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“Loveless” do My Bloody Valentine: o “Nevermind” do shoegaze

Existem discos que conseguem ser a materialização de uma cena ou movimento musical. Os exemplos são muitos, Nevermind do Nirvana representou o grunge, ‎Never Mind the Bollocks do Sex Pistols, o punk e Unknown Pleasure do Joy Division levantou a bandeira do post-punk.

O mesmo vale para o Loveless da banda My Bloody Valentine, um disco tão marcante e que concentra tantos elementos que representa o shoegaze que é difícil não tê-lo como representação máxima do estilo.

Sobre Shoegaze

Abafado pela avalanche mundial que foi o movimento grunge, o shoegaze era conhecido por uma cena que vangloriava a si própria, as bandas do estilo compareciam aos shows umas das outras. Além disso, o nome veio do fato dos guitarristas das bandas estarem sempre de cabeça baixa, olhando para os seus sapatos(shoe), bem na realidade, a verdade era que eles miravam compenetrados seus pedais de efeitos.

Musicalmente falando, o estilo continha vocais melodiosos e submersos nos instrumentais. As guitarras e teclados continham inúmeras camadas de feedback e distorções, ruídos e flangers, dando uma sensação etérea a música como um todo.

As bases do estilo estão nos discos Treasure do Cocteau Twins de 1984 devido a suas belíssimas melodias e o noise de Psychocandy, primeiro álbum do The Jesus And Mary Chain.

É claro, que essa foi uma explicação simplificada pois muitas outras bandas, principalmente as de post-punk colaboraram na formação deste estilo único.

O gênero nasceu na Irlanda e Reino Unido e possui muitas outras bandas que se destacaram no movimento como Slowdive, Ride, Lush, Chapterhouse, apenas para citar algumas.

Os perrengues de Loveless

Agora que o contexto foi dado, chegou a hora de falar um pouco de My Bloody Valentine que nasceu na irlanda em 1983, formada pelo guitarrista e vocalista Kevin Shields e o baterista Colm Ó Cíosóig, após várias mudanças de formação a banda chegou as inglesas Debbie Googe que assumiu o baixo e a vocalista e guitarrista Bilinda Butcher, responsável pelo reconhecimento da banda.

Loveless é o segundo álbum do grupo, uma obra que começou a ser gravada em fevereiro de 89 e foi finalizado apenas em setembro de 91. Entre esse período, houve muitos perrengues como troca de estúdios, turnês, problemas de saúde, mas o que pesou mesmo foram as excentricidades do líder da banda Kevin Shields. Segundo ele prometera a gravadora Creation, o álbum era pra ser gravado em cinco dias, porém, a data deu uma leve alongada, as gravações começaram no Blackwing Studios na Inglaterra

Vendo que o prazo estava longe de ser real, a gravadora deu um gelo na banda que ficaram por alguns meses improdutivos, até que em setembro eles voltaram a entrar em outro estúdio, desta vez no The Elephant and Wapping, onde novamente não saem com nada de lá.

Entre as tretas estão a troca do engenheiro de som interno Nick Robbins que foi substituído por Harold Burgon. Em algumas entrevistas fica clara  a prepotência de Shields, guitarrista da banda, que relatou que Robbins estava ali só pra apertar alguns botões e que Burgon apenas mostrou ao grupo como utilizar o computador.

Para satisfazer os anseios e principalmente o investimento feito pela gravadora até aqui, o proprietário da Creation, Alan McGee e o guitarristas Kevin entraram em um acordo e decidiram lançar o EP Glider, antes do disco completo.

My Bloody Valentine: Kevin Shields, Bilinda Butcher, Debbie Googe e Colm Ó Cíosóig – Crédito: Steve Double

Foi nesse momento que o guitarrista conheceu Alan Moulder, responsável pela mixagem do EP e a partir desse momento se tornaria o engenheiro preferido de Kevin para continuar o álbum.

Nisso, a banda passou por diversos estúdios chegando inclusive a façanha de usar alguns deles por um dia apenas e decidir que não era adequado.

Em 1990, Moulder deixa as gravações para se dedicar a trabalhos com as bandas Shakespeare Sisters e a já citada Ride.

Anjali Dutt assume o papel de engenheiro de som e ajuda nas gravações dos vocais e algumas faixas de guitarras. No mesmo ano a banda começa as gravações do segundo EP Tremolo  e fixa-se no Protocol como principal estúdio.

No verão do hemisfério norte de 90 a banda dá mais uma pausa nas gravações para se dedicar a turnê do EP Glider. Terminado essa tour, voltam ao estúdio e em agosto Moulder retoma seu trabalho com eles, o engenheiro fica impressionado o quanto o grupo haviam avançado pouco na gravação.

A Creation Records começa mostrar sua preocupação com os custos do disco e mais uma vez Moulder deixa as gravações em 91 para trabalhar com The Jesus and Mary Chain.

O disco foi basicamente gravado por Shields que tomou conta de tudo, exceto da bateria, tocada por Colm, mas guitarras, teclados e baixos todos tocados por ele, apesar de serem devidamente creditados ao outros companheiros de banda no encarte do disco.

A guitarrista Bilinda Butcher apenas cantou, deixando todas as seis cordas nas mãos de Kevin, visto que seria um tortura traduzir tudo o que músico gostaria para o álbum, além dessa loucura de mudança de estúdios, experimentações sonoras e as camadas de guitarras.

