MTV Unplugged – 30 Anos do Clássico ao vivo do Alice In Chains
Em 1996, a expectativa por parte da indústria musical, somada pelos fãs e público do Alice in Chains como um todo, era mista. Ou a banda conseguiria manter as rédeas e dar a volta por cima com a vida pessoal e carreira, ou mais cancelamentos de shows e um novo possível hiato iriam ocorrer mais cedo ou mais tarde. As gravações do álbum autointitulado (ou, como carinhosamente apelidado, Tripod) foram um misto de batismo de fogo com opão que o diabo amassou, considerando o quão cara havia sido aquela produção. Caso tenha lido minha resenha comemorativa de 30 anos desse álbum no ano passado, sabe do que falo quando menciono que a banda estava por um fio de acabar novamente em um curto período de tempo em que um fim abrupto ocorreu durante os ensaios para a turnê Shits Hits The Sheds Tour em suporte ao Metallica.
Teria sido um ponto extremamente alto na carreira de uma banda que estava em seu auge, e que simplesmente não ocorreu. Da mesma forma que, infelizmente, não conseguiram manter uma turnê em suporte para seu novo lançamento durante o ano letivo seguinte. A descrença dos grandes produtores e empresários no showbizz era enorme, mas a empresária Susan Silver tentou de todas as formas proteger a carreira dos rapazes e mantê-los de pé com pulso firme, conseguindo pelo menos duas apresentações históricas agendadas e realizadas durante aquele ano de 1996, o último show com Layne Staley abrindo para o KISS na Kemper Arena em Missouri, Cidade do Kansas, no dia 3 de julho, e o lendário show para o Unplugged MTV no Majestic Theatre em Brooklyn, Nova York. Entretanto, as expectativas para esse show não eram das melhores….
“Eles estavam esperando que a performance fosse problemática. Estavam todos planejando que fosse uma grande catástrofe. Por causa do Layne, do estado em que a banda se encontrava, Jerry não parava de vomitar; eu e Layne estávamos lidando com um período de abstinência. “Foi uma situação de merda.” – Randy Biro, técnico de som da banda.

Alex Colleti era um produtor na MTV que foi cotado para estar envolvido com o show dos Alice’, já tendo no currículo a série Unplugged desde 1989. De acordo com Colleti, um fator que facilitou as coisas durante as negociações foi o fato de não estarem em turnê e poderem se dedicar totalmente a um evento acústico, uma vez que se adaptar a esse modelo depois de uma série de meses e dias “plugado” talvez não fosse algo fácil. Mais uma vez, Tobi Wright foi chamado para trabalhar com a produção de áudio. No Brooklyn, o Majestic Theatre era o lugar ideal, “decrépito”, como diria Colleti. De acordo com o produtor, os ajudantes de palco afirmaram que eles fizeram buracos de bala nas paredes para criarem rachaduras, e a pintura era descascada de forma proposital para somar na autenticidade sombria do local. Em uma curiosa comparação, aqui em São Paulo, muitos dos leitores, pelo menos os que frequentaram a casa, devem se lembrar do design do Fabrique Club. Desde lustres antigos até mesmo uma parede tijolada que dá essência à aura industrial e fúnebre ao local. Não à toa, já foram sediados shows como os do Draconian, em sua primeira passagem pelo país, e, mais tarde, esse ano, com o My Dying Bride, pela primeira vez em São Paulo. Todas essas bandas, cuja intensidade lírica e estética cinza, batem frente a frente com os americanos vindos de Seattle.
Uma das exigências de palco foram lâmpadas de lava vermelhas, embora elas não estivessem se mexendo tanto ou a intensidade da luz projetando o ideal esperado. Isso considerando que foi um pedido de última hora, além de que é um tipo de material que precisa ser esquentado com antecedência. “Eu as recebi bem tarde. Estavam bem lentas e não ao seu total potencial. Então, estavam um tanto desgastadas e mal se moviam. Até que combinou bem, porém não foi proposital”. Se você, leitor, reassistir ao show e reparar na iluminação, ela realmente é bem fraca. Repare que, conforme a câmera põe a banda em visão oblíqua, as lâmpadas, se estivessem iluminando de forma plena, influenciariam nas paletas de iluminação. O diretor responsável escolheu um conjunto ideal que misturasse cores frias e quentes para combinar, inclusive, com o cabelo que Staley tingiu de rosa, além de cada música que a banda iria tocar. Isso talvez mudasse um pouco o tom do clima fúnebre e melancólico em palco? Fica a sua interpretação, é claro, mas quero lhes apresentar uma comparação justa.

