Dida Pelled acerta em cheio em “I Wish You Would”

Luis Fernando Brod
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Luis Fernando Brod
Publicitário, redator e pesquisador musical com foco em classic rock, hard rock e bastidores da indústria fonográfica. Especialista com mais de 5 anos em resgatar a...
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Dida Pelled capa de "I Wish You Would"

Há discos que parecem nascer de um cálculo estético, quase como exercícios de linguagem. I Wish You Would, novo trabalho de Dida Pelled, lançado nas plataformas digitais em 1º de maio, segue pelo caminho oposto. O álbum soa vivido, impulsivo e profundamente conectado a uma tradição musical que a artista carrega há anos: o blues. Mais do que uma simples aproximação estilística, o disco funciona como uma declaração afetiva — um retorno consciente às raízes emocionais que sempre estiveram espalhadas, ainda que de forma fragmentada, por sua obra anterior.

Conhecida por transitar entre jazz, folk, soul e estruturas pouco convencionais, Dida sempre cultivou um tipo de composição que foge do acabamento excessivamente polido. Existe algo de instintivo em sua música, uma sensação de que cada frase vocal e cada acorde foram deixados respirar até encontrarem sua forma mais honesta. Em I Wish You Would, essa característica ganha ainda mais força. O blues aparece não apenas como gênero, mas como linguagem narrativa. Está na forma como ela canta, nos silêncios, nas tensões harmônicas e principalmente na maneira como as histórias são conduzidas.

O álbum parece construído a partir de uma relação íntima com o improviso. Mesmo quando as canções seguem estruturas tradicionais, há sempre pequenas rupturas: mudanças de dinâmica inesperadas, guitarras que escapam do lugar comum e arranjos que preferem a textura à previsibilidade. Dida trabalha o blues quase como um organismo mutável, absorvendo elementos do jazz contemporâneo, do rock de garagem e até de certa melancolia cinematográfica típica da cena alternativa nova-iorquina.

Essa conexão com o jazz segue evidente. Afinal, antes de mergulhar neste repertório mais blueseiro, Dida Pelled construiu reputação justamente por sua habilidade em transformar standards e estruturas clássicas em algo pessoal. Em I Wish You Would, ela leva essa experiência para outro território. Em vez de virtuosismo ostensivo, prefere trabalhar nuances. Sua guitarra nunca tenta dominar a música; ela conversa com ela. Há momentos em que os riffs parecem arrastados pela fumaça de um clube noturno vazio às três da manhã. Em outros, surgem secos, cortantes, quase agressivos.

O processo de composição também parece ter sido guiado por uma lógica menos cerebral e mais emocional. O disco transmite a sensação de urgência, como se muitas dessas canções tivessem sido escritas para preservar sentimentos antes que eles desaparecessem. Isso ajuda a explicar a força narrativa do álbum. Dida escreve personagens, desejos e frustrações com uma naturalidade rara, evitando clichês comuns ao blues contemporâneo. Em vez de revisitar apenas os arquétipos do gênero, ela encontra formas de atualizá-los sem perder autenticidade.

As influências clássicas estão espalhadas pelo disco, mas nunca de forma explícita ou nostálgica demais. É possível perceber ecos do blues elétrico de Muddy Waters, da dramaticidade vocal de Etta James e até da liberdade interpretativa de Nina Simone. Ao mesmo tempo, existe algo contemporâneo em sua abordagem — especialmente na maneira como mistura vulnerabilidade emocional com ironia e sensualidade. Dida entende o blues não como peça de museu, mas como linguagem viva, capaz de absorver contradições modernas.

Outro aspecto marcante é a atmosfera do álbum. Há uma estética noturna em praticamente toda a experiência. Mesmo nos momentos mais intensos, o disco preserva um certo ar esfumaçado, íntimo, como se cada faixa tivesse sido gravada sob luz baixa. Essa sensação reforça o caráter confessional das músicas. O ouvinte não tem a impressão de estar diante de uma performance cuidadosamente calculada, mas de alguém expondo fragilidades sem muito interesse em torná-las confortáveis.

A produção acompanha essa proposta de forma inteligente. Em vez de exagerar na limpeza sonora ou transformar tudo em uma experiência excessivamente sofisticada, o álbum preserva imperfeições e pequenas asperezas. Isso faz diferença. O blues de I Wish You Would funciona justamente porque não tenta soar vintage de maneira artificial nem moderno por obrigação. O disco encontra equilíbrio raro entre tradição e espontaneidade.

O resultado é um trabalho que amplia o alcance artístico de Dida Pelled sem diluir sua identidade. Ao contrário: talvez este seja justamente o álbum em que ela parece mais confortável dentro da própria pele musical. Há personalidade em cada detalhe — das escolhas melódicas aos arranjos mais secos, passando pela interpretação vocal carregada de intenção.

I Wish You Would não é um disco interessado em agradar algoritmos ou seguir tendências passageiras. É um álbum que aposta na atmosfera, na emoção e na força das canções. E talvez seja justamente isso que o torna tão envolvente. Em tempos de lançamentos cada vez mais imediatistas, Dida Pelled entrega um trabalho que pede escuta atenta, paciência e imersão — exatamente como os grandes discos de blues sempre fizeram.

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