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Eu sou um ídolo pop!

Com dois discos para serem lançados e um tributo em sua homenagem em produção, Plato Divorak reforça seu status de herói cult da psicodelia brasileira.

1966. O ano do “amanhecer psicodélico” – que, em 1967, culminou no summer of love – alvejou o rock-and-roll, até então uma musicalidade “p&b”, com sonoridades multicoloridas. Revolucionários álbuns lançados nesse ano alteraram o curso histórico do rock: Revolver (The Beatles), Pet Sounds (The Beach Boys), Fifth Dimension (The Byrds), Face to Face (The Kinks), Freak Out! (The Mothers Of Invention), The Psychedelic Sounds of The 13th Floor Elevators (13th Floor Elevators). Há 44 anos, o ventre do planeta Terra também paria o ser (humano?) batizado Paulo Alexandre Paixão de Oliveira – o qual atende, porém, pela artística alcunha de “Plato Divorak”. Muito melhor do que apresentá-lo é deixar tais honrarias para a epígrafe que o compositor de mão cheia que Plato é escreveu na canção “Eu Sou um Ídolo Pop”, que abre um de seus novos discos: “Hoje eu crio o ambiente das festas de minha juventude. Amanhã estarei de olhos vendados para a sua maldade. Que nasçam os frutos da bonança. Eu não vou compor a minha ‘Yesterday’, porque eu sou o Paul McCartney. Só que ele não sabe que ele sou eu… Na escuridão, eu atiro na tarântula. Não gosto de mulheres afetadas. E então, é nessa hora cósmica que proclamo: eu sou um ídolo pop!”.

O caminho de Plato para o “estrelato pop” começa em 1988, ao integrar a banda Os Jaquetas e, depois, tocando com Edu K no power trio O.F.F. No mesmo ano, saiu-se com a cultuada Père Lachaise e, em 1994, montou a Lovecraft. O duo Frank & Plato é de 1993 e existe até hoje com o título de Frank Jorge & Plato Divorak e Empresa Pimenta. Plato Divorak & Os Sha-Zams foi seu primeiro projeto combo-solo. Com o Momento 68, Divorak gravou Onde Estão Suas Canções?, álbum de 1999, com Sandro Garcia (hoje no Continental Combo). Plato & Os Analógicos veio em 2004: “De 1996 a 2004, me dediquei quase que integralmente às gravações-solo – uma espécie de ‘Jovem guarda de expansão’: muita lisergia, ritmos brasileiros e rock”, Plato explica.

Dono de vasta produção musical, Plato Divorak é persona essencial do underground não só porto-alegrense, como mundial e brasileiro, ao lado, por exemplo, de Jorge Amiden (da cultuada e esquecida banda carioca Karma) e – ousaria dizer – do mutante Arnaldo Baptista. A verdade é que Plato Divorak, usando de expressão de sua lavra, “nunca está dormindo”. Ele não para, ou melhor, nunca parou de compor. Em abril, o compositor gravou 18 músicas novas. Três delas estão no recém-lançado single virtual Psychodisk. Nele, Plato Divorak apresenta três novas canções, hits instantâneos que farão parte de seu próximo álbum, Space Fusion, em fase de finalização. Para 2010, além de Space Fusion, Plato prepara suas cartas para o lançamento de Plato Divorak & Os Exciters, disco inédito pronto desde 2007 e, também, pelo tributo que vem sendo produzido a todo vapor pelo jornalista brasiliense Pedro Brandt. O repórter ouviu os três lançamentos com exclusividade. “Eu crio uma filosofia musical para os heróis deserdados de outras eras. Esse rock intransferível, uma abrupta paixão por autores, bandas e artistas dos espetaculares anos 60, faz parte de nossa vida ainda hoje. Estou na terceira camada ou no subterranean sixties”, diz Plato sobre sua arte lisérgica.