No filme “Paris, Texas” (1984), a paleta de cores que representa o amor obsessivo de Travis e Jane é vermelho ou rosa. São cores que representam o desejo, fogo e vida pulsante, da mesma forma que representam intensidade e conflito. Quando Travis, em sua última tentativa de contato, volta ao motel para as cabines telefônicas para se acertar de vez com Jane, as cores variam de cada lado em que separam os personagens. A paleta amarela e a camiseta preta usadas por Jane refletem vitalidade, racionalidade e segurança, enquanto a azul em Travis refere-se à clareza de seus pensamentos no monólogo, além da tristeza e distância que esse representa em sua vergonha. Vide que o verde, ao longo do filme, remete a momentos de desorientação e dúvida dele.
Tendo isso como um referencial, voltemos ao palco circular do Majestic Theatre no dia 10 de abril, em que a apresentação estava sendo gravada. A cor azul que permeia a iluminação do local e os membros remete à natureza triste das músicas, assim como também ao distanciamento dos palcos e à rachadura que ia se formando entre Staley e o restante da banda. Já a tonalidade roxa, por sua vez, representava mistério, assim também como solidão e nostalgia. Nostalgia, que talvez possamos associar ao período em que a banda estava 100% na ativa, fazendo incontáveis shows durante a promoção de seus dois primeiros álbuns de estúdio. Mistério, pelos ares que a apresentação poderia tomar ou até mesmo a carreira dos membros dali em diante. Solidão, da qual Staley tomaria de tudo com o passar dos anos até seus últimos dias. Em momentos em que a iluminação vermelha atinge com intensidade, como na performance de “Angry Chair”, por exemplo, em que a letra, de forma autoexplicativa, remete à raiva, temos, em contrapartida, a questão das lâmpadas de lava, que simplesmente não atingiam seu potencial ideal. Havia chama, porém, ela ficava cada vez mais fraca, assim como a dos próprios membros ao verem o que construíram por anos ficar inerte.

Os mais observadores podem notar, também, a presença de um balde ao lado de Jerry Cantrell. Horas antes, o guitarrista havia saboreado um digno cachorro-quente de barraquinha das ruas novaiorquinas e acabou sendo agraciado com um presente de grego em forma de intoxicação alimentar, resultando em constantes vômitos e mal-estar. Milagrosamente, conseguiu se manter firme e ativo durante o show, melhorando rapidamente. Para o lado de Staley, já fragilizado em palco, o nervosismo não dava trégua. De acordo com Wright, vários takes para a apresentação de Sludge Factory precisaram ser tomados. Um deles é registrado em vídeo, em que, ao começar a cantar, Layne para a execução de forma abrupta com um “FUCK”. Para o produtor, o motivo, muito provavelmente, seria relacionado à presença de Don Ienner e Michele Anthony como parte da audiência, cuja mensagem da letra é direcionada aos dois grandes executivos da Columbia naquela época. Mais sobre a tensão e a relação dos dois com a banda é contada de forma detalhada na resenha de 30 anos do Tripod, mencionada no primeiro parágrafo.
Mesmo com o clima soturno do palco, de acordo com a plateia, o que tiveram ali foi um típico show do Alice in Chains, porém, muito mais íntimo. Diversos insultos por parte dos membros durante as pausas eram trocados com Biro, deixando a audiência em dúvida se era algo realmente sério, até notarem a camaradagem e intimidade que tinham com o profissional que estava responsável pelo show deles naquele dia. Era um clima gostoso, cheio de piadas e interação com a plateia, aliviando ainda mais o ambiente e a paz mental dos membros da banda. Membros do Metallica eram também parte do público e não escaparam das garras dos músicos em palco quando se tratava de indiretas e do humor distorcido deles. Carinhosamente, Mike Inez escreveu no baixo uma mensagem de amor aos representantes da cena thrash de Bay Area, contendo a seguinte frase: “Friends don’t let friends get friends haircuts”. Na época, os cortes de cabelo que eram apresentados nas fotos promocionais do álbum Load, lançado naquele ano, chocaram toda a comunidade metal e alternativa. Um trecho do riff chiclete inicial de “Enter Sandman” foi tocado como forma de carinho aos amigos que estavam os assistindo.
De acordo com Biro, quando a banda abriu com “Nutshell“, não apenas o técnico de som foi às lágrimas, como também Susan Silver e Michelle Anthony estavam em prantos ao vê-los ao vivo. Havia sido um grande momento para uma das maiores bandas que representaram o movimento Grunge daquela década. Uma composição nova de Cantrell, “The Killer Is Me”, dava as caras, porém, infelizmente, sem uma versão de estúdio além da tocada ao vivo naquela noite. E também, o Heart havia emprestado o engenheiro de som e guitarrista Scotty Olson, que tocou com a banda de 1995 a 1998 e de 2002 a 2003, para acompanhá-los, assumindo violão e igualmente baixo com Inez. Entretanto, ao olhar a gravação final, Staley não gostou nada de como sua performance era vista na edição apresentada. Wright fez as edições minuciosas, especialmente as que agradassem o vocalista, tendo como resultado o produto entregue ao vivo ao público quando foi ao ar em 28 de maio, e posteriormente, lançado em VHS e CD no dia de hoje, 30 anos atrás. Uma versão em DVD foi lançada mais tarde, após a popularização do formato no final daquela década.
Logo após, a banda iria sofrer mais golpes duros no ambiente interno, a relação entre os membros ficaria cada vez menos amistosa, apesar do amor que a amizade entre eles ainda representava, e Layne sofreria um fim agridoce de sua relação conturbada com Demri Parrot após sua morte por endocardite bacteriana, além de consequentes episódios de overdose que se tornavam cada vez mais frequentes em sua curta vida. Essa edição do MTV Unplugged mostra o melhor de uma banda, cuja autenticidade só poderia ser melhor expressada na fragilidade, intimidade e camaradagem que foram muito presentes presencialmente e imortalizadas em vídeo e áudio. Pearl Jam faria isso de forma mais enérgica, enquanto o Nirvana realizaria uma edição tão melancólica quanto, porém, um tanto mais fúnebre. Durante o final da apresentação, o frontman, com muito bom humor, diz à plateia que gostaria de abraçá-los, porém não poderia naquele momento. Há muito tempo, desde aquele dia, Layne deixa muitos fãs esperando por esse abraço….


