Tuca é um nome de duas sílabas, pequeno. Mas forte! A grandiosidade da musicista, batizada como Valeniza Zagni da Silva, deve ser reconhecida nos tempos atuais.
Beirando o lado fã, posso exagerar (ou não) ao falar sobre um dos nomes da música popular brasileira que, ao que tudo indica, hoje não é tão lembrado. Um dos registros mais recentes de grande repercussão ocorreu em 2023, em um especial do Globo Repórter, que abordou o falecimento de Tuca, aos 33 anos, em 8 de maio de 1978.
Dona de registros belíssimos, como seus três álbuns — Meu Eu (1965), Tuca (1968) e a curva fora do ponto (isso mesmo!) Drácula, I Love You (1974) —, Tuca ainda se entregou magistralmente a dois discos que se tornaram os mais citados quando o assunto é seu nome: Dez Anos Depois de Nara Leão e La Question, de Françoise Hardy. Seis meses antes de seu falecimento, estava trabalhando ao lado de Fafá de Belém.
Infelizmente, dois de seus três álbuns solo não estão disponíveis nas plataformas de streaming. Quem perde com isso são os próprios serviços, a gravadora ou quem detém os direitos de seu acervo.
Tuca intensa em três álbuns
Meu Eu é um disco delicado, com forte vibração bossa-novista. Com arranjos de Chico Moraes e Erlon Chaves, a faixa de abertura, Curtinha nº 2, entrega a simplicidade, e a bem trabalhada mão direita de Tuca no violão. Do início ao fim, o álbum é um sopro de originalidade.
Tuca, lançado três anos depois, traz arranjos de Mario Castro e Oscar Castro Neves e transita tanto pela bossa nova quanto pelo samba. É o único trabalho da artista disponível hoje nos principais serviços de streaming.
Quanto mais você se aprofunda em sua história — buscando vídeos, reportagens e recortes de jornais —, mais se apaixona por Tuca. Não é exagero. Sempre relutei em ouvir Drácula, I Love You, achando que não era o momento certo. Quando finalmente ouvi, foi amor à primeira escuta.
Um disco tão poderoso que já impressiona pelo local onde foi gravado: o Château d’Hérouville, o mesmo estúdio que recebeu Elton John, Pink Floyd, T. Rex, Uriah Heep, Sweet, Fleetwood Mac e David Bowie. Há uma aura enigmática que atravessa todo o álbum.
Com nove faixas em português e uma em francês, o disco marcou o retorno de Tuca ao Brasil. Mas a década de 1970 no país estava profundamente ligada à ditadura militar. As músicas Drácula, I Love You, Pra Você Com Amor e Sorvete acabaram censuradas.
O sorvete é gelado
Com gosto de mel
Derrete, entra, engole
Chupa a minha bocaDeixa minha cara colorida
Enquanto a árvore outono
Derrete em cima de mim, me engole
Tragicamente, Tuca faleceu quatro anos depois. Chegando a pesar 140kg, foi vítima de gordofobia, ao ponto de que em entrevistas, era constantemente questionada sobre seu corpo. Submeteu-se a um regime drástico e perdeu 40 quilos em apenas um mês. Seu corpo não aguentou…
Há pouco material disponível na internet sobre Tuca, o que é surpreendente e lamentável. Algo muito diferente da força de sua obra e de quem ela foi. Aliás, é possível encontrar o Dracula à venda pelo precinho de R$10.000 pela internet.
Quer uma prova? Assista ao vídeo indicado abaixo e avance até 1 minuto e 5 segundos, quando Tuca interpreta A Vizinha do Lado, de Dorival Caymmi. É um anjo com uma mão direita possessa.
E, mais uma vez, fica o lembrete: é preciso lembrar e falar de Tuca. Como ela diz na segunda faixa de seu segundo álbum: “É uma lástima, o tempo voa”.
Nota:
Não sou de adicionar notas em finais de textos, mas é escasso as informações sobre Tuca. Esperemos que futuramente os olhos voltem novamente à ela ao ponto de que documentário, materiais e gravações venham à tona para a alegria dos fãs.
E o mais importante: Não esqueçam da história da música popular brasileira. Há pérolas e uma das mais brilhantes é a Tuca.



