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Resenhas de Livros

Em “Almoço Nu”, William Burroughs ultrapassa a amoralidade das drogas e do sexo para propor um tratado sobre regulação e autoridade estatal

Marcelo Scherer
Marcelo Scherer
21 de março de 2026 5 min de leitura
Capa do livro "Almoço Nu" de William Burroughs. Crédito: Marcelo Scherer.
Foto: Divulgação

A dificuldade de ler o livro “Almoço Nu” de William Burroughs se dá por diversos fatores e causa um grande incômodo. Se você não está acostumado com uma narrativa cortada e picotada, se perde fácil no enredo. A verdade é que Burroughs escreveu o livro propositadamente assim. A ideia é que a narrativa não siga uma linha temporal, permitindo ao leitor ler qualquer um dos capítulos em qualquer ordem.

Sabendo da vida pregressa de Burroughs, pode-se entender a linha tênue do estilo da escrita e da história. É onde a fantasia beira o bizarro, mas flerta perfeitamente com o onírico. Ela borra o universo da realidade com a não-lógica do pensamento adicto do autor, onde tudo é totalmente desconexo, refletindo, portanto, o delírio de uma mente cheia de drogas. Percebe-se também, conhecendo a jornada do autor, que este é um livro meio autorretrato. Da mesma forma que ele borra a realidade com situações e mundos insanos, sabe-se que o autor viveu muito do que ali está escrito.

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Esse universo criado pelo autor foge de qualquer realidade, embora nasça de uma brutalidade bem real. Baseado nos seus anos de vivência fugindo da lei nos Estados Unidos, o trauma cravado no México e o auge do seu vício na anárquica Tânger, no Marrocos (até chegar a Paris, onde a obra tomou forma), a ambientação é frenética. Não é gratuito que a Interzone surja como uma espécie de zona franca do pesadelo, um lugar onde a lei existe como ruído, como ameaça e como um vulto que muda de forma conforme a conveniência de quem manda.

Para dar liga a essa loucura, acompanhamos o alter ego do próprio autor, o Agente William Lee. Ele é o nosso guia anestesiado por esse pesadelo, fugindo da polícia em uma jornada que o leva de Nova York à alucinatória e grotesca Interzone, uma versão distorcida, alucinógena e sem lei de Tânger. O mundo que Lee atravessa é populado por médicos sádicos, como o infame Dr. Benway, criaturas bizarras, insetos gigantes e burocratas alienígenas. O enredo, na prática, é a própria fuga de Lee e sua submissão química, servindo como uma viagem aos recônditos mais sombrios da degradação humana.

E é aqui que o livro deixa de ser só sobre drogas e começa a ficar claramente sobre regulação. Burroughs não trata autoridade como uma pessoa ou um ditador com nome e sobrenome. Ele trata autoridade como um mecanismo, um conjunto de métodos, rotinas e discursos que se infiltram no corpo e na cabeça. É um controle que não precisa gritar, porque já opera por dentro. O Estado, ou o que quer que faça o papel de Estado ali, não aparece como ideal político, mas como prática suja de gerir medo, desejo e vício.

A burocracia, nesse sentido, vira uma camuflagem elegante para o que é indecente. O Dr. Benway sintetiza esse truque do poder ao dizer que “a necessidade nua dos viciados em controle deve ser decentemente coberta por uma burocracia arbitrária e intrincada, de modo que o sujeito não consiga contatar seu inimigo diretamente”. É quase uma confissão: não se controla apenas com armas e grades, mas com formulários, protocolos e camadas de intermediários. A violência deixa de parecer violência para virar procedimento.

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Quando o livro insiste tanto em dependência e compulsão, ele não está só narrando uma degradação individual, está desenhando um modelo político. Aqui o vício funciona como método e metáfora, pois quem depende, obedece. O próprio Benway, como espécie de técnico da dominação, vira o retrato dessa engenharia social, sendo descrito como “um manipulador e coordenador de sistemas de símbolos, um especialista em todas as fases de interrogatório, lavagem cerebral e controle”. Nessa chave, o controle não é apenas repressão, é programação.

Como se não bastasse, toda essa jornada é coberta por escatologia, violência psíquica, abuso de drogas e sexo sem nexo. Cada um desses pontos tem uma linha de ideia única que amarra toda a história: a opressão e a manipulação governamental através das ferramentas supracitadas. Não é choque pelo choque. É choque como evidência, como quem esfrega na cara do leitor os instrumentos sujos que sustentam uma ordem supostamente limpa.

Na superficialidade da obra estão os problemas em relação às drogas e à psiquê de um junkie, assim como a homossexualidade e a amoralidade escancaradas, apresentadas para chocar a sociedade conservadora de 1959, ano de lançamento do livro. O choque foi tão absoluto contra o moralismo de margarina e a paranoia da Guerra Fria dos anos 50, que a obra não apenas incomodou, mas foi banida e julgada por obscenidade nos tribunais americanos, desafiando o sistema com sua total falta de pudor.

Diante de toda essa alucinação sobre controle, censura e poder, seria então “Almoço Nu” um livro proto-distopia? Se a distopia clássica costuma mostrar um futuro organizado pela vigilância e pela norma, Burroughs parece operar num lugar anterior e talvez mais honesto. Ele não imagina um amanhã, ele revela um presente em decomposição, onde o controle não depende de ordem, e sim de contaminação. Em vez de uma sociedade perfeitamente disciplinada, temos uma sociedade perfeitamente administrada pelo vício, pela burocracia e pela linguagem que justifica tudo.

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