“Reign in Blood”: a força do Slayer que completa 40 anos
Reign in Blood é sinônimo de velocidade, violência e precisão, sendo assim um dos poucos discos na história do metal que consegue lhe dar a sensação de um soco na orelha. Se até hoje é assim, imagina na época. Lançado em 1986, o terceiro álbum da banda americana parece ter sido construído com uma única preocupação: não desperdiçar um segundo.
São dez faixas distribuídas em pouco mais de 28 minutos. Não existe introdução longa, espaço para respirar ou tentativa de suavizar o impacto. O Slayer entra em cena já no limite e permanece ali até o último segundo. O resultado é um álbum que não precisa de duração para parecer grandioso. Sua força está justamente na economia.
Na época, Jeff Hanneman, Kerry King, Tom Araya e Dave Lombardo já haviam desenvolvido uma linguagem própria dentro do thrash metal. Hell Awaits, lançado no ano anterior, apresentava composições mais longas e estruturas mais complexas. Em Reign in Blood, a banda decidiu cortar o excesso. Os riffs ficaram mais diretos, as músicas mais curtas e a velocidade passou a ocupar praticamente todos os espaços possíveis.
A mudança também passa pela chegada de Rick Rubin. Conhecido por trabalhar com artistas de diferentes gêneros e, naquele momento, profundamente ligado ao hip hop, o produtor ajudou o Slayer a encontrar uma sonoridade mais clara e agressiva. O peso não dependia mais de uma parede sonora indistinta. Cada instrumento tinha espaço para atacar. A formação funcionava como uma máquina!
Tom Araya não precisava transformar sua voz em um instrumento extremo para acompanhar o caos. Seu vocal mantém uma característica humana, quase desesperada, enquanto a guitarra de Hanneman e King cria uma sucessão de riffs que parecem correr uns contra os outros. No centro de tudo está Dave Lombardo.
A bateria de Lombardo é fundamental para entender por que Reign in Blood continua soando tão violento. Não se trata apenas de tocar rápido. Há precisão, dinâmica e uma capacidade impressionante de fazer com que cada mudança de ritmo pareça inevitável. O baterista transforma a velocidade em movimento, impedindo que o álbum se torne apenas uma sequência de músicas aceleradas.
E então surge Angel of Death, uma das entradas mais reconhecíveis do metal. Depois de alguns segundos de preparação, a guitarra dispara e o álbum praticamente explode. A música aborda os experimentos realizados pelo médico nazista Josef Mengele em Auschwitz e se tornou uma das composições mais controversas do Slayer. A narrativa extremamente gráfica provocou acusações de simpatia nazista contra a banda, algo que seus integrantes sempre negaram.
Musicalmente, porém, Angel of Death estabelece tudo o que virá depois. As guitarras são agressivas, a bateria parece estar sempre prestes a ultrapassar o limite e Araya canta como se estivesse narrando algo que não deveria existir.
Não há tempo para absorver completamente a faixa antes de Piece by Piece entrar em cena. A partir daí, Reign in Blood começa a revelar uma de suas principais características: as músicas são curtas, mas nenhuma parece incompleta. Necrophobic, Altar of Sacrifice e Jesus Saves avançam em velocidades diferentes, criando pequenas alterações dentro de uma estrutura essencialmente brutal. A sensação é de movimento contínuo.
Criminally Insane diminui um pouco a velocidade, mas não a tensão. Reborn retoma o ataque, enquanto Epidemic trabalha novamente com mudanças rápidas e riffs que parecem não encontrar um ponto de repouso. Em vez de construir grandes clímax, o Slayer transforma cada faixa em um novo golpe.
Postmortem aparece quase como uma preparação para o encerramento. A música tem mais tempo para desenvolver seus riffs e cria uma tensão diferente das faixas anteriores. Aos poucos, a sensação de que algo está chegando aumenta. E então vem Raining Blood.
O som da chuva abre a última faixa como se, pela primeira vez, o disco permitisse alguns segundos de silêncio. É uma breve pausa antes da guitarra retornar. Quando ela entra, a música parece carregar tudo o que foi acumulado durante os minutos anteriores. O riff de Raining Blood é simples o suficiente para ser imediatamente reconhecido, mas pesado o bastante para sustentar uma das conclusões mais marcantes do thrash metal. A faixa cresce, desacelera e volta a atacar, enquanto a chuva retorna ao final.
O disco termina praticamente como começou: sem oferecer conforto.
Morte, volência, religião, guerra e horror aparecem constantemente nas letras, ocupando um espaço importante em sua construção. Não é uma narrativa única, não é algo que se segue. Esse disco é uma sucessão de pesadelos!
Não há redenção em Reign in Blood, o sangue não é metáfora e sim um elemento permanente.
Contudo, reduzir o álbum à sua violência é ignorar o que o torna tão importante: a precisão cirúrgia por trás do caos. Tudo devido a músicos que sabem os momentos corretos de quando acelerar, interromper, a bateria conduzir e a permissão da guitarra para se prolongar.
O Slayer poderia ter feito um disco rápido, mas a diferença é de que o disco transforma a sua velocidade em linguagem.
O álbum também ajudou a estabelecer uma ponte entre o thrash metal e formas ainda mais extremas que ganhariam força nos anos seguintes. Sua influência sobre o death metal é difícil de ignorar. A agressividade das guitarras, a bateria veloz, os vocais ásperos e a atmosfera sombria seriam absorvidos por uma geração de músicos interessados em levar o metal ainda mais longe.
Mas Reign in Blood permanece singular porque não parece uma experiência excessivamente longa ou cansativa. Ao contrário. Quando termina, a primeira reação pode ser simplesmente colocar o disco novamente.
São menos de 30 minutos, mas quase nenhum deles passa em vão.
A capa, o título, as letras, a produção e a música trabalham na mesma direção. Tudo aponta para uma obra que pretende ser desconfortável. E, mesmo quatro décadas depois, o álbum ainda consegue produzir essa sensação.
O Slayer não precisou inventar a velocidade. Também não inventou a agressividade. O que fez em Reign in Blood foi organizar esses elementos com uma precisão que transformou dez músicas em uma declaração definitiva.
É um disco curto, mas não pequeno. Começa com um grito, atravessa uma sequência de riffs que parecem incapazes de parar e termina sob uma tempestade. Entre uma coisa e outra, o Slayer encontra uma forma quase perfeita de transformar o caos em música.
Reign in Blood não pede licença. Ele entra, arromba a porta, te enfia um punho nas orelhas, que você não sabe de onde veio e… começa.


