeiro lugar nos Estados Unidos. E no mesmo ano uma banda de Michigan, os Mysterians, liderados por um vocalista que se apresentava só como um ponto de interrogação, Question Mark, faz “96 Tears” e também alcança o topo. Guarde esse nome, Mysterians: ele volta daqui a pouco.
Havia mais: os 13th Floor Elevators, do Texas, misturavam garage rock com psicodelia e tinham em Tommy Hall um músico que fazia barulho com um jarro elétrico, a “electric jug”. Décadas depois, bandas do próprio punk gravariam covers deles: Television faria “Fire Engine”, e a australiana Radio Birdman faria “You’re Gonna Miss Me”.
Quem conhece a história do heavy metal reconhece parte dessa turma, porque a garagem americana alimentou os dois mundos.
Muitos críticos apontam esses discos como a pré-história do punk. Mas repare numa coisa: nenhum deles era um movimento. Eram sucessos isolados, feitos por jovens que mal sabiam tocar, mas que ainda não tinham um lugar nem uma identidade. Para o som virar atitude, ainda faltava volume. E foi em Detroit que alguém o colocou no talo.
Detroit: o volume no talo
Detroit, 1968. O MC5 é uma banda barulhenta e politizada, ligada ao ativismo de John Sinclair. Em 30 e 31 de outubro desse ano, eles gravam ao vivo, no Grande Ballroom, o álbum Kick Out the Jams, que sairia em fevereiro de 1969 pela Elektra.
O engenheiro Bruce Botnick conta que o equipamento de oito pistas caiu da rampa do caminhão e, mesmo assim, funcionou. E, por causa do palavrão que abre o disco, a banda já tinha gravado na própria sessão uma introdução alternativa, que a gravadora usou depois numa edição censurada. O disco chegou ao trigésimo lugar da Billboard. Mas o escândalo maior viria depois: um anúncio com xingamentos contra uma rede de lojas que se recusou a vendê-lo, e a Elektra largou o MC5.
A mesma Elektra, aliás, assinou com outra banda da região em setembro de 1968, junto com o MC5. O publicitário da Elektra Danny Fields foi a Detroit ver o MC5 e, por sugestão de Wayne Kramer, foi ver um grupo de Ann Arbor, os Stooges, liderados por um vocalista que se chamava Iggy.

Em agosto de 1969 sai o primeiro disco dos Stooges, produzido por John Cale, que tinha acabado de deixar o Velvet Underground. A Elektra rejeitou a mixagem que Cale fez, e o disco foi finalizado por Iggy e pelo chefe da gravadora, Jac Holzman.
Em 1972, Iggy vai a Londres com o empresário ligado ao David Bowie, e grava Raw Power, lançado em 1973. Bowie mixa o disco em Los Angeles.
Aqui o som já era atitude: volume, confronto, letras sobre tédio e raiva. Mas ainda ninguém chamava isso de punk. A palavra só aparece no ano seguinte: 1970.
A palavra “punk” antes do punk
Quem inventou a expressão “punk rock”? Aqui a história é mais bagunçada do que parece, e vale a pena contá-la direito.
O primeiro uso impresso conhecido aparece em 22 de março de 1970 no Chicago Tribune, numa fala de Ed Sanders, dos Fugs, sobre o próprio disco solo. Ele escreve “punk rock” para descrever uma sentimentalidade caipira, nada a ver com o que viria depois.
Por volta de 1970, em Nova York, a dupla Suicide, de Alan Vega e Martin Rev, anuncia em panfletos uma “missa de música punk”. Vega contou depois que foi mais uma piada: no Brooklyn dele, “punk” era quem amarelava numa briga. A palavra, segundo ele, veio de um texto do crítico Lester Bangs que chamava os Stooges de “punk music”.
Em maio de 1971, também na Creem, o crítico Dave Marsh escreve sobre os Mysterians, aquela banda de “96 Tears”, e diz que o disco era “uma exposição marcante de punk rock”. É esse o uso mais citado.
Greg Shaw também usa o termo em 1971, e em 1972 o guitarrista Lenny Kaye, que mais tarde tocaria com Patti Smith, organiza uma antologia de garage rock dos anos 60 chamada Nuggets. Ela vira uma espécie de mapa para quem queria entender a garagem. Em 1972, o crítico Nick Kent chama Iggy de “Punk Messiah”. Em 1974 o crítico Robert Hilburn, do Los Angeles Times, aplica o rótulo aos New York Dolls.