Soma-se a isso, a técnica utilizada por Shields na qual ele tocava sua guitarra, chamada e glide guitar ou guitarra deslizante, criada por ele onde o guitarrista tocava segurando a ponte do trêmulo, dobrando as cordas, dando uma sensação de entrada e saída do tom da música.

Após os vocais serem gravados como marcação das canções, Butcher pegava as fitas cantaroladas por Kevin e escrevia as letras na mesma hora e regrava as linhas vocais regravava.

Não satisfeito com o resultado, Shields ainda levou a banda para outro, mais uma excentricidade sua.

Nesse processo todo, a Creation Records estava quase falida e a dupla Shields e Butcher tiverem tinido, aquela doença do zumbido devido ao excesso de barulho, atrasando ainda mais as finalizações.

Por fim as gravações acabaram e a mixagem final do álbum foi concluída pelos engenheiros Dick Meaney e Darren Allison no The Church Studios, literalmente um estúdio que foi uma igreja, assim fechando 19 estúdios, 2 anos e 7 meses de gravações de Loveless, e segundo estimativa com custo de produção que chegou a 250 mil libras.

O resultado final de Loveless

A verdade é que Loveless não é um disco fácil para os ouvintes mais tradicionais, ele com certeza causa muita estranheza a ponto de logo na primeira audição da primeira faixa, já ser deixado de lado.

Mas aqueles que se aventuraram no universo do rock alternativo se deliciam logo de cara com Only Shallow, faixa que abre o disco com uma sonoridade nas guitarras que lembra um alarme, mas é só entrar as melodias de Shields nas cordas e os vocais graciosos de Butcher conquistam por inteiro o ouvinte. 

E assim a música vai intercalando esses dois momentos, até o final que cola direto na segunda faixa, Loomer, uma noise ainda mais esquisita, as camadas de guitarras e baixos dão uma sensação de confusão sonora e abafamento, aqui percebe-se o trabalho artesanal desenvolvido por Shields e porque de tanta demora na entrega final do disco.

Loomer parece uma colagem sonora e novamente Butcher com sua voz melancólica e delicada contrapõe essa muralha de camadas sonoras barulhentas.

Touched, a faixa instrumental inicia como uma orquestra esquisita de guitarras, baixo e teclados e tambores que dão essa sensação de uma filarmônica apocalíptica.

Se você até aqui nada lhe causou estranheza é porque você ainda não encarou a música To Heres Know When, ainda mais confusa em suas melodias e colagens sonoras, mostrando que a técnica glide guitar de Kevin Shields transporta o ouvinte para uma sonoridade onírica.

When You Sleep é junto com Only Shallow uma das músicas mais conhecidas do álbum, um hit frente as esquisitices sonoras propostas por My Bloody Valentine em Loveless. Belas melodias, aquela introdução que só eles sabem fazer com camadas de guitarras, aqui Butcher e Shields cantam sobrepondo as vozes um do outro. Como em todos álbum, algo que esqueci de relatar nas faixas anteriores são os vocais soterrados aos instrumentos.

A sequência de transição entre as músicas é no mesmo formato de Only Shadow com Loomer, When You Sleep apresenta um teclado final e a entrada I Only Sad com guitarras abusando das camadas e do glide guitar de Shields, vocais etéreos de Butcher nos transportam para uma confusão mental sonora.

Apesar de manter uma sonoridade muito homogênea, Come in Alone começa mais densa e vai nos deliciando para melodias e linhas vocais suaves, junte-se a isso as guitarras sobrepostas características do álbum, e um solo melodioso, nada virtuose mas que encaixa-se perfeitamente a essa sonoridade única apresentada pela banda no álbum.

Sometimes é aquela que nos cativa logo no início, com linhas vocais de Shields e timbres graves de guitarras fazendo a cama para guitarras limpas ao fundo e teclados que vão aparecendo e formando uma linda melodia. 

Em Blowfish as esquisitices sonoras e belas melodias continuam, mas uma faixa que não espanta mais se você ouviu o disco até aqui. Pelo contrário, se é um ouvinte de primeira viagem ela te cativa justamente pela estranheza que agora se torna comum.

What You Want podemos dizer que é a mais punk do disco, se pegarmos apenas as introdução como referência que ao contrário das outras, ela possui os instrumentos menos processados, aqui a bateria se torna mais inteligível por exemplo.

E chegamos a última do disco, Soon que apesar do início com efeitos e bateria marcante, logo entra um groove de baixo, sendo a música mais “normal” do disco, cativante, ela lembra o um pouco cena de madchester, algo como se o Happy Mondays fosse mais noise, experimental e melancólico. As guitarras a seguir com multicamadas e glide guitar já tradicional do disco, dando aquela sensação de onda sonora.

O ponto alto do disco são as melodias dos vocais juntamente com esses efeitos noises e cheios de camadas que se espalham por Loveless.

Um álbum muito importante não só para o shoegaze mas para todo o rock alternativo.

Foto destaque, crédito:  Steve Double/Retna

Autor

Uma resposta para ““Loveless” do My Bloody Valentine: o “Nevermind” do shoegaze”

  1. […] pelo seu álbum de estreia Nowhere de 1990 juntamente com a leva de bandas shoegaze como My Bloody Valentine, Slowdive, Saint Pale, Lush e […]

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