Frozen Charlotte: Jack White entrega rock em estado bruto
Frozen Charlotte é um daqueles álbuns que colocarão uma resposta definitiva em perguntas há tempos sendo feitas: Jack White tem inquietação crônica dentro da cabeça? A resposta é “sim”.
Sem reinvenções, Jack White entrega um álbum divertido do início ao fim em menos de 45 minutos.
Genialmente, o título do álbum vem das bonecas vitorianas, figuras de porcelanas baratas moldadas em uma única peça, pequenas, rígidas e incapazes de se mover. A imagem dada atravessa o disco como uma metáfora para uma sociedade cada vez mais imóvel, presa em narrativas prontas, algoritmos, ideologias, dinheiro e vaidades digitais. Apesar da ideia não ser entregue diretamente, Jack entrega nas linhas finas. Como sempre, escondendo tanto a si quanto suas intenções em personagens, piadas interas e referências históricas e histórias desconexas.
A abordagem aqui exige mais do ouvinte.
Uma continuação natural de No Name, o álbum misterioso que muitos tentaram saber de quem era antes de seu lançamento por não ter o título ou o nome do artista, ele é o oposto. Enquanto o antecessor parecia uma limpeza dos excessos, totalmente básico, aqui há uma expansão.
O garage rock continua rugindo, com ecos de Led Zeppelin, Black Sabbath, Hendrix e até a colisão com southern rock e Beastie Boys.
Um exercício de demonstração de como absorver sessenta anos de história do rock sem soar um cover de si mesmo.
Logo na abertura, G.O.D. And The Broken Ribs apresenta o manifesto do álbum. White reimagina o mito da criação, mistura Jardim do Éden, filosofia de botequim e humor nonsense enquanto sua guitarra assume o papel principal da narrativa. Em diversos momentos, ela parece menos um instrumento e mais um personagem. Não acompanha as músicas, conversa com elas, interrompe, provoca e responde.
Essa talvez seja a grande característica de Frozen Charlotte.
As letras estão longe de serem irrelevantes, mas raramente ocupam o centro das atenções. A guitarra é mais dona do álbum que o próprio Jack White. Em Derecho Demonico ela grita, There’s Nobody There parece disparar fogos de artifício. Dollar Bill faz da crítica ao capitalismo um combate mano a mano.
O ponto alto fica em Thick As Thieves. Imagine que Tom Morello foi sequestrado por uma banda de blues psicodélico. É exatamente isso.
Making Contact é o exemplo do sarcamos de White observando um mundo preocupado com engajamento virtual ao invés de compreender a realidade. É uma crítica ao ambiente digital feita por alguém que participa dele diariamente, mas claramente não suporta o que ele se tornou. Muitos irão se conectar com a faixa.
A paranoia contemporânea atravessa o disco: All Alone Again liga ganância à ruína, Neighbors Blues ironiza o “não no meu quintal” e Nobody Knows zomba da nossa fome por respostas.
No fundo, Frozen Charlotte é uma desconfiança lançada contra o século XXI. Mas não é só protesto.
Há humor, arrogância e autodepreciação em boa medida. White soa como um professor genial e meio bêbado, debatendo religião, dinheiro, amores quebrados e teoria da conspiração às três da manhã.
A guitarra domina tanto que algumas faixas priorizam textura em vez de melodia, e o disco aposta mais no desafio do que no conforto. E talvez seja justamente por isso que funcione.
Frozen Charlotte não é o álbum mais acessível de Jack White, apesar de também não ser o mais imediato. Ele recompensa na insistência. Quanto mais tempo ouvindo, mais conexão você terá. Dinheiro, religião, identidade, internet, solidão, tudo se encaixa como peças de uma engrenagem enferrujada.
No fim, Frozen Charlotte não é uma tentativa de Jack White de salvar o rock. Essa ideia de que o rock morreu, precisa ser salvo ou está ligado à aparelho é mais uma invenção cretina da crítica do que do contexto em si.
Mas, caso precise de uma injeção de adrenalina para fazer o coração bater, Jack White sabe aonde arranjar com Frozen Charlotte.