Para os registros sonoros (tanto o disco com os Exciters, quanto os mais recentes), Plato, mais uma vez, contou com o abrilhantamento do produtor Thomas Dreher. No disco gravado este ano, Plato e o guitarrista Leonardo Bomfim também contaram com o especial little help do guitarrista Julio Cascaes (Hipnóticos) e do Gésner Mess (Maria do Relento), um dos fiéis escudeiros de Plato. Ambos “xamânicos”, ele conceitua os parceiros. Plato define as três faixas do single, que conta com “A mulher Brasileira é a Mais Linda” e “Crematory Boys”, como “uma diversificada sugestão autoral”. A primeira canção é uma espécie de samba-rock psicodélico que remete a Jorge Ben fase A Tábua de Esmeralda, e a segunda tem o clima The Who/Pink Floyd dos primórdios: “Coisas que saíram de moda em Porto Alegre, mas que ainda são ótimas para pegar emprestado”, nota Bomfim. Em Space Fusion, Leonardo toca baixo, os quais foram gravados todos num take, praticamente. Detalhe: as guitarras de Julio Cascaes foram registradas sem que o instrumentista tivesse ouvido as composições anteriormente. “O disco todo foi gravado de primeira”, conta Leo.

O produtor Thomas Dreher, responsável pelas excepcionais gravações, por sua vez, entende-se exemplarmente com a “complexidade psicodélica” do Plato. “O disco foi gravado numa velocidade supersônica, porém, com qualidade. É cheio de detalhes nos arranjos, violões, percussão e guitarras”, continua o guitarrista. O resultado, de fato, atingiu a excelência. Além das experimentações costumeiras, está repleto de hits, como “Xenon Light”, sobre o amor de um homem por sua robô, e “Let shine on”, na qual Plato prova que sua lisergia não é só aquela batida anacrônica fincada em previsíveis territórios dos imprevisíveis sixties. “Space Fusion viaja pelo krautrock, soul e funk. Tem as ‘Syd Barrett ballads’ e várias surpresas que as pessoas, com o tempo, irão aglutinar. Espero não estar sendo arrogante nesse caso”, desculpa-se Plato, que divide a psicodelia em três “camadas”. Ele, certamente, encontra-se na terceira delas, nada devendo a legendas psicodélicas da linhagem de Syd Barrett (Pink Floyd), Alexander “Skip” Spence (Moby Grape) e Rocky Erickson (13th Floor Elevators). Exceto por Erickson, nosso Divorak, que se afirma um “connoisser de rock, sixties e jazz”, gravou mais do que esses dois britânicos, os quais – muito diferente do que, comumente, supõe-se sobre o gaúcho – perderam-se na loucura. Plato segue firme com a sua “lucidez” criativa.

Frank Jorge não mais consegue precisar o ano, muito menos a data exata, em que conheceu Plato Divorak. A única lembrança certa, Frank examina a memória, é que o encontro entre eles rolou na segunda metade dos anos 1980. Para Frank, a “mania sixtie” sulista de venerar Beatles e Stones, e o punk e a new wave do período, fez que Lou Reed e Jim Morrison ficassem esquecidos em Porto Alegre. “Passaram quase batidos”, afirma. O Plato era um destes outsiders que se ligavam nas outras vertentes estéticas. “Ele trazia essas outras influências, mas, obviamente, recicladas, abrasileiradas. Ou melhor, ‘aportoalegrezadas’”. Se Dylan trouxe poesia para o rock, Plato trouxe o sadomasoquismo, a poesia de Rimbaud e o surrealismo para os nossos insistentes iê-iê-iês. Plato tem sempre alguma novidade escondida em algum bolso. Chegou a hora de o mundo conhecer Plato Divorak. Atreva-se a não gostar. “Canaaaaaaaaaaaaaaalha!!!” No tributo organizado por Pedro Brandt, participam bandas de diversos estilos, como a psicodélica Band of Pixies, que regravou “Antiglitter”. De acordo com o músico, a escolha do fonograma caiu como uma luva na sonoridade de seu novo acid trio.

