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Entrevista Élcio Tocaia – Lançamento do novo full-length da Malsagrado

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Entrevista Élcio Tocaia – Lançamento do novo full-length da Malsagrado
Foto: Divulgação

O Black Metal surgiu como uma forma de antítese na indústria musical, mostrando uma faceta sombria da cena do metal extremo e do gênero metal como um todo, maldito por si só, inclusive sendo algo que já explanei diversas vezes em outras resenhas anteriores e aqui eu não irei me esticar. Da mesma forma, o punk também causou barulho por meio da imagem de choque com suas letras de protesto e agressividade, mesclando-a, com o tempo, junto da mesma que o metal também possuía, criando diversos subgêneros que, ao longo dos anos, criaram novos adeptos com novas propostas à contemporaneidade de suas épocas. Nessa entrevista com Élcio Tocaia, mente por trás da Malsagrado, destrinchamos um pouco mais sobre seu novo trabalho e o estado de letargia e caos que vive o mundo atual, assim como o papel da imagem de choque na música extrema.

Élcio Tocaia, mente por trás do Malsagrado; Créditos: Élcio Tocaia & Malsagrado
Élcio Tocaia, mente por trás do Malsagrado; Créditos: Élcio Tocaia & Malsagrado

Élcio, poderia falar mais sobre o que consiste o trabalho do Malsagrado como um todo e o que ele representa?

Élcio: — O Malsagrado para mim é uma continuação do Tocaia, que era a minha banda anterior. Já fazem 10 anos que estou nessa jornada de ter bandas de um homem só. Gosto de gravar tudo e produzir tudo sozinho; mesmo não ficando com uma qualidade super profissional, acaba sendo minha visão de arte. Entretanto, com o Tocaia, eu fazia um “catadão de tudo”: um pouco de beat + trap, um pouco de post-rock, música acústica e, eventualmente, metal. Uma hora cheguei e falei: “Beleza, vou encerrar esse processo aqui e vou começar a fazer apenas metal com uma vertente mais clara e uma estética mais fechadinha”, e essa banda acaba sendo o Malsagrado. Já devem fazer 4 anos da primeira música que lancei, e a ideia é trabalhar sozinho com uma ideia meio crust e black metal, e falar de sociedade, filosofia, da vida.

Pode falar um pouco mais sobre o processo de composição do full length autointitulado? Como vê o trabalho lírico se encaixando na realidade atual em que vivemos, em que cada vez mais o eu é cada vez mais condicionado a se moldar a uma imagem projetada por uma sociedade cada vez mais hipervigilante?

Élcio: — Encapsula bastante do que eu quis falar nesse último disco. Meu processo é muito mais instrumental primeiro e depois as letras, só com uma última camada mesmo. Tanto é que eu realmente não penso nas letras para encaixar na música. Eu tinha uma meia dúzia de riffs quando decidi que seria um full length, e aí fui achando as coisas no meio do caminho. Enquanto você grava e edita, percebe que algumas coisas desencaixadas vão se tornando outras músicas. E a filosofia por trás do disco é social, tendo mais viés religioso e social, justamente por esse momento estranho em que estamos vivendo na nossa sociedade. Muita atribuição de significado a coisas que são simplesmente simbólicas, e muito desse simbolismo se projetando na sociedade com riscos sociais bem grandes. Falo de religião, porém, não exclusivamente. Tem muito coach pilantra, muitas consequências desse momento do neoliberalismo que vivemos. Não que o Malsagrado seja uma arte puramente política, mas toda arte é inevitavelmente um pouco. E isso acaba “sangrando” um pouco nas letras que escrevi para esse play.

Mal-Sagrado (2026); Créditos: Élcio Tocaia & Malsagrado
Mal-Sagrado (2026); Créditos: Élcio Tocaia & Malsagrado

Inclusive, a ligação do Malsagrado, tanto com o Crust quanto com o Black Metal, é bem forte. O Black Metal, por si só, é uma forma de separação da igreja e do Estado. É um estado de rebeldia, muitas vezes representado em agressividade, outras vezes em atmosfera.

Élcio: — Eu entendo que, para começar, o Black Metal precisou do Satanismo como uma ferramenta de narrativa. Eu não estava lá quando as bandas que fizeram o gênero surgiram, pois eu nasci em 1991, mas conheci tudo isso por conta do pânico satânico. A estrutura da sociedade, no momento em que estava, precisou de um certo choque. E outras ferramentas narrativas foram usadas para criar choque, também, ao longo da história do gênero. Só que chegamos a um momento em que falar de satanismo não vai resolver nada, e precisamos falar algumas verdades mais escrachadas. Novamente, a figura de Lúcifer serviu em algum momento como antagonista para a sociedade, mas chegou a hora de nós botarmos o dedo na ferida e deixar as coisas de forma mais clara. Eu tentei usar um pouco dessa clareza de discurso nesse disco.

