Foreign Tongues: Rolling Stones envelhecem melhor que boa parte do rock atual
Foreign Tongues, o novo álbum dos Rolling Stones, chega nesta sexta-feira e… é irritante. Ou melhor, pelo contrário. Ele é bom demais para uma banda que deveria estar vivendo da nostalgia de uma história iniciada em 1962!
Já se passaram 63 anos desde seu primeiro single, e Foreign Tongues marca o 25º trabalho de estúdio da banda, mostrando que ainda há um excesso de vitalidade que, convenhamos, chega a ser constrangedor se comparado ao de algumas bandas com integrantes que poderiam ser seus netos. Enquanto veteranos do rock estão lançando turnês comemorativas e caixas de luxo com preços exorbitantes, muitas vezes sem novidade alguma, Mick Jagger, Keith Richards e Ronnie Wood continuam interessados em novidades. E pior: ainda fazem com que cada álbum lançado tenha enorme relevância.
Três anos após Hackney Diamonds, os Rolling Stones se recusam a apertar o piloto automático, visto que aquele foi o primeiro trabalho inédito da banda em quase duas décadas. Com Foreign Tongues, eles se mostram focados, coesos e até mais inspirados que seu antecessor. Não há oportunismo, mas sim o tesão de fazer e acontecer.
A essência é a mesma: blues, rock and roll, country, soul, sarcasmo e desprezo por qualquer expectativa de comportamento vinda desses senhores que já passaram ou estão beirando os oitenta anos.
Em uma explosão de energia, Rough and Twisted abre Foreign Tongues com Keith atacando seus riffs e a mistura familiar e elegante que faz a sonoridade dos Stones, enquanto Ronnie Wood espalha e preenche lacunas nos momentos certos e Jagger rosna a todo vapor. A aposentadoria está longe desses três.
In The Stars é o exemplo da transformação do familiar em algo irresistível, algo praticamente sobrenatural e com o qual os Stones sabem lidar muito bem. A faixa chega a ser uma reciclagem sem soar repetitiva. É, praticamente, um diálogo com o passado, sem a audácia de reproduzi-lo.
Aliás, o mais intrigante em Foreign Tongues é que ele não tenta aparentar ter vindo de outro tempo. Jagger continua sendo o cínico de sempre. Agora, sua mira está voltada para bilionários, populistas, autocratas e uma sociedade que se mostra, a cada dia que passa, mais absurda.
Elon Musk é ironizado em Mr. Charm, enquanto em Divine Intervention é imaginado um planeta à beira do colapso, com magnatas fugindo para seus bunkers espaciais enquanto o resto do mundo queima. Os Stones continuam interessados em comentar o presente e entregam uma das melhores faixas do disco.
O country melódico aparece em Ringing Hollow, com influências de Gram Parsons. Nas entrelinhas, surge uma decepcionada carta de amor aos Estados Unidos. Jagger deixa claro que o sonho está longe da realidade.
Tudo é observado, ironizado, provocado… e seguimos em frente. Eles não oferecem soluções nem qualquer discurso moralista. É apenas um registro do caos.
Musicalmente, não há grandes aventuras, tentativas de soar jovial ou, como muitos fazem, participações pensadas para que os algoritmos entreguem o conteúdo às “pessoas certas”.
Um dos destaques vai para You Know I’m No Good, de Amy Winehouse. Uma homenagem respeitosa e competente.
Andrew Watt, o jovem produtor de 35 anos que também assinou a produção de Hackney Diamonds, atualizou o grupo sem fazê-lo parecer uma caricatura de si mesmo. A fórmula é repetida com extrema maestria, sem sufocar a banda, apesar de, em certos momentos, haver um excesso de polidez.
E, cá entre nós, os Stones são muito mais legais com as imperfeições que dão a entender que um desmoronamento pode ocorrer a qualquer momento. Contudo, são reclamações pequenas diante do que o Foreign Tongues oferece. Quando eles acertam, continuam sendo os Stones.
Keith assume os vocais em Some Of Us, um dos pontos mais emocionantes do disco. Assim como Jagger, o guitarrista entrega vulnerabilidade em uma voz desgastada pelo tempo (e por outras coisas), fazendo com que cada verso pareça vivido, e não interpretado, como se fosse uma conversa.
Back In Your Life cresce como uma balada até explodir em emoção, registrando uma das performances vocais mais fortes de Jagger em décadas.
O grande milagre de Foreign Tongues é Mick Jagger. Aos 82 anos, ele exibe uma força absurda, cheia de energia, presença e convicção, soando (pasmem!) melhor do que muitos artistas com metade da sua idade.
Etarismo? Onde? Não existe.
E sem esquecer de Charlie Watts, que participa de Foreign Tongues, apesar de já terem se passado cinco anos desde seu falecimento. Sua presença adiciona um peso emocional extra, reforçando uma ausência que, querendo ou não, continua sendo uma das maiores presenças da banda. Steve Jordan faz um trabalho fenomenal, mas Charlie era Charlie. Insubstituível.
Foreign Tongues fecha com Beautiful Delilah, clássico de Chuck Berry. Não apenas como uma homenagem, mas como um lembrete de que, antes de toda a glória, a banda tinha os pés fincados no blues e no rock and roll.
É isso que faz Foreign Tongues funcionar. Enquanto alguns veteranos tentam convencer o público de que ainda são jovens, os Stones aceitam quem são.
Não há confissões sobre envelhecimento, legado ou despedidas emotivas planejadas.
Este pode ser o último álbum? Não sabemos. Perguntaram isso em Hackney Diamonds e vão perguntar, se é que já não perguntaram, sobre este também. Nem os próprios Stones têm essa resposta. E talvez esse seja justamente o motivo de continuarem na ativa.
No final, não é um álbum que mudará os rumos do rock nem que superará Beggars Banquet, Exile On Main St. ou Sticky Fingers.
É simplesmente o trabalho de músicos que ainda têm prazer em estar juntos e tocar. Considerando que a banda foi formada quando o Brasil conquistou seu segundo título da Copa do Mundo, João Goulart era presidente do país e John F. Kennedy ocupava a Casa Branca, isso já é um milagre.
E ficaremos no aguardo de um novo álbum.


