A música dos Beatles que deixou George Martin sem palavras em 1967 e hoje soma 127 milhões de streams
Resumo
- ▪ George Martin ficou sem reação diante da proposta de John Lennon para "I Am the Walrus" em 1967.
- ▪ A melodia girava em torno de duas notas e a letra era feita de fragmentos escritos sob efeito de LSD.
- ▪ Lennon queria a faixa como single, mas McCartney e Martin preferiram "Hello, Goodbye".
Poucos artistas têm a sorte de contar com um tradutor de emoções como George Martin foi para os Beatles. Nenhum dos quatro lia partitura, e foi com Martin na produção que as ideias da banda ganharam forma de clássico, fosse com um arranjo de cordas ou com o próprio produtor ao piano nas primeiras gravações.
Mesmo assim, havia limites. E um deles apareceu em 1967, com “I Am the Walrus”.
Martin estava acostumado a lidar com o improvável. Quando o grupo entrou na fase psicodélica, com pedidos que iam de loops tocados de trás para frente a reinvenções sonoras como “Tomorrow Never Knows”, cabia a ele transformar o rascunho em algo viável. Muita coisa era aposta. Os loops da parte central de “Being for the Benefit of Mr Kite”, por exemplo, surgiram de pedaços de fita misturados em direções aleatórias e recolocados na faixa, o que criou o efeito hipnótico de um circo desvairado.
John Lennon era o principal instigador dessas esquisitices, como em “Strawberry Fields Forever”. Em “I Am the Walrus”, porém, foi mais longe. A canção, claramente ligada ao uso de LSD, tinha melodia baseada em apenas duas notas e seções aparentemente aleatórias. Já tinha havido propostas estranhas, como construir uma música inteira sobre um só acorde, mas dessa vez Martin sentiu que estava diante de algo grande demais.
O engenheiro Geoff Emerick lembrou a reação do produtor no livro sobre as gravações: “Pela primeira vez, ele ficou sem palavras. [Ele disse]: ‘Bem, John, para ser sincero, só tenho uma pergunta. O que diabos você espera que eu faça com isso?’ [Ele] simplesmente não conseguia superar o conteúdo musical limitado e a letra absurda; não gostava mesmo da música.”
Diz-se que Lennon pretendia lançar a faixa como o single seguinte a “All You Need Is Love”. Paul McCartney e George Martin, porém, insistiram em “Hello, Goodbye”, bem mais comercial. A decisão teria acendido as primeiras faíscas do ressentimento que, com o tempo, levaria ao fim da banda.
A letra é fruto da fascinação crescente de Lennon pelo LSD. Ele contou: “O primeiro verso foi escrito em uma viagem de ácido num fim de semana, o segundo em outra viagem no fim de semana seguinte, e o resto foi preenchido depois que conheci Yoko.” A canção reúne fragmentos de texto no estilo de recortes, técnica popularizada por escritores e poetas de vanguarda nos anos 1920.
O biógrafo Hunter Davies descreveu a montagem aos poucos: “Ele tinha escrito mais algumas palavras naquele dia, só palavras bobas, para encaixar em outro trecho de ritmo. ‘Sitting on a cornflake, waiting for the man to come.’ Achei que ele tinha dito ‘van to come’, o que não era verdade, mas ele gostou mais e disse que usaria.”
Se aquilo já era o auge do estranho, Martin ainda não imaginava o que viria quando Lennon passou a soltar de vez a imaginação ao lado de Yoko Ono. Embora a banda tenha se aventurado ainda mais no “The White Album”, a sugestão do produtor de enxugar o disco para um álbum simples pode ter relação com a presença de “Revolution 9”, uma das peças mais aleatórias já lançadas pelo grupo.
No fim “I Am the Walrus” é um caso em que o acaso joga a favor. Alguns elementos surgem em momentos esquisitos, mas tudo serve à viagem de Lennon pelo País das Maravilhas. Não é audição fácil, mas, se havia algo que todos sabiam sobre os Beatles naquele momento, é que eles nunca escolhiam o caminho simples.