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Dida Pelled acerta em cheio em “I Wish You Would”

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Dida Pelled capa de "I Wish You Would"
Foto: Dida Pelled capa de “I Wish You Would”

Há discos que parecem nascer de um cálculo estético, quase como exercícios de linguagem. I Wish You Would, novo trabalho de Dida Pelled, lançado nas plataformas digitais em 1º de maio, segue pelo caminho oposto. O álbum soa vivido, impulsivo e profundamente conectado a uma tradição musical que a artista carrega há anos: o blues. Mais do que uma simples aproximação estilística, o disco funciona como uma declaração afetiva — um retorno consciente às raízes emocionais que sempre estiveram espalhadas, ainda que de forma fragmentada, por sua obra anterior.

Conhecida por transitar entre jazz, folk, soul e estruturas pouco convencionais, Dida sempre cultivou um tipo de composição que foge do acabamento excessivamente polido. Existe algo de instintivo em sua música, uma sensação de que cada frase vocal e cada acorde foram deixados respirar até encontrarem sua forma mais honesta. Em I Wish You Would, essa característica ganha ainda mais força. O blues aparece não apenas como gênero, mas como linguagem narrativa. Está na forma como ela canta, nos silêncios, nas tensões harmônicas e principalmente na maneira como as histórias são conduzidas.

O álbum parece construído a partir de uma relação íntima com o improviso. Mesmo quando as canções seguem estruturas tradicionais, há sempre pequenas rupturas: mudanças de dinâmica inesperadas, guitarras que escapam do lugar comum e arranjos que preferem a textura à previsibilidade. Dida trabalha o blues quase como um organismo mutável, absorvendo elementos do jazz contemporâneo, do rock de garagem e até de certa melancolia cinematográfica típica da cena alternativa nova-iorquina.

Essa conexão com o jazz segue evidente. Afinal, antes de mergulhar neste repertório mais blueseiro, Dida Pelled construiu reputação justamente por sua habilidade em transformar standards e estruturas clássicas em algo pessoal. Em I Wish You Would, ela leva essa experiência para outro território. Em vez de virtuosismo ostensivo, prefere trabalhar nuances. Sua guitarra nunca tenta dominar a música; ela conversa com ela. Há momentos em que os riffs parecem arrastados pela fumaça de um clube noturno vazio às três da manhã. Em outros, surgem secos, cortantes, quase agressivos.

Dida Pelled acerta em cheio em “I Wish You Would”

O processo de composição também parece ter sido guiado por uma lógica menos cerebral e mais emocional. O disco transmite a sensação de urgência, como se muitas dessas canções tivessem sido escritas para preservar sentimentos antes que eles desaparecessem. Isso ajuda a explicar a força narrativa do álbum. Dida escreve personagens, desejos e frustrações com uma naturalidade rara, evitando clichês comuns ao blues contemporâneo. Em vez de revisitar apenas os arquétipos do gênero, ela encontra formas de atualizá-los sem perder autenticidade.

As influências clássicas estão espalhadas pelo disco, mas nunca de forma explícita ou nostálgica demais. É possível perceber ecos do blues elétrico de Muddy Waters, da dramaticidade vocal de Etta James e até da liberdade interpretativa de Nina Simone. Ao mesmo tempo, existe algo contemporâneo em sua abordagem — especialmente na maneira como mistura vulnerabilidade emocional com ironia e sensualidade. Dida entende o blues não como peça de museu, mas como linguagem viva, capaz de absorver contradições modernas.

Outro aspecto marcante é a atmosfera do álbum. Há uma estética noturna em praticamente toda a experiência. Mesmo nos momentos mais intensos, o disco preserva um certo ar esfumaçado, íntimo, como se cada faixa tivesse sido gravada sob luz baixa. Essa sensação reforça o caráter confessional das músicas. O ouvinte não tem a impressão de estar diante de uma performance cuidadosamente calculada, mas de alguém expondo fragilidades sem muito interesse em torná-las confortáveis.

Dida Pelled acerta em cheio em “I Wish You Would”

A produção acompanha essa proposta de forma inteligente. Em vez de exagerar na limpeza sonora ou transformar tudo em uma experiência excessivamente sofisticada, o álbum preserva imperfeições e pequenas asperezas. Isso faz diferença. O blues de I Wish You Would funciona justamente porque não tenta soar vintage de maneira artificial nem moderno por obrigação. O disco encontra equilíbrio raro entre tradição e espontaneidade.

O resultado é um trabalho que amplia o alcance artístico de Dida Pelled sem diluir sua identidade. Ao contrário: talvez este seja justamente o álbum em que ela parece mais confortável dentro da própria pele musical. Há personalidade em cada detalhe — das escolhas melódicas aos arranjos mais secos, passando pela interpretação vocal carregada de intenção.

I Wish You Would não é um disco interessado em agradar algoritmos ou seguir tendências passageiras. É um álbum que aposta na atmosfera, na emoção e na força das canções. E talvez seja justamente isso que o torna tão envolvente. Em tempos de lançamentos cada vez mais imediatistas, Dida Pelled entrega um trabalho que pede escuta atenta, paciência e imersão — exatamente como os grandes discos de blues sempre fizeram.

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