A música, que tem atmosfera de conto de fadas espacial, canaliza o encontro de Jimi Hendrix com os duendes do Planeta Gong. “Adicionamos uma seção final spaced-out, desconstruindo o espaço-tempo galático. Dobra espacial 5, Sr. Sulu. Viva Plato, já estamos em 2032!”, anima-se Golfetti, que estabeleceu o link com Plato ainda no final dos anos 1980, quando trocavam mensagens através da Radio Gnome Invisible. Brandt conta que começou a articular o tributo ao Plato – de quem é amigo há anos – escolhendo, primeiramente, as músicas de seu repertório. Depois os convites foram feitos às bandas. “Eu escolhi algumas bandas, o Plato, outras. Tocam bandas de Porto Alegre, Curitiba, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, São Paulo, Aracaju e Florianópolis. Serão feitas versões para músicas de todas as épocas da carreira dele: Père Lachaise, Lovecraft, Frank & Plato e Plato solo”, explica o jornalista. Até agora, cinco gravações já foram entregues: “Volta às aulas em Saint-Tropez”, com Marcelo Mendes, “Melô do Zé Bigorna”, com os Irmãos Panarotto, “Iluminados Monstros do Amor”, com os cariocas Do Amor e a já citada “Antiglitter”.

A gravação de “Pensa Demais”, com os gaúchos Galãs da Menopausa, tinha sido gravada em 2008, nas nunca usada, e acabou entrando para o projeto. “Escolhemos ‘Romance mórbido’ porque está inclusa em um de nossos discos favoritos – senão, o favorito – de rock gravado nos Pampas, o Amnésia Global, de Frank e Plato”, sublinha.

Andrio Maquenzi, da Superguidis. “É uma canção pueril, desconexa, lasciva, como sempre foi qualquer obra-prima do Plato. Eu e o Lucas Pocamacha gastamos esse disco quando o conhecemos, no início dos anos 2000. Grata e bem-vinda surpresa. Obviamente, vamos fazer uma versão podreira, sentando a lenha com guitarras cortantes à la Dinosaur Jr. E, sim, é uma grande honra fazer parte desse tributo. ‘E quem vocês pensam que são?’”

A ideia, explica Pedro, é lançar como disco virtual, para download gratuito na internet. Mas o jornalista sonda, também, selos que possam se interessar em viabilizar o projeto em CD. “O objetivo principal do tributo é prestar uma homenagem ao Plato e, claro, ajudar a popularizar a produção musical dele.” “Sobre o Plato, o melhor de tudo é conviver com a figura durante todos esses anos”, conta Leo Bomfim. “Importante ressaltar que ele não é um personagem, o Plato é o Plato, vinte quatro horas por dia. O que ele coloca nas músicas é o que ele vive. É a realidade dele mesmo. Porque há muitos ‘doidões’ por aí que são puro personagem.” A parceria de Leo e Plato nasceu para participar de um tributo virtual a Ronnie Von. O mais importante projeto, entretanto, é o disco de estreia de Plato Divorak & Os Exciters, ainda inédito, segundo Leo, por conta de uma sacanagem do selo Pisces Records. Causos e lendas sobre Plato Divorak há centenas. Em Porto Alegre, todo mundo sabe pelo menos alguma história “absurda” relacionada a ele. Uma de suas clássicas, destaca Bomfim, é sobre todo integrante novo que entra em suas bandas. O “batismo” dos neófitos músicos consiste em ser devidamente apresentado às suas “amiguinhas” numa legítima casa da luz vermelha no centro de Porto Alegre – o que, no fundo, não é nada mal…

“O Plato tem uma tática sensacional pra não pagar pelo prazer. Ele começa a fazer as preliminares e depois de amassar bastante a menina, pergunta quanto é o anal. Ela diz o preço e ele diz que não tem essa grana. Aí vai pra outra salinha e faz o mesmo. Depois de umas cinco ele já se satisfez”, o amigo revela. “Acho que nosso novo hit, ‘A Mulher Brasileira é a Mais Linda’, resume um pouco essa vida que eu levo”, considera o lendário Plato Divorak. Sobre rock, sua maior especialidade, ele respira como um filósofo pop: “Eu quero criar uma filosofia. Eu tenho a história do rock em minhas mãos”.