Nós não estamos mais usando a mesma metalinguagem do Lavey ou o satanismo por meio de uma imagem de choque. Mas agora, te pergunto aqui, o que pode ser usado como uma forma de choque para chamar a atenção dessa sociedade atual?

Élcio: — Não sei se diria ironia, não sei se é a palavra que quero usar, mas acho que, especialmente na música “Nada te Faltará”, eu tento incorporar um pouco um personagem de um pastor que promete o mundo para os fiéis. Sabemos que o neopentecostalismo exerce uma influência gigantesca na nossa sociedade, de manter as pessoas pobres ainda na pobreza, acreditando que as coisas vão mudar, e tudo que vem da boca do pastor, de Bet também, de outros mecanismos, até como a criptomoeda, de certa forma. É uma parada que exerce um campo real na vida das pessoas, e uma banda que hoje em dia se prende só em falar da figura de Satanás é tão séria quanto uma banda de Power Metal falando de dragãozinho. É inútil para produzir uma mudança real e política na sociedade, como uma banda cantando sobre temas medievais. Temos que denunciar essas coisas, seja na forma de ironia, de crítica direta… Não digo que meu som é tão explícito e claro como o Surra ou o Rot liricamente, mas temos que falar dessas coisas pelo que elas são. Acho que a narrativa imaginária ficou para trás.

EP HERDEIRO DE NADA, FILHO DE NINGUÉM (2024); Créditos: Élcio Tocaia & Malsagrado
EP HERDEIRO DE NADA, FILHO DE NINGUÉM (2024); Créditos: Élcio Tocaia & Malsagrado

Muitas pessoas possuem uma ideia muito errada sobre grandes figuras filosóficas do passado, como Schopenhauer e também Nietzsche. Essas mesmas duas figuras, porém, possuem uma abordagem diferente sobre a visão da sociedade. Enquanto a filosofia de um é sobre o não, a do último citado é sobre o sim. Logo, você acredita que o teor lírico que compôs no EP “HERDEIRO DE NADA E FILHO DE NINGUÉM”, lançado em 2024, seria a saída do niilismo por meio do niilismo ativo?

Élcio: — São duas perguntas. Acho que as pessoas começaram a falar mais sobre niilismo clássico nos últimos tempos e culpo isso muito à internet. Não acho algo totalmente ruim, mas, de certa forma, o YouTube, principalmente o Instagram, fez as pessoas criarem uma visão de que você consegue consumir toda a filosofia de um pensador em 15 e 25 segundos, às vezes 1 minuto por ali. E isso não é verdade, dá trabalho para a cabeça: você tem de ler, não entender e, eventualmente, ler de novo e tirar suas conclusões da obra. Não estou falando desses dois pensadores, mas também de vários outros. A internet fez um carnaval com a filosofia estóica, não que eu seja muito adepto, mas a galera vende livro do Marco Aurélio hoje em dia como se fosse um papo de coach, uma parada bonita para se viver, e não vejo que fosse isso o que os pensadores originais dessa vertente tivessem em mente. Em relação à segunda pergunta, o Herdeiro de Nada […] talvez seja meu trabalho mais niilista. Sinto que ele é até meio esquivo nas críticas; as músicas falam muito sobre o sofrimento, saber que tem algo na sua vida que você precisa mudar, mas não faz nada, especialmente em “Maior que o Remorso”, que dialoga um pouco com essa sensação de letargia frente à necessidade de mudança, mas é um disco que também foi importante no amadurecimento da estética da perícia do som, embora eu ache que a filosofia niilista acabe entregando um trabalho até morno em termos de filosofia. Ele começou a dar uma forma no trampo que entreguei agora. Então, acho que, no aspecto de modelar o trampo do Malsagrado, ele foi importante e eu gosto muito dele.

As influências que compõem o Malsagrado vão desde o Black até o Crust Punk. Fale mais sobre essas bandas que o influenciaram e como você encaixa a inspiração delas em seu trabalho.

