30 anos de MTV Unplugged: quando o Alice in Chains mostrou que seu maior peso estava nas vozes
Há discos que envelhecem bem, e outros acabam se tornando maiores do que eram quando foram lançados. O MTV Unplugged, do Alice in Chains, pertence à segunda categoria. Gravado em 10 de abril de 1996 e lançado poucos meses depois, o álbum nasceu cercado de incertezas: a banda não se apresentava havia cerca de dois anos e meio, Layne Staley travava uma batalha cada vez mais visível contra a dependência química e o próprio grupo relutou em aceitar o convite da MTV, acreditando que o formato acústico já estava desgastado após tantos especiais de sucesso.
O tempo, porém, tratou de colocar aquele show em outro patamar.
Curiosamente, o Alice in Chains talvez fosse a banda do chamado grunge que menos precisava provar que funcionava sem guitarras pesadas. Sap (1992) e, principalmente, Jar of Flies (1994) já haviam mostrado que a essência do grupo não dependia da distorção. Ainda assim, o Unplugged reforçou uma das principais características do grupo: a combinação das vozes de Layne Staley e Jerry Cantrell.
Aqui, Layne e Jerry ocupam o centro do palco. Layne continua sendo a voz dilacerante, carregada de dor e vulnerabilidade. Jerry surge como um contraponto melódico, criando uma química rara na história do rock. Em músicas como “Down in a Hole”, “Brother” e “No Excuses”, as duas vozes parecem mais conversar do que simplesmente dividir os vocais. O resultado é de uma beleza quase desconcertante.

Para além disso, ouvindo-o hoje o disco emociona justamente por sabermos o que aconteceu a Layne depois. Aquelas canções, despidas de peso e efeitos, revelam toda a força de suas melodias e o tamanho de seu desespero.
Os bastidores ajudam a aumentar a mística. O palco tomado por velas foi uma ideia de Layne Staley, criando uma atmosfera intimista que acabou se tornando uma das marcas da apresentação. Jerry Cantrell enfrentou o show inteiro sofrendo com uma intoxicação alimentar. Mike Inez aproveitou a presença do Metallica na plateia para brincar com a fase Load, escrevendo no baixo a frase “Friends don’t let friends get friends haircuts…”, arrancando risadas e motivando pequenas citações a “Enter Sandman” e “Battery” durante o espetáculo. São detalhes curiosos, mas que nunca roubam o foco da música.
O repertório reúne praticamente tudo o que havia de essencial na carreira da banda. A abertura com “Nutshell” já estabelece o clima melancólico que atravessa toda a apresentação. “Rooster”, “Would?”, e “Heaven Beside You” ganham leituras que, se não superam as versões originais, ao menos oferecem uma nova perspectiva sobre elas. A única inédita, “Killer Is Me”, embora interessante, pouco acrescenta ao repertório. Importante destacar que, tanto ela como “Frogs” ficaram de fora da transmissão original da MTV, por conta das restrições de tempo, aparecendo apenas nas versões físicas lançadas em CD e VHS.

Na época de seu lançamento, a recepção da crítica foi discreta, talvez por conta da – justa – desconfiança que pairava sobre o futuro da banda. Com o passar dos anos, no entanto, o MTV Unplugged ganhou um status quase unânime de clássico. Parte disso vem, inevitavelmente, de que aquele acabou sendo o último grande registro ao vivo de Layne Staley.
Assim como o Unplugged do Nirvana, outra despedida marcante e melancólica lançada dois anos antes, o acustico do Alice In Chains continua, trinta anos depois, sendo um dos melhores registros da série e uma prova de que o Alice in Chains nunca dependeu apenas do peso para emocionar. Pelo contrário: quando as guitarras baixaram o volume, ficou ainda mais evidente aquilo que sempre sustentou a banda: composições extraordinárias e uma das duplas de vozes mais bonitas que o rock já produziu. É justamente nessa simplicidade que reside a grandeza desse disco.