*Perfil coligido no livro de jornalismo cultural Nova Carne Para Moer: Seleção de Textos Sobre Cultura Pop, Grandes Reportagens, Entrevistas e Artigos publicado por Bastos em 2019. Editora Zouk


Crédito: Fernanda Chemale

Plato Divorak: “Nunca estou dormindo”

Em 2010, Plato Divorak, demonstrando toda sua proficiência, senso de humor e inteligência Sui generis, concedeu ao autor a entrevista que segue:

Quais as grandes bandas do rock pra você?

Plato – The Deviants, Love, Byrds, Velvet Underground, Can, King Crimson, MC5, Frank Zappa & The Mothers of Invention, Led Zeppelin, Television, Sonic Youth, The Who, Stranglers, Pink Floyd e Them. Porque têm sonoridade única, transparecendo raça e talento – tão em falta hoje.

Você vai fazer rock até morrer?

Plato – Queria que as pessoas soubessem que nunca estou dormindo. Enquanto a maioria dos mortais prepara a “caminha”, eu estou com três tipos de canetas (fina, média e grossa) preparadas para um ataque letrístico.

Psicodelia dá manga pro pano nos anos 2000?

Plato – Se está dando pros Mutantes, por que não vai dar pra mim?! Existem tentáculos que direcionam o artista pros mais livres métodos de criação, portanto, a psicodelia também está incluída. Senão, não estaria tocando, conhecendo pessoas legais, trocando informações com outros músicos, making love, taking acid, smoking pot e touching chicken girls. É só vir um grupo lá da Europa cantando temas franceses à la Vive La Fête, e todos já ficam ouriçados, loucos pra invadirem as boates. Que culpa tenho eu? É bem culpa do psychedelic world, coberto de invejas e intriguinhas. Eu, fora!

O selo Krakatoa Records ainda rola?

Plato – Existe, sim senhor! Comecei em 1991 com fitas k7, que estava muito na moda naquela época. Do ano 2000 pra cá, só lanço Cds. Estou preparando um disco com dois shows acústicos: vai se chamar The Good Memories Bootleg, as minhas apresentações-solo. As apresentações foram gravados em 1997. Outro lançamento na cartola é a coletânea Translucid Trippers, no qual a Krakatoa une os discos Guru Psychosis, de 2001, e Saifaiscaflex, de 2004 – e mais 12 inéditas. O rock psicodélico, o protopunk, o lounge, o bizarrodelic dão as caras na coletânea. A qualidade da gravação é muito boa. Entrem em contato e terão o seu.

Cite um dos protagonistas do psicodeliso mais subestimados ao seu ver?

Plato – Alexander Skipe Spence, do Moby Grape, que lançou o disco solo OAR, em 1969. Ele chafurdou nas drogas sem saber aonde elas o levariam. Estou lendo sobre Spence no livro The Acid Archives, sobre artistas psicodélicos – de 1964 a 1982.
É fascinante. A história do under do underground.

O imaginário em torno de Plato Divorak é verdade – ou mentira deslavada?

Plato – Muitas são as fofocas que me atingem de forma delicada, mas me fazem viver de forma mais arriscada, como o Roberto Carlos dentro de um helicóptero, não é mesmo?
Mas este imaginário, pra mim, são os degraus da sabedoria que eu mesmo galguei até chegar aqui.

Qual o filme mais doido que seus olhos já assistiram?

Plato – Um que vi nos anos 80: era tão ácido que aparecia uma igreja pegando fogo – um barbudo/cabeludo na cruz, e a gurizada de San Francisco fugindo pelas ruas. Safadeza…
O nome era Busca Alucinada! Fora esse, Easy Rider, Venus In Furs, The Trip, Riot on Sunset Strip, o grande Zabriskie Point .