Élcio: — Eu escuto muito black metal, tanto as coisas mais modernas, tipo Mágoa, Groza… Mas eu escuto muito black metal de raiz também, os mais tradicionais, como Bathory, Darkthrone, etc. Eu não considero isso como a principal influência do Malsagrado, especialmente porque acho que a estética do black metal precisa de uma performance ao vivo. Darkthrone é uma das maiores do gênero e eles não fazem shows, mas acho que o black metal é pensado para, em algum momento, tocar as músicas ao vivo, então, essa não é a minha ideia. Então, me permito também criar outras coisas, por meio de outras influências. Do Heavy Metal mais tradicional, por exemplo, gosto muito de King Diamond & Mercyful Fate, Motörhead. De coisa mais moderna, indo para uma veia mais crust-punk e grind, eu curto muito do ROT, TEST, Rotten Sound, Disfear e At The Gates, mesmo essa já indo mais para o lado do Death Metal. Então, acabo fazendo um catadão disso tudo, e aí o último temperinho, mas que geralmente as pessoas percebem menos, são as bandas de Post-Black Metal, do tipo Deafheaven e Year Of No Light. São bandas mais atmosféricas que estão no meu som, porém, é apenas um “orégano” por cima.

Odarga-Slam (2026); Créditos: Élcio Tocaia & Malsagrado
Odarga-Slam (2026); Créditos: Élcio Tocaia & Malsagrado

Em Odarga Slam, vemos um trabalho mais focando no atmosférico, poderia falar maais sobre esse lançamento, significado que ele trás, incluindo o seu nome?

Élcio: — Esse é um disco que fiz para mim mesmo; não espero que ninguém o ouça recorrentemente. Não acho que ele seja para todo mundo, mas gosto de ambient/noise e dark ambient. Tem alguns artistas que ouço bastante, como o Atrium Carceri, até o próprio Sunn O))), que é mais drone. Mas é algo que sempre quis tentar, explorar um disco de dark ambient e ver como ficaria na minha linguagem e com os recursos que sei. E aí, coincidiu que, enquanto eu gravava as faixas do Malsagrado, eu fui aprendendo a fazer um som com a minha pedaleira e os sintetizadores e pensei: “Pô, isso aqui talvez um dia vire algo. Não sei se uma intro para um álbum ou algo assim, mas acabou virando esse disco”. E o Odarga Slam é basicamente Malsagrado de trás para frente. Então, o Disco 1 é Mal-Sagrado, e o segundo é o contrário disso. Enquanto o primeiro tem uma abordagem mais objetiva, o outro já é mais desconstrutivista na música, como grandes monolitos do som em que se tenta achar o sentido neles.

Teremos chance de ter o Malsagrado ao vivo no futuro com mais membros na formação? Uma grande sugestão de banda para se juntar ao palco seria o Sangue de Bode, que compartilha um som similar em muitos aspectos.

Élcio: — Eu nunca digo não para essa hipótese, gosto de fazer as coisas sozinho, mas não descarto a hipótese. A cena black metal brasileira está em um momento muito positivo e você mencionou o Sangue de Bode, mas Velho também é uma grande influência para mim, assim como Vazio. Já passei várias vezes na Associação Cultural Sinfonia de Cães para conversar com os caras, como o Renato e o Eric. Não é algo que esteja planejado, mas uma porta que eu não fecho, não que eu fique pensando todo dia quem eu chamaria para tocar no Malsagrado. Pode ser que aconteça, ou não.

Quais bandas do cenário underground você tem como favoritas, e qual mais você vê se destacando?

Élcio: — Cara, eu gosto muito do Postvmo. Eu já fiz um teste para entrar, mas, por questões de agenda, acabou não rolando. Porém, é uma banda cujo trabalho eu ouço muito. Tem o Lamento também. Curto muito Vazio. Gosto bastante de Sangue de Bode, Desalmado, Velho; diria que muito da influência deles está no meu som. Eu não diria que Ratos de Porão seria underground, mas para mim é sempre uma métrica: “Como o RDP faria”, “Como o Jão escreveria esse riff”, coisas que estão sempre na minha cabeça, no fone de ouvido. Não tem muito a ver com meu som, mas escuto bastante Pravus; eles são como irmãos para mim. Sei que tem várias diferenças criativas em como fazemos a nossa arte, mas eles são demais, admiro muito o trampo deles! O trampo solo do Duemd, o baixista, gosto bastante, além da outra banda dele. Diria que seria isso.

Essa última pergunta pode parecer a mais simples. O que é Black Metal?

Élcio: — Black Metal é Guerra!

O que é a vida?

Élcio: — “A vida é mais ou menos a experiência do Odarga Slam: grandes monolitos sem sentido, tentando se esquivar, se proteger e tentar encontrar sentido no meio do caos.”

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