Promoções: Receba no seu whatsapp as melhores ofertas de CDs e LPs
Início - Resenhas de Discos - Deliverance — Tightrope (1979): uma despedida entre o rock, o funk e o pop
Resenhas de Discos

Deliverance — Tightrope (1979): uma despedida entre o rock, o funk e o pop

5 min de leitura
Deliverance - Tightrope
Foto: Deliverance – Tightrope

Há discos que parecem registrar uma banda no momento em que ela começa a descobrir um novo caminho, sem que haja tempo suficiente para saber até onde essa mudança poderia levá-la. Tightrope, quarto e último álbum de estúdio do Deliverance, lançado em 1979, tem um pouco dessa característica. Ao longo de nove faixas, o grupo se afasta das referências que marcaram seu início e investe em uma sonoridade que aproxima o rock melódico do AOR, do jazz-funk e do pop sofisticado. O resultado é um trabalho que merece ser ouvido não apenas como o capítulo final de uma discografia curta, mas como o registro de uma banda disposta a mudar de direção.

Formado na Alemanha por músicos canadenses ligados à família Janz, o Deliverance começou sua trajetória em meados dos anos 1970, com uma proposta associada ao rock cristão. Os três primeiros discos, To God Be the Glory (1976), Give It a Try (1977) e Lasting Impressions (1978), ajudam a entender o percurso até Tightrope. No quarto álbum, entretanto, o grupo parece menos preocupado em preservar as características de seu passado e mais interessado em encontrar um espaço próprio dentro de um cenário musical em transformação.

Não é difícil entender o que poderia ter atraído os músicos nessa direção. Em 1979, o rock já não era o mesmo de poucos anos antes. O punk havia contestado os excessos de parte do rock progressivo, a disco music dominava pistas de dança e paradas de sucesso, e o pop se tornava cada vez mais sofisticado em termos de produção e arranjos. Ao mesmo tempo, o AOR consolidava uma linguagem que valorizava melodias fortes, teclados bem integrados e canções capazes de funcionar tanto no rádio quanto em apresentações ao vivo.

Relacionados

Deliverance — Tightrope (1979): uma despedida entre o rock, o funk e o pop

O Deliverance absorve parte desse ambiente sem se limitar a uma única referência. Mas elas estão ali e, pra quem gosta delas, Styx, REO Speedwagon, Steely Dan, Average White Band são algumas que você vai encontrar aqui.

Em Tightrope, as guitarras dividem espaço com teclados e metais enquanto o baixo e a bateria privilegiam o balanço em vez da força bruta. Essa escolha faz diferença. O álbum não tem a urgência do hard rock tradicional nem se apoia na complexidade instrumental como um fim em si mesmo. Sua identidade está na maneira como esses elementos são colocados a serviço das canções.

A faixa de abertura, “Foolish Hearts”, estabelece esse terreno com uma composição que valoriza a melodia e permite que os arranjos se desenvolvam sem perder o sentido de conjunto. O Deliverance demonstra preocupação com o acabamento, mas não transforma a música em uma demonstração técnica. Há uma diferença importante entre uma banda que toca para mostrar o que sabe fazer e outra que utiliza os recursos dos músicos para construir uma canção. Aqui, a segunda abordagem é a que mais interessa.

A faixa-título, “Tightrope”, concentra essa proposta em pouco mais de três minutos. É uma composição que funciona pela economia: não precisa se alongar para estabelecer sua identidade, e a combinação entre teclados, guitarra e ritmo sustenta o interesse sem recorrer a grandes demonstrações instrumentais. O título, que significa corda bamba, oferece uma imagem apropriada para a posição musical do grupo. O Deliverance caminha entre gêneros diferentes, procurando manter o equilíbrio sem se comprometer inteiramente com nenhum deles.

“Farewell (Bye, Bye, Bye)” reforça a inclinação pop do repertório, enquanto “Prince of the Galaxies” acrescenta outra cor à sequência. O álbum não se organiza em torno de uma única atmosfera, e isso contribui para sua personalidade. Em contrapartida, a variedade nem sempre se traduz em composições igualmente marcantes. Em alguns momentos, a sofisticação dos arranjos chama mais atenção do que as próprias músicas, e essa é uma das limitações de um trabalho que parece procurar uma identidade definitiva enquanto experimenta diferentes possibilidades.

É em “Leaving L.A.” que o Deliverance encontra uma de suas expressões mais convincentes. Lançada como single, a faixa chegou à posição 71 da Billboard Hot 100 em 1980, mostrando que a banda tinha condições de alcançar um público mais amplo. A música reúne boa parte dos elementos que orientam o álbum: uma estrutura acessível, atenção à melodia e uma produção que aproxima o rock da linguagem pop sem eliminar completamente sua identidade instrumental.