Ou seja: a palavra existia, de várias bocas, alguns anos antes de alguém se orgulhar dela.
E entra aqui outro nome que nunca foi chamado de punk na época, mas que é impossível deixar de fora. Em 1967 o Velvet Underground lançou seu primeiro disco, com Nico e Andy Warhol. Foi um fracasso comercial: chegou ao 171º lugar. A Columbia chegou a recusar a fita, “tão rápido que minha cabeça rodou”, nas palavras do produtor Norman Dolph. Anos depois, Brian Eno diria numa entrevista de 1982 que quase todo mundo que comprou aquele disco montou uma banda. A frase ficou famosa; o número de cópias vendidas, que se repete por aí, nunca foi confirmado.
Resumindo até aqui: tínhamos o som da garagem, a atitude de Detroit e a palavra circulando entre críticos. Faltava uma banda que juntasse tudo isso com um visual. E ela apareceu de salto alto.
New York Dolls: o visual
Os New York Dolls se formam em 1971 e estreiam em 24 de dezembro, num hotel que servia de abrigo para moradores de rua, o Endicott. O nome saiu de uma loja de reparo de bonecas, o New York Doll Hospital.
Em novembro de 1972, numa viagem a Londres, morre o baterista Billy Murcia, aos 21 anos. Jerry Nolan assume as baquetas.
Em 1973 sai o primeiro disco da banda, produzido por Todd Rundgren, na Mercury. O engenheiro Jack Douglas, que passou mais tempo na mesa do que o produtor, resumiria o som anos depois como o de algo “feito dentro de uma caixa de madeira”. Um jeito curioso de dizer que a banda tocava alto e apertado.
Os Dolls misturavam o glam inglês de Bowie e T. Rex com a sujeira de Detroit. Muitos apontam os Dolls como a banda que juntou visual, escândalo e som antes de todo mundo. Em 1975, já em declínio, eles têm um novo empresário: o inglês Malcolm McLaren, que veste a banda de couro envernizado vermelho e coloca uma bandeira soviética no palco, com o lema “Better Red Than Dead”. Funciona mal. Johnny Thunders e Jerry Nolan saem durante uma turnê pela Flórida, entre março e abril, e a banda desmorona.
Mas McLaren volta a Londres com uma lição aprendida. Numa dessas coincidências que a história do rock adora, a guitarra Les Paul branca que Steve Jones usaria nos Pistols tinha sido de Sylvain Sylvain, dos Dolls, e foi comprada por McLaren nessa passagem.
Os ingleses iam entrar em cena. Mas antes, a ideia precisava de um lugar. E foi um bar com um nome comprido e meio ridículo.
CBGB: a cena em Nova York
O CBGB abriu em dezembro de 1973, no Bowery, em Nova York. O dono, Hilly Kristal, queria um bar de country, bluegrass e blues. O nome inteiro é uma declaração disso: Country, Bluegrass, Blues and Other Music For Uplifting Gormandizers. Ele mesmo confessou depois que abriu o lugar porque achava que o country ia ser o grande lance.
A mudança veio por um empresário chamado Terry Ork, que pediu para o grupo dele, o Television, tocar ali. Domingo era a pior noite, e Ork prometeu encher a casa de amigos. Em março de 1974, o Television faz seu primeiro show no CBGB.
Em 1974, Patti Smith grava com Lenny Kaye o single “Hey Joe” com “Piss Factory” no lado B, financiado pelo fotógrafo Robert Mapplethorpe. Em 1975 ela estreia no CBGB e, em novembro, sai Horses, produzido por John Cale. Os Talking Heads fazem seu primeiro show em 5 de junho de 1975, abrindo para uma banda do Queens. O Blondie também aparece por ali.
Em 1975, Richard Hell, o baixista que ajudou a fundar o Television, sai do grupo, forma os Heartbreakers com Johnny Thunders e Jerry Nolan e, depois, os Voidoids. A fama de Hell inclui camisetas rasgadas e cabelo espetado. Parte dos relatos diz que McLaren teria levado essa imagem para Londres, mas Lydon contesta isso, então vamos deixar como disputa.
