Madonna: “Confessions II” é uma pista lotada sem muita inovação, infelizmente.
Madonna retorna após sete anos com Confessions II, seu 15º álbum de estúdio e…
Se alguém me dissesse que haveria uma continuação de Confessions on a Dance Floor, de 2005, eu perguntaria: “Hã?”. O álbum não foi apenas um dos pontos altos de sua carreira, como também se consolidou como um marco do dance pop, em uma época em que a música eletrônica não inundava rádios e festivais e nem tínhamos a vaga ideia de que playlists estariam tão presentes em nosso cotidiano. Madonna estava à frente do seu tempo, isso não podemos negar.
Após grandiosas campanhas promocionais, parcerias e todo o marketing pesado, o álbum chega e, sendo honesto, está longe de ser algo ruim. Contudo, sua razão de existir parece bastante vaga.
Somos transportados para as pistas de dança com I Feel So Free, em batidas hipnóticas e atmosferas de transe meditativo, trazendo à tona a lembrança de uma Madonna que sabe criar momentos capazes de prender a atenção.
Logo em seguida, porém, parece que somos lançados em suas limitações. No decorrer do álbum, surge a sensação de que algumas músicas não foram totalmente finalizadas. E, acredite se quiser, esse é um padrão que se repete. Muitas ideias não levam a algum lugar realmente interessante, como seria de se esperar.
É legal que Madonna esteja lançando um disco? Ótimo, na verdade. Mas, depois de tantas especulações e expectativas, era de se esperar algo mais grandioso, digno de Madonna.
A mensagem repetitiva de que dançar é algo essencial deixaria até Fred Astaire e Gene Kelly passando talco nas coxas. A dança aparece como símbolo de liberdade, cura, autoconhecimento e encontro de identidade. O problema é que não há profundidade suficiente para entendermos a real mensagem. Tá ok, eu danço. E aí?
Se temos Louise Hay com seus livros de autoajuda, agora temos Madonna com seu disco de autoajuda, preso em um ciclo constante de slogans sem reflexões novas ou reveladoras.
Convenhamos: a transcendência através da música eletrônica já foi — e continua sendo — abordada de forma mais rica e até mais bonita nos últimos tempos. Confessions II chega atrasado, repetindo ideias que já foram exploradas por artistas como FKA twigs e Beyoncé.
Apesar de tudo, musicalmente Stuart Price merece destaque. O álbum passeia livremente pela house music, pelo trip hop e pelos breakbeats. Porém, são justamente algumas dessas passagens que não soam inovadoras. As participações especiais ajudam por um lado: Sabrina Carpenter funciona de maneira agradável e eficiente em Bring Your Love.
Feid se esforça para inserir latinidade ao projeto, mas o resultado acaba soando comum. Martin Garrix segue o mesmo caminho em Bizarre: falta originalidade.
Danceteria é nostálgica. Em um vislumbre da cena clubber de Nova York dos anos 1980, encontramos personagens, lugares e episódios narrados com entusiasmo. É a única faixa do álbum em que todo o discurso sobre o que a dança representa ganha um contexto real.
Fragile, dedicada ao irmão Christopher, falecido em 2024, mergulha em uma melancolia sincera. As cordas e a produção delicada trazem emoção genuína em um momento em que o álbum começa a diminuir o ritmo.
Destaque também para The Test, gravada com sua filha Lola. É um dos momentos mais emocionais do disco, algo que parecia ausente na primeira metade do álbum.
Em L.E.S. Girl não há batidas, refrões explosivos ou a pretensão de soar moderna. Em vez disso, Madonna revisita a época das vacas magras em Nova York.
Confessions II nos entrega um álbum dividido entre questionamentos sobre produção, letras e os objetivos que Madonna queria atingir, enquanto deixa transparecer a percepção de que o tempo passou. É como se Madonna mergulhasse na própria história para compreender o sucesso, o envelhecimento, a memória e a sobrevivência.
Há combustível no tanque de Madonna? Sim. São mais de quatro décadas de carreira em que ela desafiou padrões, moldou tendências, fincou o pé, acelerou e desacelerou quando foi necessário. O projeto pode agradar ou desagradar. Ou pode acabar sendo apenas mais um trabalho em sua discografia.
A energia e os melhores momentos do álbum parecem mais íntimos e, talvez por isso, mais fáceis de gerar identificação a partir da metade do disco.
Deste modo, Madonna não precisa provar sua relevância. Talvez não precise nem se aprofundar tanto e apenas ser direta, como sempre foi. Confessions II é um álbum que, mesmo entusiasmando em alguns momentos, acaba desestimulando pela repetição.
E vamos aguardar os próximos capítulos. Sabemos que Madonna pode mais.


