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A história da épica Marquee Moon do Television

Os primeiros acordes de Marquee Moon do Television são um dos mais marcantes da história do rock, não é? A guitarra que se repete te transporta de cabeça numa obra-prima do art punk, uma faixa longa com mais de 10 minutos, mas pela genialidade musical você nem percebe.

Soma-se a isso, as meditações líricas do Tom Verlaine sobre os perrengues da vida, o baixo em contra ponto as guitarras e a bateria deliciosamente dançante.

A verdade é que Marquee Moon é uma viagem com muitas curvas pela incerteza e falta de rumo tanto da linha musical, quanto liricamente falando.

Verlaine parece estar numa encruzilhada de sua vida. No meio da música, ele se vê de frente com as ideias dos outros, cantando algo do tipo “Ele disse ‘Oi, Júnior/Não fica tão feliz/Ah, pelo amor de Deus/Não fica tão triste’”, antes de sacar que não quer mais ficar na zona de conforto: “Eu não tô esperando”.

O Verlaine usa umas imagens meio simbólicas de cemitérios, escuridão, chuva e raios pra criar aquela vibe de solidão e luta, mas, musicalmente, a música está longe de ser deprê, mas também não é uma das coisas mais alegres do mundo. As partes instrumentais longas são momentos de otimismo e determinação, refletindo a decisão do Verlaine de encarar a vida com todas as suas contradições e dificuldades.

Isso meio que representa o momento da cena que deu origem à música. Na época, Nova Iorque passava por um momento estranho, milhares de pessoas sem empregos em poucos. Um momento muito duro, distópico, com violência, drogas e perigo por todo lado. Mas a nova geração segurou a onda, tiveram seus tropeços é verdade, mas mantiveram espírito jovem do rock. Como o ex-líder da Television, Richard Hell, já falou: “As coisas sempre mudam, e Nova Iorquete ensina isso.” No fundo, é mais ou menos disso que a música trata.

“Eu tava ouvindo, ouvindo a chuva”, dizem as letras, “Eu tava ouvindo, ouvindo algo mais.” Essa parada de escuridão seguida de uma esperança desafiadora é meio que um símbolo do punk, saca? A sociedade podia tá parecendo um futuro distópico, mas tinha uns rolês legais ali no Marquee Moon. As guitarras duelando quase simbolizam isso musicalmente também.

A música ainda é a maior obra da banda, tá lá no primeiro álbum deles de mesmo nome. Apesar de ter sido lançada em 1977, ela já ganhava suas primeiras versões nos anos anteriores, quando a banda tocava direto no CBGBs, um lugar underground icônico de Nova York. Junto com a Patti Smith, a banda fazia uns shows lá e viraram figuras importantes no desenvolvimento do punk.

Ao longo dos anos, eles tocaram a música de várias formas, acabando com uma versão de uns dez minutos que vai de partes lentas e melódicas a momentos mais rápidos e intrincados. Em uma entrevista de 1977 pro Melody Maker, o Verlaine disse:

Marquee Moon foi escrita há uns três anos, tinha tipo 20 versos. Era uma música que eu tocava no violão.”

A primeira demo de Marquee Moon foi gravada em 1974 pelo empresário da banda, Terry Ork. Porém o Television não gostou e gravou outra demo, dessa vez com o Brian Eno e o Richard Williams da Island Records. Só que essa também não agradou, e eles jogaram fora. Em um artigo do The Guardian, o Williams explicou que tava “a fim de achar algo novo – que não fosse de glitter, nem prog e nem glam. Algo que parecesse diferente, que fosse tipo um futuro possível. A Television parecia que podia ser isso.”

Mas o Verlaine não conseguia acertar Marquee Moon, o Williams lembra que “pouquíssima gente lá na [Island Records] curtiu as demos.”

Porém, o Verlaine sabia que tinha uma música épica em mãos, e aí, sucesso! Quando ele e o engenheiro Andy Johns entraram na produção, a música foi gravada num estúdio em Nova York, em uma única vez. O baterista Billy Ficca nem sabia que tavam gravando a versão final, mas o Verlaine insistiu que tinham conseguido o que queriam.

Quando lançaram, a música fez sucesso no Reino Unido, que tava mais na onda do punk do que os EUA. E claro, Marquee Moon não é só punk, não. Ela vai além com os solos meio sobrenaturais, indo na contramão daquela pegada rápida e na sua cara do punk inicial.

Como Nova Iorque da época ficou conhecida como cena punk, no fundo, muitos dos artistas e bandas que receberam esse rótulo, e principalmente a música Marquee Moon abriu caminho pro que a gente chama de pós-punk, com o Verlaine misturando várias influências na composição da música. Ele já falou: “Eu tocava até acontecer alguma coisa. Isso vem do jazz, até do The Doors, ou do álbum Five Live Yardbirds – aquele dinamismo delirante”

Segundo o guitarrista Richard Lloyd, a música é “bem estruturada mesmo”. Ele explicou: “É tipo uma mini-sinfonia. No final da música, o Tom faz um solo longo, e ele meio que flutuava por partes dele, mas a gente tinha uma estrutura.”

Lloyd continuou: “Eu faço a música sozinho às vezes, e é bem estruturada mesmo: tem uma parte alta e uma parte suave, tem uma construção, aí tem uma escalada – na verdade, são três conjuntos de escaladas – aí tem o que a gente chama de ‘passarinhos’, depois mais uma seção e aí volta pro verso.”

E olha, “não é fácil de aprender”, como ele mesmo disse. Essa é a jornada de Marquee Moon, uma obra-prima que marcou o rock.

Crédito foto destaque: Richard E Aaron/Redferns

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2 respostas para “A história da épica Marquee Moon do Television”

  1. Avatar de João
    João

    Boa, Marcelo!
    Um abraço!

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