E a tal banda do Queens eram os Ramones. Johnny, Joey, Dee Dee e Tommy se formam em Forest Hills em 1974. Fizeram o primeiro show em 30 de março de 1974, ainda em trio, com Joey na bateria, um dia antes do primeiro show do Television no CBGB. Tommy assumiu as baquetas nos meses seguintes. E o CBGB deles só acontece em agosto. Quem foi o primeiro? Depende de como se conta, e já vamos ver que isso será uma constante.

Em janeiro de 1976 sai o primeiro número da revista Punk, fundada no fim de 1975 por John Holmstrom, Ged Dunn e Legs McNeil, com Lou Reed na capa. E em 23 de abril de 1976, sai o disco de estreia dos Ramones pela Sire. Produzido por Craig Leon, gravado no Plaza Sound, estúdio no prédio do Radio City Music Hall.
O custo? Fontes divergem. O número mais repetido é de cerca de seis mil e quatrocentos dólares, mas há relatos de um orçamento maior, dos quais só parte foi gasta. Já o prazo: alguns dizem uma semana, outros contam dois ou três dias mais a mixagem. O que o baterista Tommy lembrava é que os engenheiros acharam que “uma turma de bandidos tinha entrado na sala de controle”.
O disco vendeu pouco: perto de seis mil cópias no primeiro ano, segundo uma das fontes. Mas a pergunta importante era quem o ouviria do outro lado do Atlântico.
O gerente do Max’s Kansas City, outro clube da cena, Peter Crowley, resumiu a rivalidade assim: “Eu basicamente roubei todos os atos do Hilly: Television, Ramones, Talking Heads, Blondie.”
Londres: a loja, o cantor e os Ramones
Para entender por que o punk pega fogo em Londres, é preciso olhar para a Inglaterra de 1976. O governo trabalhista do primeiro-ministro James Callaghan pede um empréstimo de 3,9 bilhões de dólares ao FMI, o maior já solicitado até então, com a condição de cortar gastos públicos. A libra perde cerca de 19% do valor entre fevereiro e novembro. A inflação tinha chegado perto de 25% em 1975.
Historiadores que estudaram o período, como Jon Savage, descrevem uma década de três dias de semana, greves e serviços públicos em colapso, e uma juventude que via poucas perspectivas. É esse o cenário que o punk inglês vai chamar de “sem futuro”.
Do lado musical, o terreno também estava preparado. O glam rock, de Marc Bolan e David Bowie, tinha tomado a TV desde 1971, mas estava praticamente morto no começo de 1975. Muitos futuros punks tinham crescido com ele. O próprio Sid Vicious, o baixista que ainda ia entrar nos Pistols, ia a festas vestido como Ziggy Stardust, segundo a imprensa. E o pub rock de bandas como Dr. Feelgood e Eddie and the Hot Rods já tinha devolvido o barulho às casas pequenas.
Nesse cenário, entra em ação Malcolm McLaren. Ele e a estilista Vivienne Westwood tocavam, na King’s Road, em Chelsea, uma loja que mudou de nome várias vezes desde o começo dos anos 70, até virar a SEX, em 1974. Foi lá que, em 1975, segundo os relatos, o sócio de McLaren, Bernie Rhodes, notou um jovem vestindo uma camiseta do Pink Floyd com “I Hate” escrito por cima e os olhos dos músicos riscados. Era John Lydon, e quem conta a cena muda conforme a fonte. Ele fez uma audição improvisada, cantando “I’m Eighteen”, de Alice Cooper, na jukebox da própria loja. Mais tarde ele diria que nem se lembrava de onde tinha tirado a camiseta.
O primeiro show dos Sex Pistols foi em 6 de novembro de 1975, na St Martins School of Art. Abriram para uma banda chamada Bazooka Joe, na qual tocava um tal de Stuart Goddard, o futuro Adam Ant.
Agora chegamos ao momento em que Nova York e Londres se encontram. Em 4 de julho de 1976, os Ramones tocam no Roundhouse, em Londres, abrindo para os Flamin’ Groovies. No dia seguinte, tocam no Dingwalls.
E aqui entra um mito que a própria história do punk repete há décadas: o de que Sex Pistols e Clash estavam na plateia do Roundhouse. Não estavam. Naquela noite, os Pistols estavam em Sheffield, e os Clash faziam ali, no Black Swan, a estreia deles. A plateia que viu os Ramones no Dingwalls, no dia seguinte, é que reunia gente dos Pistols, do Clash e dos Damned.