Diga qual é “o disco” do psicodelismo brasileiro?

Plato – Por Favor, Sucesso, do Liverpool. Foi lançado pela Tapecar, um raro selo gaúcho, em 1969. Me desculpem, mas não existem outros. Os Mutantes eu não cito porque eles faziam música lounge.

E a banda mais bizarra?

Plato – Talvez o Hapshash & The Coloured Coat. Esses caras faziam cartazes em 67, o visual dos caras era meio experience e o disco se chamava Western Flyer, de 68. Se você quiser escutá-lo como uma coisa audível, também pode.

Trace um panorama de sua carreira.

Plato – Em 88, com os Jaquetas, toquei com Big Mac, o incendiário dos teclados. Depois toquei com Edu K no power trio O.F.F.
A Pére Lachaise surgiu ainda em 88, com os guitarristas Irapa e Eduardo Diaz. Flávio Passos, no baixo, e Sérgio Rodrigues, na bateria. Em 91, entraram o Alemão, na bateria, e o Frank Jorge, na guitarra, pois a Graforréia estava falida na época. Circulavam pelo grupo “os guitarmen” Vasco Piva e Eduardo Christ. A Lovecraft começou em 94, com Betão na guitarra, Regis Sam no baixo e Gésner Mess, na bateria. O grupo era muito paparicado por trazer de volta o som dos anos 60. Frank & Plato é de 93, e existe até hoje com o título de Frank Jorge & Plato Divorak e Empresa Pimenta. Plato Divorak & Os Sha-Zams foi meu primeiro combo solo em 1996. Com o Momento 68, gravei o disco Onde Estão Suas Canções?, em 1999, São Paulo, com Sandrinho Garcia. Depois Plato & Os Analógicos veio em 2004. De 1996 a 2004, me dediquei quase que integralmente as gravações-solo – uma espécie de “Jovem Guarda de Expansão”: muita lisergia, ritmos brasileiros e rock.

E o maior dos clichês psicodélicos, hein?

Plato – Um deles te digo sem pestanejar: é aquela puxadinha de fumo – tipo assim, aquele magrão com a maconha na boca, olhando pra garota: “Vamos?!” A outra são os cabelos, de todos os tipos, que todos querem ter igual.

Plato Divorak & Os Exciters (2011)

Indiscutivelmente, entre os maiores discos de música rock cometidos no Brasil, nos últimos 25 anos. Pena que pouca gente ouviu. Para esses só digo o seguinte: não sabem o que tão perdendo. Power pop, mod, tropicalismo, glam, soul music brasileira safra 1970, psychedelic, garage rock. Tudo centrifugado com grande habilidade pelos Exciters e enquadrado no vocabulário lisérgico de Plato, para o qual, absolutamente, ele não tem concorrentes. Produção de primeira do Thomas Dreher e capa linda & louca do Diego Medina. Lançamento Krakatoa Records, selo do Plato, por meio do qual ele já lançou dezenas de discos que quase ninguém conhece. Mas esse vocês precisam conhecer. Simplesmente ouçam. Tem no YouTube.

Plato Divorak, um artista de exceção em meio à tanto artista acometido por síndrome de genialidade. O nome da música é “Jaqueline dos Teatros”, um dos ápices de seu álbum lançado com os Exciters em 2011. Procure saber, ou melhor, ouvir.

Já de saída, ou de largada, sugiro o “mestre dos mestres” Plato Divorak, cujo seu último álbum com Os Exciters é um dos grandes do rock psicodélico (não só de psicodelismo, mas de “rock” mesmo) brasileiros dos últimos tempos.

“Hour councour”, seria o termo: em termos de letras, arranjos, linguagem/ intertextualidade, espaço sideral, solavancos, idas e vindas, tempos e caleidoscópicas juvenilidades sixties das mais loucas e psiquiátricas s matizes.

