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Histórias

“Desperado”, a música que os Eagles não viam como single e que passou de 250 milhões de streams

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Foto: Alamy
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Resumo
  • ▪ "Desperado" nunca foi single, mas passou de 250 milhões de streams e virou uma das faixas definidoras dos Eagles.
  • ▪ Don Henley esboçou a música no fim dos anos 1960, e Glenn Frey ajudou a finalizá-la, dando início à parceria da dupla.
  • ▪ A gravadora promoveu a faixa no "Greatest Hits" contra a vontade da banda, e a estratégia deu muito certo.

Os Eagles nunca pareceram feitos para o jogo comercial. Preferiam o anonimato e se preocupavam mais em construir o country rock como um gênero próprio do que em fabricar sucessos. Ainda assim, estão entre as bandas de rock que mais venderam na história.

Poucas faixas resumem tão bem essa trajetória torta quanto “Desperado”. Ela nunca saiu como single, mas virou uma das músicas mais conhecidas do grupo e deu início a uma das parcerias de composição mais fortes do rock.

A origem remonta ao fim dos anos 1960, quando Don Henley começou a brincar com trechos da canção. Ela só tomou forma quando Glenn Frey entrou na história, e foi a primeira de muitas composições assinadas pela dupla.

Nas notas do encarte de “The Very Best of the Eagles”, Henley contou que Frey foi até a casa dele para compor e ouviu a melodia inacabada, trabalhada por anos. “Eu disse [ao Glenn]: ‘Quando toco e canto isso, penso em Ray Charles e Stephen Foster'”, relembrou. “É uma coisa de gótico sulista, mas podemos facilmente torná-la mais western.”

Frey entendeu a ideia na hora. Segundo Henley, ele “pulou direto nela, preencheu as lacunas e trouxe estrutura. Aquele foi o começo da nossa parceria de composição, o momento em que nos tornamos uma equipe”.

O tema sulista que os dois adoravam atravessa o disco “Desperado”, que ganhou ainda um verniz de faroeste inspirado em “The Dalton Gang”, filme sobre um célebre bando de foras da lei. Curiosamente, o produtor britânico Glyn Johns gravou o álbum em Notting Hill, em Londres. O clima gótico sulista saiu tão convincente que o diretor Sam Peckinpah, conhecido por seus westerns, chegou a se interessar em fazer um filme baseado no disco, mas o projeto nunca saiu do papel.

O sentido da música divide o público, em um efeito parecido com o de “Hotel California”. Para uns, trata-se apenas de um vaqueiro que se recusa a amar. Para outros, é uma reflexão sobre os perigos da fama, na linha de “Life in the Fast Lane”.

Qualquer que seja a leitura, a faixa faz referência à ideia da música country de que vaqueiros são durões por fora e sofrem por dentro, e a aproxima da vida dos astros do rock, os pistoleiros solitários da indústria. “Desperado” levou esse tema para o rock, e ele reapareceria depois em “Wanted Dead or Alive”, do Bon Jovi, e “Back in the Saddle”, do Aerosmith.

Linda Ronstadt também gravou a música, em “Don’t Cry Now”, de 1973, poucos meses após o álbum dos Eagles. Henley e Frey haviam excursionado em 1971 como parte da banda de apoio dela, que os incentivou a sair para formar o grupo ao lado de Bernie Leadon e Randy Meisner.

A canção também antecipou a relação estranha da banda com as gravadoras. Quando foi escrita, em 1972, o grupo não a considerava material para single, e ela ficou como faixa de álbum ao ser lançada, em 1973.

Mais tarde, quando o “Greatest Hits” chegou ao mercado, a gravadora, contra a vontade da banda, fez de “Desperado” peça central da campanha. Funcionou muito bem e mostrou que os Eagles podiam ser músicos de mão cheia, mas nem sempre acertavam na escolha dos hits. Hoje, a faixa é uma das definidoras do grupo e soma mais de 250 milhões de streams.

Nada mal para algo que eles descartaram como faixa de álbum.

Autor

  • Luis Fernando Brod

    Publicitário, redator e pesquisador musical com foco em classic rock, hard rock e bastidores da indústria fonográfica. Especialista com mais de 5 anos em resgatar a história por trás de álbuns lendários e dissecar a trajetória de ícones da música nas décadas de 70, 80 e 90. No Disconecta, assina reportagens especiais, retrospectivas e a cobertura diária do rock internacional. Criador do canal no youtube Minha Vida em Vinil onde cobre música e colecionismo em mídia física.

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