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Alabama Shakes – I Must Be Dreaming

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Alabama Shakes - I Must Be Dreaming
Foto: Alabama Shakes – I Must Be Dreaming

Onze anos depois de Sound & Color, o Alabama Shakes retorna sem a preocupação de reproduzir o passado. I Must Be Dreaming não tenta recuperar a urgência do primeiro disco nem repetir a experimentação psicodélica do segundo. É um álbum de uma banda que voltou mais velha, mais consciente do tempo e das mudanças ao redor, e que transforma essa experiência em um trabalho menos preocupado com demonstrações de força e mais interessado em atmosfera, intimidade e maturidade.

A diferença aparece logo em “Tea Time”. A batida marcada, quase hip-hop, divide espaço com a guitarra de Heath Fogg, que trabalha em torno de linhas de inspiração afrobeat. Brittany Howard entra com uma interpretação que parece simultaneamente oração e conversa, estabelecendo o tom de um disco que procura esperança sem ignorar o momento político e social dos Estados Unidos. Ao longo das 11 faixas, a banda alterna soul, rock, funk, psicodelia, pós-punk e elementos de música eletrônica sem transformar essas referências em exercícios de estilo. O que importa é como elas servem às canções.

E é justamente o soul que mais chama atenção. Em vários momentos, I Must Be Dreaming me fez pensar em Marvin Gaye, não por uma tentativa evidente de reproduzir sua sonoridade, mas pela maneira como o Alabama Shakes utiliza ritmo, baixo, guitarras e voz para criar músicas que parecem nascer de dentro para fora. Há uma preocupação semelhante com o espaço entre a seção rítmica e o vocal, com arranjos que não precisam preencher todos os espaços para transmitir intensidade. Brittany Howard também encontra uma maneira diferente de utilizar sua voz. Ela continua sendo uma cantora de enorme potência, mas aqui a força muitas vezes está na contenção, nas pausas, nas mudanças de registro e na maneira como prolonga determinadas palavras.

Essa aproximação com Gaye fica especialmente interessante porque I Must Be Dreaming também alterna o íntimo e o social. Marvin Gaye frequentemente transformava questões políticas em experiências humanas, evitando separar completamente o que acontecia no mundo daquilo que acontecia dentro de uma pessoa. O Alabama Shakes percorre caminho semelhante. “American Dream”, por exemplo, é uma crítica à realidade americana construída gradualmente, enquanto “I Feel Hope Coming” (talvez a melhor do disco) procura responder a esse cenário sem cair em uma celebração ingênua da esperança. A música cresce sobre uma base envolvente e permite que Howard transforme uma mensagem política em algo pessoal.

Alabama Shakes. Crédito: Bobbi Rich/Reprodução
Alabama Shakes. Crédito: Bobbi Rich/Reprodução

Mas o disco é ainda mais forte quando deixa a política em segundo plano. “Friends” e “Easy” mostram uma Brittany Howard mais vulnerável, enquanto “Time” talvez seja a síntese mais precisa da maturidade que orienta o álbum. A ideia de que, quando encontramos alguém que amamos, tudo o que queremos é tempo parece simples, mas ganha outra dimensão quando cantada por alguém que já não encara o futuro com a mesma ingenuidade dos primeiros anos do Alabama Shakes. A canção é uma declaração de amor, mas também uma percepção sobre envelhecimento, perda e a impossibilidade de controlar o tempo.

“Time” também mostra como a guitarra de Fogg mudou dentro dessa nova fase. Em vez de disputar espaço com Howard, ele trabalha como parte da narrativa. Seus instrumentos aparecem para ampliar uma emoção ou mudar a direção de uma música, e não apenas para produzir um momento de destaque. Essa relação entre guitarra, baixo e voz é fundamental para que o álbum mantenha sua identidade mesmo quando se afasta bastante do blues-rock que apresentou a banda ao público.

“How Love’s Supposed to Go” leva essa característica ainda mais longe. O baixo de Zac Cockrell tem papel central na construção da música, enquanto Fogg adiciona guitarras que transformam uma declaração relativamente direta de amor em uma faixa cheia de movimento. Howard, por sua vez, canta sobre a facilidade de amar alguém como quem respira. É uma composição que poderia facilmente cair no sentimentalismo, mas a banda encontra o equilíbrio entre delicadeza e tensão.

“Waist Deep” segue uma direção mais contemplativa e revela outro aspecto importante do álbum: o Alabama Shakes não precisa mais acelerar para provar que é uma grande banda. Há confiança nos silêncios, nos timbres e nas mudanças graduais de dinâmica. Isso ajuda a explicar por que I Must Be Dreaming pode parecer menos imediato que Boys & Girls, mas também mais interessante a cada audição. O disco foi construído para que os detalhes apareçam aos poucos.

Essa mudança pode dividir quem esperava uma continuação direta dos dois primeiros trabalhos. Há momentos em que o andamento médio e a produção mais atmosférica reduzem a sensação de urgência que caracterizava a banda. Parte do público já percebeu justamente isso: o novo álbum parece exigir uma audição mais atenta, especialmente com fones de ouvido, para que suas camadas de guitarra, baixo, bateria e texturas eletrônicas sejam percebidas.

Por outro lado, essa relativa contenção faz sentido dentro da trajetória do grupo. Brittany Howard passou os últimos anos desenvolvendo uma carreira solo marcada por jazz, soul, funk e experimentação. Seria difícil imaginar que ela retornasse ao Alabama Shakes exatamente como era em 2012. I Must Be Dreaming absorve parte dessa experiência sem transformar o grupo em uma simples extensão de sua carreira individual.

O título também ajuda a entender o disco. I Must Be Dreaming não é exatamente uma celebração da realidade contemporânea. Existe desilusão, existe preocupação política e existe a percepção de que a vida adulta traz perdas que não podem ser resolvidas com refrões otimistas. Mas o álbum também recusa o cinismo. “I Feel Hope Coming” talvez seja a melhor representação dessa postura: a esperança aparece não como solução, mas como escolha.

Por isso, a influência de Marvin Gaye que percebo no disco é mais profunda do que uma simples semelhança de timbres. Ela está na capacidade de unir sensualidade, espiritualidade, política e intimidade dentro de uma mesma linguagem musical. O Alabama Shakes não soa como uma banda tentando recriar What’s Going On. A referência está na arquitetura das canções, na importância da voz dentro dos arranjos e na maneira como o soul pode servir tanto para falar de amor quanto para comentar o mundo.

Depois de onze anos, I Must Be Dreaming é um retorno que faz sentido justamente porque não parece um retorno. O Alabama Shakes voltou diferente porque seus integrantes também são diferentes. A banda não tenta recuperar a juventude de “Hold On” ou repetir a complexidade de Sound & Color. Prefere registrar o momento em que está agora: mais madura, mais paciente e menos interessada em mostrar velocidade.

E talvez essa seja a maior qualidade do álbum. I Must Be Dreaming não precisa convencer ninguém de que o Alabama Shakes ainda é uma grande banda. A segurança das performances já deixa isso claro. O que o grupo faz aqui é mais interessante: utiliza a experiência acumulada para construir um disco sobre tempo, amor, política, envelhecimento e esperança. Brittany Howard continua sendo o centro gravitacional, mas agora sua voz não precisa gritar para dominar uma música. Às vezes, basta cantar uma frase, segurá-la por alguns segundos e deixar que a banda faça o resto.

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