Quanto à influência, há dois lados. Captain Sensible, dos Damned, disse que os Ramones “deram a partida”. Tony James, do Generation X, lembrou que as bandas inglesas “triplicaram a velocidade” depois deles. Já Rat Scabies, baterista dos Damned, relativizou: a influência seria “negociável”, porque as bandas de Londres já tinham começado.
Mas houve pelo menos um efeito direto e documentado. Um garoto de Londres chamado Mark Perry assistiu ao show e, nove dias depois, em 13 de julho de 1976, lançou o primeiro número de um fanzine escrito com uma máquina de escrever infantil e uma caneta, com tiragem de poucas dezenas de cópias. O nome vinha de uma música dos Ramones: Sniffin’ Glue.
1976: o ano em que o punk virou notícia
Hora de contar o ano em que a Inglaterra descobriu o punk.
Em 4 de junho de 1976, os Pistols tocam no Lesser Free Trade Hall, em Manchester, a convite de dois estudantes, Howard Devoto e Pete Shelley, que tinham formado os Buzzcocks em fevereiro, depois de ver os Pistols. Foram cerca de 40 ou 50 pessoas.
Entre elas, Peter Hook e Bernard Sumner, que pagaram 50 pence. Hook contaria depois, em livro, que na volta decidiram montar uma banda. Aquela banda se tornaria o Joy Division, e depois o New Order. Há quem diga que Morrissey, Mark E. Smith e Tony Wilson também estavam lá; os relatos divergem, e dizer que “todo mundo estava” é parte da lenda. Ian Curtis, por exemplo, só aparece em relatos sobre o segundo show, em 20 de julho, quando os Buzzcocks abriram pela primeira vez ao vivo. A influência desse show em Manchester é um capítulo à parte, que já pertence ao pós-punk.
Em setembro, nos dias 20 e 21, acontece o 100 Club Punk Special, em Londres, um festival que reúne Subway Sect, Siouxsie and the Banshees, Clash, Sex Pistols, Damned e Buzzcocks, entre outros.
Em 22 de outubro de 1976, a Stiff Records lança “New Rose”, dos Damned, produzida por Nick Lowe. É o primeiro single de uma banda punk britânica.
Os Pistols, por sua vez, assinam com a EMI em 8 de outubro. Lançam “Anarchy in the U.K.” em 26 de novembro. E em 1º de dezembro vem o programa de Bill Grundy, com que começamos esta história. O resto você já sabe: a “Anarchy Tour”, com Clash, Damned e Heartbreakers de Johnny Thunders, teve quase todas as datas canceladas. Em Norwich, o vice-reitor da universidade proibiu o show no próprio dia. Em 6 de janeiro de 1977, a EMI rescinde o contrato.
Então voltamos à pergunta do começo: aquilo já era punk? O som, sim. A atitude, também. A palavra, também. A cena, quase. O que faltava era um escândalo nacional, e os Pistols o fabricaram. O punk de 1976 foi o primeiro punk a virar notícia.
1977 e o faça você mesmo
Em janeiro de 1977, os Buzzcocks lançam Spiral Scratch, um EP de quatro faixas, produzido por Martin Hannett, sem gravadora. Pete Shelley pegou dinheiro emprestado com o pai, e as demais despesas foram divididas entre a banda e amigos. O selo, New Hormones, nasceu para isso. A tiragem foi de mil cópias. É muitas vezes descrito como um dos primeiros discos independentes da era punk e um modelo para quem veio depois.
Em 18 de fevereiro, os Damned lançam o primeiro LP punk britânico, Damned Damned Damned, também produzido por Nick Lowe.
Em março, os Pistols assinam com a A&M, em frente ao Palácio de Buckingham, e seis dias depois o contrato é rompido.
Em 8 de abril, os Clash lançam o primeiro disco, pela CBS, gravado em três fins de semana. Chegou ao 12º lugar no Reino Unido. A CBS recusou lançá-lo nos Estados Unidos até 1979.
Em maio, os Pistols assinam com a Virgin.
Em junho, o país comemora os 25 anos de reinado de Elizabeth II. Os Pistols lançam “God Save the Queen” em 27 de maio, às vésperas das comemorações do Jubileu. Em 7 de junho, tocam num barco no Tâmisa, e a polícia prende gente ao desembarque; segundo uma das fontes, entre os presos estavam McLaren e o artista Jamie Reid. O single chega ao segundo lugar na parada oficial. Na parada da revista NME, é o primeiro. Há quem diga que foi impedido de alcançar o topo por manipulação das paradas, mas isso nunca foi provado.