O desempenho comercial também permite imaginar como o grupo poderia ter se desenvolvido caso tivesse continuado. Tightrope se aproxima de uma vertente do rock que encontraria terreno fértil no início dos anos 1980, quando o AOR e o pop-rock de produção refinada conquistariam ainda mais espaço. Não seria necessário transformar o Deliverance em uma banda de sucessos para perceber que havia ali possibilidades interessantes. Bastaria dar continuidade à pesquisa musical iniciada nesse disco.

“Back Seat Rider” destaca outro aspecto importante do álbum: o groove. Baixo, bateria, percussão e teclados ajudam a construir uma base que não depende exclusivamente da guitarra para sustentar as músicas. Os metais, com participações de saxofone e trompetes, ampliam esse vocabulário e aproximam o grupo de uma linguagem que dialoga com o funk e o jazz. Não se trata de afirmar que o Deliverance tenha produzido um álbum de jazz-funk em sentido estrito, mas de reconhecer como essas referências interferem na maneira de organizar os arranjos.

A diferença fica ainda mais evidente em “Can You Survive?”, a faixa mais longa do disco, com 7 minutos e 29 segundos. Seu espaço permite que a banda desenvolva ideias instrumentais com mais liberdade, criando um contraponto às composições mais curtas. É um momento importante para compreender que a aproximação com o pop não significava necessariamente o abandono de ambições musicais mais amplas. O Deliverance queria escrever canções acessíveis, mas não parecia disposto a abrir mão da variedade de recursos que tinha à disposição.

“Face the Lady” mantém o álbum em movimento, enquanto “Re-Creation” encerra o repertório. O título da última faixa adquire um significado curioso quando ouvimos o disco sabendo que se trata do fim da trajetória do grupo sob o nome Deliverance. A ideia de recriação combina com a transformação musical registrada ao longo do álbum, embora não haja motivo para interpretar a composição como uma despedida deliberada. O contexto posterior é que acrescenta essa dimensão à experiência de audição.

Deliverance — Tightrope (1979): uma despedida entre o rock, o funk e o pop

Depois de Tightrope, a banda enfrentou problemas relacionados ao uso do nome Deliverance e divergências com a gravadora. Os músicos passaram a trabalhar sob o nome Janz, lançaram o single “Steine”, em 1981, e encerraram as atividades pouco depois, quando Paul Janz retornou ao Canadá. A história terminou antes que fosse possível verificar se a nova direção musical poderia resultar em uma fase mais consistente ou comercialmente bem-sucedida.

Esse desfecho torna o álbum mais interessante, mas não precisa servir como argumento para superestimá-lo. Tightrope não é um clássico injustiçado que muda nossa compreensão do rock de 1979. Seu valor está em outro lugar: na maneira como documenta uma banda em transição, explorando referências diferentes e procurando uma linguagem que não estivesse inteiramente comprometida com o passado.

O que permanece depois da audição é a impressão de um grupo que tinha mais de uma possibilidade diante de si. O Deliverance poderia ter insistido no caminho que o havia apresentado ao público, mas preferiu incorporar outros elementos e experimentar uma abordagem mais próxima do pop contemporâneo. Nem todas as escolhas produzem resultados memoráveis, e o álbum por vezes parece mais interessado em demonstrar sua versatilidade do que em encontrar uma unidade definitiva. Ainda assim, essa inquietação é justamente o que o distingue.

Para quem se interessa pelas zonas menos exploradas do rock dos anos 1970, o álbum merece uma audição atenta. Não necessariamente pela existência de grandes momentos em cada faixa, mas pela combinação de rock melódico, AOR, pop e jazz-funk que dá ao trabalho uma identidade própria. O Deliverance encerrou sua história sem alcançar o reconhecimento de grupos que circularam por territórios semelhantes, mas deixou um disco que registra, com suas qualidades e limitações, a vontade de não permanecer no mesmo lugar.

Autor

  • Luis Fernando Brod

    Publicitário, redator e pesquisador musical com foco em classic rock, hard rock e bastidores da indústria fonográfica. Especialista com mais de 5 anos em resgatar a história por trás de álbuns lendários e dissecar a trajetória de ícones da música nas décadas de 70, 80 e 90. No Disconecta, assina reportagens especiais, retrospectivas e a cobertura diária do rock internacional. Criador do canal no youtube Minha Vida em Vinil onde cobre música e colecionismo em mídia física.

    Ver todos os posts
Compartilhe esta matéria:

Relacionados

Deixe seu comentário

Participe da discussão

Seu comentário será analisado pela nossa equipe antes de ser publicado.

RÁDIO
DISCONECTA
Rádio Disconecta