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Histórias

O trio vocal de jazz que Joni Mitchell chamava de “meus Beatles”

5 min de leitura
Joni Mitchell em 1983
Joni Mitchell em 1983 — Foto: Capannelle / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)
Resumo
  • ▪ Joni Mitchell chamou o trio Lambert, Hendricks and Ross de "meus Beatles" em entrevista à Hot Press.
  • ▪ O disco do grupo vocal de jazz foi o que ela mais ouviu e do qual sabia todas as letras de cor.
  • ▪ A lição de liberdade vocal seguiu com ela em "The Hissing of Summer Lawns" e "Hejira".

Nem todo músico que se aventura no rock and roll cresceu ouvindo as mesmas coisas. Mesmo nos anos 1960, os Beatles não eram a dieta básica de todo jovem. A maioria dos grandes nomes do gênero é uma mistura de tudo o que ouviu, e não a cópia de uma única banda.

Joni Mitchell sempre gostou de absorver todas as influências possíveis, mas sabia apontar as que realmente mudaram sua forma de pensar a música. Entre as cantoras e compositoras do rock, ela já era um caso à parte: Bob Dylan ajudou a abrir a porta do estilo com seu jogo de palavras, e cada artista precisava de uma marca própria, fosse o jeito operário de Bruce Springsteen ou o dedilhado suave de James Taylor. Para Mitchell, tudo voltava ao jazz.

O gênero chegou a ser visto por alguns como o oposto do rock, mas estava em toda parte nas paradas. Rock e jazz tinham raízes no blues, e artistas como Miles Davis e John Coltrane foram tão importantes para a música dos anos 1960 quanto Jimi Hendrix e Led Zeppelin.

Para quem sonhava alto no rock, os Beatles eram a definição de sucesso. A ideia de quatro músicos se divertindo juntos era o sonho, e a teoria musical avançada de faixas como “In My Life” e “Michelle” fazia muita gente enxergá-los como o ideal de músico profissional.

Mas Mitchell já conhecia o que se fazia na música antes de os Beatles chegarem aos Estados Unidos. Ouvia de tudo, e, embora a cena folk fosse empolgante, foi o trio Lambert, Hendricks and Ross que estabeleceu o padrão para ela. O jazz vocal podia soar estranho para muitos, mas o que o grupo fazia com as vozes a atingiu em cheio.

Em entrevista, ela resumiu: “[Eles foram] os meus Beatles, e o disco deles foi o que eu gastei de tanto ouvir, aquele em que eu sabia todas as letras.” Ouvindo como as vozes do trio se entrelaçam, a comparação não está tão longe do que os Beatles fariam anos depois.

As harmonias vocais dos Beatles eram ousadas para a época, mas não tão sofisticadas quanto as de Lambert, Hendricks and Ross. Muita gente se surpreendeu com faixas como “Because”, mas o trio conseguia prender o público apenas com vozes, piano e saxofone, um tipo de apuro raro no rock.

Mais tarde, Mitchell passou a fazer discos de sabor jazzístico, sem nunca tentar igualar seus ídolos. O princípio por trás de seus melhores momentos era manter a originalidade, e o que aprendeu com eles lhe deu uma paleta mais ampla de cores. A fusão jazzística de Joni Mitchell é um exemplo desse caminho.

O que tornou o trio tão influente não foi só a técnica, mas a liberdade dentro de uma forma musical. Os arranjos intrincados e a brincadeira entre as vozes mostraram a Mitchell até onde uma voz podia ir sem depender das convenções de composição do folk ou do pop.

Essa lição a acompanhou por fases cada vez mais aventureiras, do folk confessional de seus primeiros discos às explorações jazzísticas de “The Hissing of Summer Lawns” e ao movimento livre de “Hejira”.

Nesse sentido, Lambert, Hendricks and Ross fizeram por Mitchell o que os Beatles fizeram por incontáveis aspirantes a músico: deixaram a porta entreaberta para um mundo novo. Vale a pena procurar um disco deles na loja de discos mais próxima.

Autor

  • Luis Fernando Brod

    Publicitário, redator e pesquisador musical com foco em classic rock, hard rock e bastidores da indústria fonográfica. Especialista com mais de 5 anos em resgatar a história por trás de álbuns lendários e dissecar a trajetória de ícones da música nas décadas de 70, 80 e 90. No Disconecta, assina reportagens especiais, retrospectivas e a cobertura diária do rock internacional. Criador do canal no youtube Minha Vida em Vinil onde cobre música e colecionismo em mídia física.

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