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30 Anos de BRAVE MURDER DAY, do Katatonia (1996)

5 min de leitura
Capa de Brave Murder Day do Katatonia.
Foto: Capa de Brave Murder Day do Katatonia.

BRAVE

Na primeira metade da década de noventa, uma banda de Estocolmo chamada Katatonia daria o que falar com o lançamento do primeiro full-length, Dance Of December Souls (1993), um diferencial principalmente para a sonoridade death-doom metal na época, marcado por passagens melódicas características do metal extremo nórdico, junto à melancolia do gênero gótico. Um ano depois, eles lançariam o miniálbum intitulado “For Funerals To Come” (1994), que apresentaria uma sonoridade menos crua, porém, preservando muito das características anteriormente citadas.

Anders, Jonas e Fredrik; Créditos: Lennart Kaltea
Anders, Jonas e Fredrik; Créditos: Lennart Kaltea

“Morto, porém sonhando”, essa teria sido a resposta de Anders “Blakkheim” Nyström (guitarrista), quando lhe foi perguntado sobre o futuro da banda em uma entrevista, considerando um período de inatividade que se arrastava de 1994 até o ano seguinte. Naquela época, Anders considerava a ideia de continuar os trabalhos sozinho, ou chamando outros novos integrantes, sob a incerteza do retorno de Jonas “Lord Seth” Renske. Entretanto, o guitarrista não perdeu tempo e foi expandindo o currículo com sua breve participação no Bewitched e com seu mais novo projeto, o Diabolical Masquerade, ainda sob as raízes black que estavam fortes no cenário escandinavo na década de noventa.

Créditos: Lennart Kaltea
Créditos: Lennart Kaltea

No início do ano de 1996, Nyström decidiu voltar a contatar novamente Renske, convidando-o para participar dos vocais do próximo álbum de estúdio do Katatonia, que se chamaria “Where The Hearses Go…”, sob a mesma estética gótica sob a qual ficaram conhecidos anteriormente. Como resposta, foi enfático em dizer que, embora quisesse retornar às atividades com a banda, ele já havia perdido total interesse no estilo. Via-se em novos horizontes musicais formados no rock alternativo, precisamente em bandas de shoegaze, cuja influência em Brave Murder Day é fortíssima. Fredrik Norrman entrava na jogada como um novo membro, e agora o time era composto por dois guitarristas e um baterista que exerceria as funções vocais no grupo de forma simultânea.

Créditos: Lennart Kaltea
Créditos: Lennart Kaltea

Entretanto, um elefante branco precisava ser resolvido: a habilidade vocal de Jonas com os guturais e vocais rasgados havia se tornado pífia. Mikael Åkerfeldt, frontman e vocalista do Opeth, que também era melhor amigo de Jonas, foi convidado para assumir o posto dos vocais. Tendo a mesa feita e um contrato com o selo italiano Avantgarde Music, voltaram ao Unisound Studios do notável produtor Dan Swanö, que já havia trabalhado com eles desde o lançamento da demo Jhva Elohim Meth (1992). Entretanto, uma avalanche de presepadas durante a gravação foi parte do dia a dia em estúdio. Era comum que Swanö chegasse às 9 da matina, preparasse a cafeteira e perguntasse aos rapazes o que eles tinham para trabalhar, terminando por passar parte do dia compondo material em estúdio que deveria estar supostamente pronto. Esse mar de frustrações culminou, também, em um bate-boca com a banda sobre a orientação artística que seguiam, suplicando que gravassem um “Dance Of December Souls Parte II”, relembrando o som em que foram originalmente prestigiados.

Créditos: Lennart Kaltea
Créditos: Lennart Kaltea

Mesmo com um trabalho conceitual de 6 faixas pronto, a banda admite que a mixagem, embora tivesse ficado sob encargo deles após divergências com o produtor, era basicamente nula, embora o fundador da Avantgarde, Roberto Mammarella, dê uma opinião diferente sobre a situação para uma entrevista dada ao selo Darkness Shall Rise Productions, da Alemanha: “Deixe-me dizer que masterização não era um hábito naqueles anos […] Recebíamos pequenas fitas cassete digitais chamadas DAT, enquanto as fábricas de CD aceitavam apenas CD-R como masterizações. O que fazíamos era agendar com estúdios para que gravassem a DAT no CD-R, e o técnico de som apenas dava uma ajeitadinha aqui e ali em termos de níveis, mas com certeza não o que chamamos de masterização nos dias de hoje”.

