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Dream, After Drem do Journey completa 45 anos

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Journey em 1980. Crédito: Reprodução.
Foto: Journey em 1980. Crédito: Reprodução.

“Dream, After Dream”, lançado em 1980, costuma ser lembrado como o disco mais atípico da carreira do Journey e não por acaso. Nascido como trilha sonora para um filme japonês, o álbum surgiu num momento em que a banda vivia uma mudança profunda de identidade. Depois de anos equilibrando rock progressivo, fusion e hard rock, eles finalmente tinham encontrado o sucesso estrondoso com “Infinity” e “Evolution”, já totalmente guiados pela voz de Steve Perry. Mas “Dream After Dream” não segue essa lógica. Ele é quase um retorno às origens, um aceno ao passado experimental do grupo e, ao mesmo tempo, o último registro de estúdio com Gregg Rolie, o músico que ajudou a moldar o DNA do Journey desde seus primeiros ensaios.

A gravação do disco foi uma espécie de respiro criativo. Livre das pressões de hits e rádios, o Journey pôde trabalhar com arranjos extensos, melodias instrumentais e atmosferas cinematográficas que remetem diretamente ao período pré-Perry. Gregg Rolie, que sempre trouxe a herança do Santana consigo — órgão Hammond elétrico, improvisos longos, vocais quentes — encontrou no projeto um espaço raro para brilhar de novo. Mesmo dividido com Perry, Neal Schon e Jonathan Cain (que ainda não era membro oficial, mas já orbitava o universo da banda), Rolie assume um protagonismo natural, como se estivesse recuperando o que a virada pop do grupo tinha deixado de lado.

A despedida de Rolie se desenhava nos bastidores. O tecladista e vocalista já vinha se sentindo desgastado pela rotina intensa, pelas longas turnês e pela sensação de que fazia cada vez menos parte do novo rumo da banda. Ele mesmo disse, anos depois, que sentia que o Journey precisava de alguém “com mais energia para aquele momento”. Em “Dream, After Dream”, porém, é como se ele tivesse encontrado uma última chance de dizer o que ainda tinha a oferecer. Suas linhas de teclado são expansivas, brilhantes, e sua presença dá ao álbum uma profundidade que o Journey não exploraria novamente com tanta liberdade.

Journey, bastidores de Dream, After Dream
Journey, bastidores de Dream, After Dream

Entre as faixas, três se destacam por resumirem bem esse espírito. “Destiny”, com mais de sete minutos, é o exemplo perfeito do encontro entre o lirismo melódico da fase Perry e a veia progressiva do início. “Sand Castles” traz um clima onírico, guiado por teclados que parecem flutuar, e mostra como a banda conseguia construir músicas sem depender de refrões grandiosos. Já “Little Girl” é a mais próxima do Journey das rádios FM — uma balada bela e delicada que marca a transição definitiva para o som que dominaria o início dos anos 80.

O que torna “Dream After Dream” tão especial é justamente esse lugar entre mundos. Ele não é o Journey que lotava arenas, mas também não é mais o Journey instrumental e quase místico dos primeiros discos. É um retrato de uma banda em transformação, experimentando uma despedida sem dizer claramente que estava se despedindo. Gregg Rolie sai de cena com classe, deixando uma última marca pessoal e artística antes de abrir espaço para Jonathan Cain e para a fase mais comercial que explodiria com “Escape”.

O álbum nunca recebeu a atenção que merecia, talvez por estar à margem da discografia principal ou por carregar o rótulo de “trilha sonora”. Mas para quem acompanha a trajetória do Journey, ele funciona como uma cápsula emocional: um encontro entre passado e futuro, uma pequena obra-prima escondida e um adeus silencioso de um dos pilares da banda. Em “Dream After Dream”, o Journey sonha, viaja e se reinventa — e Gregg Rolie fecha seu ciclo justamente como começou: deixando a música falar por ele.

Leia mais: AOR Journey
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