A música do Pearl Jam que Eddie Vedder não conseguiu terminar em 1991 e hoje passa de 410 milhões de plays
Resumo
- ▪ Eddie Vedder diz que nunca terminou a letra de "Yellow Ledbetter", deixada fora de "Ten".
- ▪ A faixa saiu no single de "Jeremy" e hoje passa de 410 milhões de reproduções.
- ▪ O produtor Rick Parasher gravou o disco às pressas, e a banda fechou o álbum com 11 músicas.
Poucas bandas ganharam uma segunda chance como a do Pearl Jam. Depois da morte de Andy Wood, que deixou o Mother Love Bone sem vocalista, Jeff Ament e Stone Gossard precisaram recomeçar. Quando Eddie Vedder entrou, a chegada de um frontman tão carismático pareceu um presente.
Mesmo assim, Vedder sempre teve opiniões firmes sobre o que entrava ou não nos discos principais. No começo, porém, ele era o novato e tinha pouco espaço para impor suas ideias na montagem de “Ten”. Sua missão era tirar os melhores ganchos dos riffs de Gossard, e o resultado está aí: metade do repertório virou clássico. O tom sombrio do vocalista lembrava Jim Morrison, e gritar junto com “Why Go” e “Alive” deu a muita gente uma válvula de escape para a angústia.
Nos anos seguintes, Vedder tentou segurar o lado mais comercial do som da banda. O Pearl Jam já havia sido criticado por Kurt Cobain, que o tratava como um bando de imitadores. Para ganhar credibilidade, algumas faixas foram feitas para soar mais ásperas, seja num experimento de vanguarda, seja numa canção deliberadamente anticomercial como “Bugs”.
Ninguém, claro, deixava de ter orgulho de “Ten” quando o disco saiu. Mas, com refrões capazes de encher estádios, havia ainda a chance de a banda ter incluído no álbum uma de suas músicas mais emocionantes, se tivesse tido mais tempo.
A gravação com Rick Parasher foi feita na correria, e “Yellow Ledbetter” era mais uma ideia do que uma canção naquele momento. Era uma ótima ideia, mas, depois de esboçada a letra, Vedder lembra que ouviu que ela não entraria no disco por parecer inacabada.
A faixa acabou saindo no single de “Jeremy”. Vedder sabe que poderia ter entrado no álbum com um pouco mais de prazo, e disse em entrevista: “A culpa foi minha, porque nunca terminei a letra. Acho que esse foi o problema. E não acho que me deram a chance de terminar. Na verdade, pelo que me lembro, eu queria a música no disco, e eles disseram: ‘Temos 11, acho que acabou’. Eu disse que podia criar uma letra boa para ela. E eles responderam: ‘Está bom assim’.”
Pelas melodias da faixa, ela seria o melhor encerramento possível para um disco dos anos 1990. Os solos à la Hendrix de Mike McCready estão entre os mais elegantes que ele gravou. E, num gênero em que as músicas tratavam de emoções reprimidas vindo à tona, ela traz o momento de catarse depois da dor de uma faixa como “Black”.
Vedder pode ser tão ininteligível quanto Michael Stipe nos primeiros tempos do REM, mas, quando dá para entender o que ele canta, é transcendente. Às vezes você se sente o boxeador, às vezes o saco de pancadas, e tudo o que resta é seguir em frente entre os obstáculos que o mundo coloca todos os dias.