MURDER

As influências alternativas eram diversas, iam desde bandas do shoegaze como Slowdive até mesmo Red House Painters, que eram parte do dia a dia de Jonas e passadas como troca na experiência auditiva de Anders. Mencionam, também, sobre estarem ouvindo bastante na época o primeiro álbum de estreia autointitulado da banda Kent, conterrâneos de Estocolmo.

Performance ao vivo de Brave, ao vivo no KOKO, Londres, Inglaterra em 6 de Maio, 2011; Créditos: Peaceville Records

É notável desde a primeira e longa faixa, “Brave”, que abandonaram de vez o estilo gótico, adotando principalmente uma tonalidade dissonante nas guitarras que vai em direção totalmente oposta às bandas que estavam no mesmo guarda-chuva do subgênero. Esse mesmo aspecto sonoro é muito adotado por bandas de Black Metal da terceira onda, ou pelo menos das categorizadas como Blackgaze, que abrangem nomes como Alcest e Deafheaven. É um álbum totalmente focado na introspecção, misantropia e desolação. É a visível contemplação do personagem ao suicídio, a visão cinza, passiva e caótica da mente de alguém que perdeu totalmente a esperança, uma forma clara de representação do niilismo passivo.

Créditos: Lennart Kaltea
Créditos: Lennart Kaltea

Black Erotica, faixa lançada na W.A.R. Compilation – Volume One (contendo diversos lados B de bandas da cena sueca como In Flames, Eucharist, Dissection)seria uma versão anterior de 12, retrabalhada para encaixar melhor no estilo sonoro do álbum, deixando todo aquele aspecto anterior mais cru para trás e dando uma característica mais nítida aos instrumentos para que casassem bem com a estrutura dissonante que tinham como visão. É um disco que foi muito influente em seu meio, e que principalmente os firmou como fundadores do subgênero Melodic-Death Doom Metal. Para apreciadores, é comum notar, por exemplo, que a banda finlandesa Swallow The Sun bebe e muito da fonte de Brave Murder Day. Mesmo que sob fortes características no progressivo, os três primeiros álbuns da era Candlelight Records do Opeth dividem de forma igual a mesma sonoridade, ainda mais quando se leva em consideração que essa venha de um cenário em comum.

DAY

Logo após um desgastado ciclo de divulgação, trabalharam na sequência em forma de EP, o Sounds Of Decay, tendo um frame do filme experimental de terror Begotten (1989) na capa, e sendo a última colaboração de Mikael com seus guturais. Duas versões foram gravadas, uma bem mais crua, que foi vetada tanto pela banda como pelo fundador da gravadora, como também outra que foi lançada de forma definitiva ao público. Åkerfeldt é sincero ao dizer que prefere a versão não lançada, uma vez que, segundo o músico, essa “soa mais brutal”.

Day performado de forma acústica ao vivo no Union Chapel, em Londres, Inglaterra, em dia 16 de Maio, 2014; Créditos: Kscope

Discouraged Ones (1998), último do selo Avantgarde Records, dividiu a opinião dos fãs. Embora mantivesse o peso dissonante do álbum de estúdio e EPs lançados nos últimos dois anos, os vocais limpos de Jonas Renske foram alvo de críticas do meio extremo. É perceptível até mesmo em “Tonight’s Decision” (1999) que fosse o último disco “pesado” da banda. Na entrada do novo milênio, tornaram-se de vez uma banda de rock alternativo com o aclamado “Last Fair Deal Gone Down”, lançado em 2001 pelaPeaceville Records, que já os apadrinharam como parte do catálogo da gravadora desde o trabalho anterior, no final da década de noventa.

Créditos: Lennart Kaltea
Créditos: Lennart Kaltea

Em 2006, o trabalho foi finalmente reeditado, com uma melhor mixagem e masterização que faça justiça ao legado desse petardo. Trinta anos depois, esse álbum soa como uma forma de amadurecimento, um período de transição que vai desde a expressividade de dor nas palavras ditas, como na parede de som que até hoje dá um frio na espinha para o que vos escreve e lança essa resenha hoje em dia. Coloque-o para escutar à noite, em pura introspecção e na ausência de qualquer distração e ruídos externos. Tenha em mãos uma taça de vinho e deixe que a visão de pessoas enforcadas flutuando em moinhos de vento venha a você, leitor, da mesma forma que veio para os responsáveis por essa obra.

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