30 anos de Dust, o inesperado e belo último disco do Screaming Trees.
Quem leu o primeiro livro de Mark Lanegan, vocalista do Screaming Trees, Sing Backwards and Weep (2020), sabe o quão disfuncional era a banda formada em Ellensburg, cidade próxima a Seattle, entre ele e os irmãos Van Conner (baixo) e Gary Lee Conner (guitarra). Os Conner viviam às turras, e Lanegan observava aquilo com desprezo, dificultando a comunicação entre eles. Além disso, a postura de palco no mínimo frenética dos irmãos contrastava muito com a de Lanegan, sempre estático e taciturno, chamando atenção por conta de sua cavernosa voz.
O grupo surgiu em 1985 e foi logo encaixado junto ao movimento grunge, muito pela proximidade geográfica, mesmo com uma sonoridade mais voltada ao rock clássico (assim como o Pearl Jam), diferente das influências de punk e metal dos colegas de cena.
Após alguns trabalhos lançados pela gravadora independente SST Records, em 1991 foi lançado Uncle Anesthesia, que contou com a participação de Chris Cornell, vocalista do Soundgarden, como produtor do álbum. Antes do início da turnê de divulgação do disco, o baterista Mark Pickerel deixou a banda e, para o seu lugar, foi chamado Barrett Martin, que seguiria com o grupo até o final.
Mesmo com os problemas internos se agravando cada vez mais, a expectativa da gravadora era alta para o disco seguinte, lançado em 1992 e chamado Sweet Oblivion, que é hoje considerado a obra-prima do grupo, e seu disco de maior vendagem, muito por conta da inclusão do single Nearly Lost You na trilha sonora do filme Singles (Vida de Solteiro, em português).
Na época, com a música pop já sob o efeito da febre Nevermind, a banda embarcou em uma longa turnê de divulgação que só agravou as questões entre os integrantes. Com as brigas cada vez mais recorrentes, ao final da turnê, a banda se separou temporariamente. Nesse período, Lanegan grava seu segundo álbum solo, Whiskey for the Holy Ghost, história contada no livro Uma Dose Para o Santo: Deus e o Diabo nas Gravações de Whiskey for the Holy Ghost, de Leonardo Tissot e com ilustrações de Diego Gerlach, recentemente lançado pela Editora Barbante.
Por isso, o surgimento de Dust, em 1996, foi uma surpresa. Pouca gente ainda esperava algo dos Screaming Trees naquele momento. Sem promover uma guinada em sua sonoridade o álbum, produzido por George Drakoulias, preserva a identidade construída pelo grupo, mas acrescenta novos elementos. Há mais teclados, influências de folk e até de música oriental (na cítara da abertura de Halo of Ashes) e um cuidado maior com os arranjos, resultando num trabalho mais introspectivo. Um destaque é Dying Days, faixa que conta com um solo de Mike McCready, do Pearl Jam, e na época parceiro de Lanegan e Martin no projeto paralelo Mad Season.
A banda chegou a sair em uma turnê, que contou inclusive com a participação de Josh Homme, então prodígio ex-guitarrista do precursor do Stoner Rock Kyuss, pouco antes de lançar seu projeto mais famoso, o Queens of the Stone Age (que inclusive teria participação ativa de Mark Lanegan em seus primeiros discos). Porém, os problemas com drogas de seu vocalista, amplamente relatadas em seu primeiro livro já citado, fizeram com que o giro ficasse prejudicado.

Com os problemas de sempre, agravados pelo tempo decorrido entre os álbuns, o sucesso comercial continuou sem aparecer. Não à toa, no single All I Know, Mark brada “Gotta Get away, before i lose my mind” (Tenho que ir embora, antes que enlouqueça). A banda permaneceu em estado de hibernação até anunciar oficialmente o fim em 2000. Mas, na prática, Dust já havia funcionado como sua despedida artística, e é incrível pensar como uma banda tão desacreditada acabou lançando um disco tão impressionante.




