A Moon Shaped Pool – 10 anos da despedida (?) do Radiohead.

Virgilio Migliavacca
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Virgilio Migliavacca
Com 10 anos na área de financiamento a projetos culturais pelo Governo do Estado do RS é Crítico musical com foco na energia dos palcos e...
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Capa de 'A Moon Shaped Pool' - Stanley Donwood.

A Moon Shaped Pool, lançado em maio de 2016, marcou o último trabalho do Radiohead até hoje. Produzido novamente por Nigel Godrich — praticamente o sexto integrante da banda — o disco acabou ganhando, com o passar do tempo, um peso ainda maior dentro da discografia do grupo.

Na época, não se imaginava que passaríamos uma década sem um novo álbum do grupo. Nesse intervalo, tivemos o surgimento do The Smile, um projeto que reúne os principais cérebros criativos da banda, Thom Yorke e Jonny Greenwood. Ainda assim, é difícil afirmar que o som do The Smile represente exatamente o caminho que o Radiohead seguiria hoje.

Olhando em retrospecto, fica mais claro que A Moon Shaped Pool já carregava sinais de um encerramento de ciclo. Historicamente, o Radiohead costumava desenvolver novas músicas durante as turnês, testando ideias ao vivo antes de levá-las ao estúdio, e uma ou outra acabavam entrando no tracklist final. No caso deste disco, várias faixas são releituras de composições antigas que ainda não tinham recebido um registro oficial.

“Burn the Witch”, por exemplo, traz elementos líricos que já apareciam no material gráfico de Hail to the Thief (2003). Já “True Love Waits” era uma canção conhecida dos fãs há anos, apresentada ao vivo em formato voz e violão, e que ganhou registro ao vivo em disco anteriormente, e que finalmente ganha aqui uma versão definitiva, com arranjo minimalista de piano.

A própria banda comentou sobre as dificuldades no processo criativo do disco. Havia um bloqueio evidente, o que ajuda a explicar essa revisitação de material antigo. Isso contribui para a sensação de “raspa de tacho”. Mas, no caso do Radiohead, até essa “raspa” tem um nível de qualidade impressionante: arranjos sofisticados como sempre, produção refinada e conseguindo manter uma coesão sonora.

No aspecto sonoro, o disco dialoga bastante com In Rainbows (2007), no sentido de funcionar quase como um resumo da trajetória da banda, reunindo elementos explorados ao longo de diferentes fases da carreira. Nesse sentido, ele lembra o que o R.E.M. fez em seu último disco, Collapse into Now (2011): um disco que funciona como uma bem amarrada colcha de retalhos, sem ser uma coletânea, reunindo diferentes facetas da banda em material inédito.

Também com o olhar de 2026, é simbólico identificar que o trabalho seria lançado no mesmo ano de Blackstar, de David Bowie — um álbum notoriamente marcado pela despedida. Ainda que não seja uma relação direta, há uma coincidência de clima: obras que soam como encerramentos de trajetórias artísticas relevantes. Além destes dois, ao fim de 2016 ainda ouviríamos You Want it Darker, o epitáfio de Leonard Cohen.

Também pesa o fato de que o disco anterior, The King of Limbs (2011), foi o primeiro registro em que o Radiohead, já com a carreira consolidada, não obteve tanto reconhecimento de crítica. A busca do grupo por mais e mais hermetismo acabou desembocando em um disco mais próximo aos trabalhos solo de Thom Yorke, e como uma repetição menos inspirada das ideias iniciadas em Kid A (2000).

Em A Moon Shaped Pool, essa tentativa constante de reinvenção dá lugar a algo mais contemplativo. O álbum mistura elementos de folk, música eletrônica e arranjos orquestrais e, diferente da maioria dos discos anteriores, não tem uma temática lírica em comum, como observado na distopia eletrônica de Ok Computer (1997). Aqui, além dos alertas ambientais e dos temas políticos, por vezes o disco soa pessoal como há muito não se ouvia nos trabalhos dos ingleses de Oxford. Daydreaming, por exemplo, é frequentemente citada como uma música sobre o então recente término do relacionamento de Yorke.

Até mesmo uma das bandas mais inovadoras de sua geração eventualmente encontra um limite para sua reinvenção constante. E o Radiohead parece ter entendido perfeitamente esse momento. Em vez de forçar uma nova ruptura estética, entregou um álbum consistente, sem se preocupar em reinventar a roda mais uma vez.

Resta saber o que vem pela frente. O recente retorno aos palcos, com a primeira turnê sem suporte de material inédito, as polêmicas e cancelamentos políticos, e a ventilada ideia de realizar apenas 20 shows por ano deixam uma dúvida: o Radiohead se tornou um “legacy act”, dedicado agora apenas a revisitar seu próprio catálogo? Ou ainda existe espaço para um novo capítulo?

Talvez, hoje, o The Smile funcione como esse espaço para Yorke e Greenwood continuarem exercendo sua criatividade, sem gerar a expectativa que um grupo gigante como o Radiohead geraria naturalmente, ainda mais após um longo período de silêncio.

A Moon Shaped Pool pode ser considerado, ao mesmo tempo, um belo encerramento para a trajetória de uma das maiores bandas de sua geração e, ao mesmo tempo, pode servir como uma excelente porta de entrada para quem ainda não explorou a obra do grupo. Mergulhe nele!

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