O Plato, como se sabe, é uma usina que não para. Uma metralhadora de letras e canções powerpop-lisérgicas – ou melhor, verdadeira “inteligentsia” que metralha seu vasto “vocabulário psicodélico” (o qual ele domina como poucos e inteiramente particular) em cada estrofe de suas canções. Especialmente, distanciado do “cânone” gaúcho Júpiter Maçã/Apple – outro mestre, na real -, o qual, porém, é repetido-versionado-imitado-reverenciado-emulado, enfim, em centenas de bandas-simulacros, ditas “psicodélicas”, Brasil afora. Em todos os cantos do Brasil.

O Plato, pelo contrário – o que lhe deixa mais instigante -, conservou-se cem por cento “underground”, o que faz dele, que possui rica duma discografia (com bandas como Os Shazans, Père Lachaise, entre dezenas de outras bandas suas, nas quais, por sinal, ele já revelava toda sua “[ante]visão” das coisas).

Buenas, “Jaqueline dos Teatros”, uma das faixas do último disco com Os Exciters (que é nervosamente psicodélico de cabo a rabo; de 2012 – eu acho) é excelente pra sacar o Plato, pra quem porventura ainda não o conhece…

Se liguem, em “Jaqueline dos Teatros, além da imaginativa letra, na amálgama que ele e Os Exciters fazem de bossa nova, Love, The Who encontra Tim Maia em colisão com Roberto Carlos nas “estradas de Santos”.

Desculpe-me se, por se soou “imperativo” o que eu disse; é que foi imperativo mesmo.


Plato Divorak, grande fã de Julio Reny, na biografia sobre o músico não poderia deixar de prestar seu depoimento de forma sui generis. Escreveu, de próprio punho, um impagável relato. Naturalmente, Divorak abusou de seu rico vocabulário psicodélico para expressar sua autêntica admiração pelo Julio.

Para o deleite de seus admiradores, eis um trecho do depoimento. A continuação só no livro.


Plato Divorak: Como estudar o cérebro de uma garota? O que será que ela está pensando na hora H?

Toquei três anos atrás em Santo Antônio da Patrulha. Uma arena, um troço muito bonito – e estava cheia. Dei um grito e todo mundo levantou seus skates. Foi fantástico! Me deram cachaça vermelha e azul – do Grêmio e do Inter – e tomei as duas. O pessoal estava irado, a fim de curtir um show pesado. Fizemos um show acústico e eles gostaram porque eu disse bastante palavrão.

E uma garota loura, fofinha, fazia gestos pra mim. Eu convidei ela pra subir e dançar uma música dos Mutantes, acho que era “Sr. F”. Ela chegou pertinho e eu fiquei de pau duro no ato…

Página 136 – Gauleses Irredutíveis: Causos e Atitudes do Rock Gaúcho – Alisson Avila, Cristiano Bastos e Eduardo Müller.


Júpiter & Plato: encontro de planetas. A foto foi tirada na ocasião em que Júpiter gravou sua participação no álbum de Plato Calendário da Imaginação


Autor

  • Cristiano Bastos

    Cristiano Bastos é jornalista com passagens por jornais como Estadão e Jornal de Brasília. Escreveu em revistas como Bizz e Aplauso. Foi repórter especial da Revista Rolling Stone por mais de dez anos. É um dos autores do livro Gauleses Irredutíveis – Causos & Atitudes do Rock Gaúcho. Escreveu Julio Reny – Histórias de Amor e Morte, Júpiter Maçã: A Efervescente Vida e Obra, Nelson Gonçalves – O Rei da Boemia e o livro de reportagens Nova Carne Para Moer. Também dirigiu o documentário Nas Paredes da Pedra Encantada, sobre o álbum Paêbirú, de Lula Côrtes e Zé Ramalho. Recentemente publicou o livro 100 Grandes Álbus do Rock Gaúcho. Atualmente produz reportagens e perfis especiais sobre cultura para o Jornal do Comércio de Porto Alegre.

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