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Histórias

A música que o The Police achou “mole demais” e hoje passa de 600 milhões de plays

5 min de leitura
Foto: Apple Music
Foto: Apple Music
Resumo
  • ▪ Sting levou a demo de "Every Little Thing She Does Is Magic" ao The Police em 1981 e a banda a achou suave demais.
  • ▪ A demo feita com Jean Roussel acabou virando a base da gravação oficial, em "Ghost in the Machine".
  • ▪ A música chegou ao número um no Reino Unido e hoje tem mais de 600 milhões de plays no Spotify.

Em 1981, Sting levou ao The Police uma canção que, para o resto da banda, soava suave demais. Quatro décadas depois “Every Little Thing She Does Is Magic” soma mais de 600 milhões de reproduções no Spotify, público bem maior do que o grupo imaginava alcançar na época.

A história começa nas gravações de “Ghost in the Machine”. Hugh Padgham não queria repetir o clima de “Zenyatta Mondatta”, disco produzido por Nigel Gray, nem o ambiente de pressão que ele criou. A banda já trabalhava com dificuldade sob tanta tensão, então o produtor montou um sistema: cada integrante usaria um estúdio separado, para preservar o fluxo criativo e dar ao álbum uma sensação mais “ao vivo”.

O disco trouxe estreias, como o uso intenso de saxofone e teclados. Mas o isolamento também criou mundos criativos distintos, com ideias que se chocavam e várias demos circulando. O que prometia mais produtividade acabou abrindo distância entre os músicos.

Sting chamou Jean Roussel para colaborar em “Every Little Thing She Does Is Magic”. Juntos, fizeram uma versão polida, conduzida pelo piano. Ela estava tão completa que sobrava pouco espaço para os outros contribuírem. Enquanto os demais levavam demos como ponto de partida, a de Sting parecia uma canção pronta, que precisava da banda apenas como apoio.

Andy Summers lembrou depois que ficou “decepcionado” com os rumos de “Ghost in the Machine” por causa dessa dinâmica, sentindo que o resto do grupo havia ficado em segundo plano diante da postura dominadora de Sting. Para ele, a faixa fora feita para soar como um sucesso sem precisar de muitos ajustes.

Os demais, porém, insistiram em trabalhar a música em conjunto. A discussão gerou atrito e plantou o germe das frustrações que marcariam “Synchronicity”. “[Sting] estava num estúdio em Montreal, onde ele e [Jean Roussel] criaram uma demo que, se ele pudesse lançar assim, já seria um hit”, recordou Stewart Copeland. “Quem precisa de banda, quem precisa de qualquer coisa… isso é um hit! De cara!”, disse, imitando Sting. “E claro que a gente quis transformar aquilo numa faixa de banda.”

Sting havia escrito a canção em 1977, então já sabia bem como queria o resultado quando fez a demo. Com toques de new wave e reggae, ele e Roussel chegaram à versão que tinha na cabeça. Ficou tão satisfeito que, mesmo com as partes acrescentadas pelo grupo, a demo acabou sendo usada como base da gravação oficial.

“Para mim, soava como uma música número um”, contou Sting ao The Independent. Sobre a resistência que veio depois, ele disse: “Levei para a banda, que estava reticente, ainda achando que era mole. Eu dizia: ‘Mas escutem, é um hit’. Tentamos fazer do zero como The Police, mas não tinha a mesma energia da demo. Depois de uma dose de puxões de cabelo e tortura da minha parte, consegui que a banda tocasse por cima da minha demo.”

Em retrospecto, é difícil discordar da teimosia de Sting. A música chegou ao primeiro lugar no Reino Unido e, com mais de 600 milhões de plays no Spotify, encontrou um público muito além do que a banda mirava em 1981. O que os colegas ouviram como suavidade talvez fosse justamente o que lhe deu fôlego tão longo.

Sob o piano polido e a melodia irresistível, há um narrador que mal consegue reunir coragem para falar, quanto mais para declarar amor. O som pode ter parecido doce demais para o The Police, mas a ansiedade por baixo era território conhecido.

Hoje, chama atenção o contraste: a base soa lapidada, enquanto os vocais de Sting parecem crus e sem filtro. Essa diferença combina com o reggae característico do grupo, com guitarras em espiral e melodia grudenta numa mistura ao mesmo tempo animada e contemplativa. A faixa soa mais como fruto de uma ideia bem formada e de apelo comercial imediato do que de uma colaboração entre os três.

As tensões em torno da autoria e do dinheiro seguiram o grupo por muito tempo, como mostram a cobrança de royalties dos ex-Police contestada por Sting. Já o ponto de vista de um dos protagonistas desta história aparece quando Andy Summers revela seus cinco álbuns favoritos.

Autor

  • Luis Fernando Brod

    Publicitário, redator e pesquisador musical com foco em classic rock, hard rock e bastidores da indústria fonográfica. Especialista com mais de 5 anos em resgatar a história por trás de álbuns lendários e dissecar a trajetória de ícones da música nas décadas de 70, 80 e 90. No Disconecta, assina reportagens especiais, retrospectivas e a cobertura diária do rock internacional. Criador do canal no youtube Minha Vida em Vinil onde cobre música e colecionismo em mídia física.

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