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Neil Young vs Spotify: Afinal, as plataformas digitais cooptaram toda genialidade dos nossos ídolos?

Na ansiosa e desenfreada dança dos dias, as notícias e informações se tornam obsoletas de um dia pro outro, sem muitas vezes conseguirmos assimilar tanta informação, tenho a sensação de que mais pessoas compactuam com este mesmo sentimento particular.

Na última semana, Neil Young anunciou seu retorno ao Spotify (vale conferir o baita texto e vídeo feito pelo Marcelo Scherer aqui mesmo no Disconecta.com.br e no canal da Disconecta no Youtube), a gigante sueca não detém mais os direitos exclusivos sob o podcast do indigesto Joe Rogan, sendo também disponibilizados em outras plataformas como Amazon Music e Apple Music.

Com isso, o lendário cantor e compositor canadense decidiu que voltaria ao Spotify pois não via sentido, segundo o próprio Neil Young, de retirar toda sua obra de todos os meios digitais, simplesmente apagando todo seu legado da internet e inviabilizando que toda sua genialidade continue chegando até todos nós, meros mortais, mesmo não sendo dignos de tamanha graça e benção. Me permito aqui a ironia pois pra mim, Neil Young é o maior de todos os tempos e uma verdadeira força da natureza.

Neil Young é um libertário, um progressista e um entusiasta de Jack Kerouac e do movimento Beat, assim como tantas outras lendas como Sir. Bob Dylan e os Beatles. Sempre foi engajado em tantas causas nobres entre elas as questões climáticas, filantropia e o Farm Aid.

Ao se retirar do Spotify à época, Young nos dava uma pequena amostra do monstro que estava se criando, ou dois montros melhor dizendo, as plataformas digitais contendo toda a obra de centenas de milhares de artistas e os desnecessários podcasts no formato de “Mesacast”.

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A qualidade de áudio do Spotify é péssima, bem como o valor repassado aos artistas pelas reproduções mensais, valor o qual não faz diferença alguma na vida e na carreira impecável de Neil Young, aliás, no ano que o catálogo do artista foi retirado da plataforma sueca, a mesma perdeu em três dias, tão logo a exclusão da obra do cantor canadense, aproximadamente 2,1 Bilhões de dólares.

A uberização da cultura espande seus tentáculos numa velocidade assustadora depois da pandemia, o fenômeno que acompanhamos desde 2020 cresceu e se consolida a cada ano, as grandes plataformas detém o poder, elas agora ditam as regras do jogo. Valiosos catálogos de artistas, que outrora eram verdadeiros tesouros, hoje em dia mais parecem uma criptomoeda abandonada em um site de investimento desses qualquer.

Tento me fazer entender um pouco mais, te convido à lembrar da última vez que você entrou na Netflix e escolheu um filme em menos de 30 minutos. A Netflix é a Uber do cinema, eles detém tudo, dos estúdios aos catálogos de determinados diretores atualmente, você não acha mais nem mesmo aquele filme de meado dos anos 90 que passava a cada quinze dias na Sessão Da Tarde com James Belushi ou Danny DeVito. Os clássicos foram apagados, as gerações atuais agora precisam acompanhar um Live Action qualquer de alguma animação do início dos anos 2000, ou alguma sequência ou spin-off da Marvel, sem falar as biografias de ícones pop totalmente rasos e sem aprofundar na obra e na complexidade das personagens. A Amazon exerce esse mesmo papel quando vende a obra de determinados autores mais baratas do que quando vendidas das próprias mãos de quem a escreve.

Na música, o Spotify atualmente detém a maioria dos assinantes dentre as plataformas digitais de áudio, gravadoras e selos possuem contratos diretos com a plataforma, hoje inclusive é possível pagar para ter sua música disponível nas playlists feitas pelo próprio Spotify, o famoso “pagar pra tocar” continua presente, agora um pouco mais Hi-Tech é verdade, mas com o mesmo espírito, fazer a grana valer mais que a qualidade, e enfiar goela abaixo o que eles querem que a gente ouça. Ou vai me dizer que você nunca achou estranho quando se deparava com uma propaganda de um cantor sertanejo com milhões e milhões de ouvintes e reproduções sem nem sequer ter ouvido nenhuma música dele? Nem mesmo em algum corredor do supermercado ou em alguma loja de colchão no centro da cidade. A resposta é simples, foi tudo pago, da publicidade aos números de reprodução e ouvintes mensais. A curadoria das playlists é cada vez menos seletiva e coerente, como raios é indicado pra mim a nova música do Tiago Iorc ou da Anitta?

O imortal e todo poderoso Neil Young travou uma batalha na qual ele já foi vencido, na qual os Beatles são apenas um grão de areia no deserto, ou uma fração de algum bitcoin. Onde a Elis Regina é ressuscitada pra vender um automóvel, e onde os Sex Pistols tem suas camisetas vendidas na Renner. Esta batalha foi vencida por eles, que não sabem nada de música e que tem o Capital, que dizem o que temos que ouvir, quando temos que ouvir e o tempo que temos pra ouvir. Eles preferem o negacionismo e o terraplanismo, os comerciais de cerveja e os anúncios de bifes empanados do que a obra de Neil Young.

“It’s better to burn out than to fade away”.

Ele sempre esteve certo.

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