Quem toca os teclados em “Won’t Get Fooled Again”, do The Who
Resumo
- ▪ Pete Townshend toca o sintetizador de "Won’t Get Fooled Again", faixa de 1971 do The Who.
- ▪ John Entwistle cresceu com trompete e trompa, mas era Townshend quem costumava tocar teclados no estúdio.
- ▪ A linha de sintetizador é o elemento mais memorável da canção, mais do que as guitarras do próprio Townshend.
O The Who é uma das bandas de rock mais definidas pelos instrumentos e pelas funções de cada integrante. Roger Daltrey nos vocais, John Entwistle no baixo, Keith Moon na bateria e Pete Townshend na guitarra e nas composições: a formação original era enxuta, só o essencial para um grupo de rock.
A voz de Daltrey é inconfundível. Sem o talento natural de contemporâneos britânicos como Rod Stewart, mais soul, ou Paul McCartney, mais melódico, ele se destacou pelo estilo de trabalhador braçal: esforço acima da técnica, aspereza e entrega total. Isso o diferenciava de outros vocalistas de sua época, como Robert Plant, Ian Gillan e Paul Rodgers.
Atrás dele, baixo e bateria faziam bem mais do que a base rítmica de costume, por causa do jeito pouco convencional de Entwistle e Moon tocarem. Os dois são hoje considerados entre os melhores de seus instrumentos e mudaram a forma de tocá-los no rock. Moon ignorava o hi-hat, geralmente o marcador de tempo do baterista, atacava os pratos sempre que podia e usava pedal duplo de bumbo, o que trazia o instrumento para a frente nas músicas. Entwistle, por sua vez, se interessava mais por melodia, contramelodia e solos do que a maioria dos baixistas.
Tudo isso era impulsionado pela guitarra agressiva de Townshend, cheia de power chords, que juntava base e solo num único estilo.
Surge então a pergunta: quem tocava todos os outros instrumentos que se ouvem nos discos? O violino de “Baba O’Riley”, o órgão Hammond de “Behind Blue Eyes”, o piano e os vocais de apoio de “Who Are You”, o banjo de “I’ve Had Enough”, o violoncelo de “I Am the Sea” e “Cut My Hair”, além dos teclados presentes em tantas faixas.
A banda até aceitava ajuda externa de vez em quando, mas em geral preferia que um dos próprios integrantes sobrepusesse instrumentos no estúdio. Foi o caso da linha de sintetizador, flutuante e etérea, que atravessa o centro de “Won’t Get Fooled Again”.
Pode-se pensar que o único integrante com formação musical formal seria o escolhido para essas tarefas. Mas Entwistle cresceu tocando trompete e trompa, e na hora de mexer com teclado, sintetizador ou órgão no estúdio, quem costumava apertar as teclas era Townshend, inclusive nessa música.
A guitarra dele também aparece bastante na faixa, no violão rítmico, nos acordes elétricos e nos solos e frases de sabor americano. Ainda assim, o elemento mais memorável é o sintetizador em redemoinho que sustenta a canção inteira.
Quando se pensa em Townshend, vêm à mente a guitarra vermelha, os braços em moinho e o gosto pela destruição. Diferentemente de quase todos os guitarristas de sua geração, ele não tem um riff, frase ou solo que o identifique de imediato. Mas, colocado diante de um teclado, criou algo tão reconhecível e definitivo quanto a linha de “Won’t Get Fooled Again”.
Em outra ocasião, Pete Townshend elegeu “Green Onions” como a melhor música de todos os tempos, outro exemplo do peso dos teclados em sua relação com a música.