Em outubro de 1977 sai Never Mind the Bollocks, Here’s the Sex Pistols. O disco estreia em primeiro lugar no Reino Unido, apesar de boicotes de vários varejistas. Em Nottingham, um gerente de uma loja da Virgin, Chris Searle, é processado por exibir o título na vitrine. No julgamento de 24 de novembro, o professor James Kinsley, da universidade local, explica ao tribunal que a palavra “bollocks” tinha uma etimologia perfeitamente inocente. Searle foi absolvido.
O que era atitude virou indústria. E é aqui que os próprios punks começam a sair do navio. Howard Devoto, dos Buzzcocks, já tinha deixado a banda para formar o Magazine. John Lydon formaria o Public Image Ltd. Mas essa já é a história do pós-punk.
A mesma ideia do outro lado do mundo
Última parada da viagem: o punk não precisou do aval de ninguém para aparecer em outros lugares.
Em setembro de 1976, em Brisbane, na Austrália, os Saints lançam “(I’m) Stranded” por um selo próprio, o Fatal, com apenas 500 cópias. Foi o primeiro single punk lançado fora dos Estados Unidos, meses antes dos Damned e dos Pistols. O disco foi enviado para a Inglaterra, chegou ao selo Rough Trade e a Greg Shaw, da revista e selo Bomp, e acabou rendendo à banda um contrato com a EMI. Eles não copiaram os ingleses, nem o contrário: eram cenas paralelas.
Onde nasceu o punk, afinal?
Voltamos à pergunta: onde nasceu o punk?
No som cru de Link Wray, dos Kingsmen e dos Sonics, de 1958 a 1966. Na atitude de Detroit, em 1969. Na palavra, escrita por críticos em 1970 e 1971. No visual dos Dolls. Na cena de um bar sujo do Bowery, entre 1973 e 1976. E no escândalo de uma tarde de dezembro, em 1976, na televisão inglesa.
O punk não nasceu em lugar nenhum porque nasceu em todos. Foi uma ideia, a de que qualquer um pode tocar, que a cada ano ganhou um pedaço novo, até que, poucos anos depois do disco de estreia dos Ramones, já havia punks em Londres e em Brisbane.
Essa foi uma história longa, cheia de pedaços e disputas, e é quase certo que alguma coisa ficou de fora. Se você notou algo que precisa ser dito e não está aqui, deixe nos comentários para deixar essa história ainda mais completa.
Perguntas frequentes
Onde nasceu o punk?
Não há um lugar único. O som veio das bandas de garagem americanas dos anos 60, a atitude de Detroit, com MC5 e Stooges, e a cena se formou no CBGB, em Nova York, a partir de 1974. O punk virou fenômeno na Inglaterra em 1976, com os Sex Pistols, e na Austrália os Saints lançaram um single punk independente no mesmo ano.
Qual a origem do punk?
O punk juntou o garage rock dos anos 60, o som pesado de Detroit (MC5 e Stooges), o Velvet Underground e o glam dos New York Dolls. Em meados dos anos 70, Television, Ramones e Patti Smith formaram a cena de Nova York, e os Sex Pistols levaram o estilo à Inglaterra.
O que significa punk?
Em inglês, “punk” era uma gíria pejorativa para alguém sem valor ou para um jovem arruaceiro. Alan Vega, da dupla Suicide, dizia que no Brooklyn “punk” era quem amarelava numa briga. Críticos de rock passaram a usar a palavra para descrever música por volta de 1970 e 1971.
Como era o estilo punk no começo?
Música curta, rápida e crua, feita por quem mal sabia tocar, e um visual de confronto. Em Nova York, Richard Hell ficou associado a camisetas rasgadas e cabelo espetado; em Londres, a loja SEX, de Malcolm McLaren e Vivienne Westwood, vestiu os Sex Pistols e ajudou a definir a moda punk.
Publicado em 29 de outubro de 2026. Fontes: Wikipédia (português e inglês), Louder, Far Out, uDiscover Music, Mojo, Rolling Stone Brasil, Revista Pesquisa FAPESP e reportagens da imprensa especializada.