Há 30 anos, Humberto Gessinger arriscava um novo caminho fora dos Engenheiros
Em 1996, Humberto Gessinger precisava mudar de ares. Depois de Simples de Coração, álbum de 1995 que apresentou uma formação ampliada dos Engenheiros do Hawaii, o compositor voltou a um formato mais enxuto, com guitarra, baixo e bateria. O resultado foi Humberto Gessinger Trio, disco que completa 30 anos em 2026 e registra um momento de transição importante na história da banda e na carreira de seu principal compositor.
A ideia não surgiu do nada. Gessinger já havia experimentado essa formação no 33 Espadas, projeto desenvolvido em Porto Alegre com Luciano Granja e Adal Fonseca. Os dois voltariam a acompanhá-lo no novo trio, com Granja na guitarra e Adal na bateria. Sem a obrigação de reproduzir a estrutura dos Engenheiros, o músico encontrou espaço para tocar de maneira mais direta, com canções curtas, guitarras pesadas e arranjos que privilegiavam o impacto da execução.
O contexto ajuda a entender a escolha. Desde a saída de Augusto Licks, em 1993, os Engenheiros atravessavam um período de mudanças. Simples de Coração havia explorado uma formação de cinco integrantes, com Fernando Deluqui, Paolo Casarin e Ricardo Horn ao lado de Gessinger e Carlos Maltz. O álbum abriu novas possibilidades sonoras, mas o trio de 1996 apontava para outra direção: menos instrumentos, menos ornamentos e mais espaço para a força das composições.
A gravadora, porém, não apostou no projeto com o mesmo empenho dedicado aos discos lançados sob o nome Engenheiros do Hawaii. Sem a marca que já identificava o grupo para o grande público, Humberto Gessinger Trio acabou recebendo menos atenção comercial. Foi uma ironia: algumas de suas canções sobreviveriam muito além daquele lançamento, mesmo sem o respaldo promocional que poderia ter ampliado seu alcance na época.

“O Preço” é um dos melhores exemplos. Com guitarra incisiva e uma estrutura direta, a música concentra a capacidade de Gessinger de transformar inquietações em versos que permanecem na memória. “Vida Real”, que também chegou às rádios, revela seu talento para construir melodias acessíveis sem abandonar a observação crítica do cotidiano. Já “De Fé” se firmou como outra presença duradoura no repertório do músico. São canções que não precisam de grandes arranjos para funcionar: a combinação de baixo, guitarra e bateria é suficiente para dar corpo às ideias.
O peso do disco não soa como uma tentativa de seguir uma tendência específica dos anos 1990. Ele nasce, antes, das próprias condições do trio. Com menos instrumentos, a guitarra precisa ocupar mais espaço, o baixo assume papel central na sustentação das músicas e a bateria conduz tudo com objetividade. Essa economia dá ao álbum uma aspereza particular, sem apagar aquilo que sempre distinguiu Gessinger: o senso melódico, a ironia e as letras que preferem levantar questões a oferecer respostas fáceis.
A experiência não ficou isolada. Em 1997, os Engenheiros do Hawaii lançaram Minuano, agora com Gessinger, Luciano Granja, Adal Fonseca e o tecladista Lúcio Dorfman. Carlos Maltz já não fazia parte da formação. O novo álbum incorporou possibilidades instrumentais diferentes, mas preservou a disposição para reorganizar a identidade da banda. Nesse sentido, Humberto Gessinger Trio funcionou como uma ponte entre a experiência de Simples de Coração e a fase que se iniciaria com Minuano.
Trinta anos depois, a permanência de “O Preço”, “Vida Real” e “De Fé” ajuda a explicar por que esse trabalho merece ser revisitado. Mais do que uma curiosidade na discografia, o álbum mostra um compositor disposto a abandonar temporariamente uma estrutura conhecida para testar suas músicas em condições diferentes. A mudança não apagou sua identidade; tornou mais evidente o quanto ela dependia das composições, e não apenas do nome da banda.
A turnê 3×4 – Um Retrato, que começa em novembro de 2026, recupera esse capítulo com Gessinger acompanhado por Felipe Rotta, Rafa Bisogno e Esteban Tavares. A comemoração é uma oportunidade de devolver ao disco o espaço que ele não conquistou na época do lançamento.
Às vezes, um projeto paralelo revela mais do que uma tentativa de seguir outro caminho. Humberto Gessinger Trio nasceu da vontade de simplificar, tocar com liberdade e escapar das exigências de uma banda consolidada. Acabou registrando uma transformação que ajudaria a definir os anos seguintes dos Engenheiros do Hawaii.