Mano Brown defende o caderno e critica o celular como ferramenta de composição no rap
Resumo
- ▪ Mano Brown aconselha jovens rappers a usarem cadernos em vez de celulares para compor, argumentando que o papel ajuda a manter um "nuvem de palavras" visível.
- ▪ O rapper sugere que compositores desenvolvam um "dicionário interno" de rimas antes de recorrer ao Google.
- ▪ As declarações foram feitas durante o primeiro episódio da série "Cidade de Dentro", com a participação de Nei Lopes e Thalma de Freitas.
Mano Brown, líder dos Racionais MC’s, defendeu o uso do caderno como ferramenta de composição e criticou o hábito de rappers mais jovens escreverem letras no celular. As declarações foram feitas no primeiro episódio de “Cidade de Dentro”, série lançada na última terça-feira, 8, nos canais da Casa de Francisca no YouTube e no Spotify.
O episódio reuniu Brown e o compositor, escritor e sambista Nei Lopes, de 84 anos, em uma conversa mediada pela artista Thalma de Freitas, com participação musical de Rodrigo Campos. A gravação ocorreu na Sala B do Palacete Tereza Toledo Lara, no centro de São Paulo.
A recomendação do caderno veio acompanhada de uma justificativa prática. Para Brown, o papel cria uma espécie de “nuvem de palavras” ao redor de quem compõe: versos descartados em um dia podem render faixas em outro, e esse material só permanece visível quando é escrito à mão. “A molecada agora gosta de escrever no celular. Eu digo: ‘Não faz isso. Usa o caderno’. Por quê? Mesmo que não aproveite, deixa a nuvem de palavras à sua volta”, afirmou.
Brown também comentou sobre vocabulário e memória poética. Antes de recorrer ao Google em busca de rimas, sugeriu que compositores construam um “dicionário interno”, um repertório pessoal de sons e terminações, desenvolvido na convivência com a língua. “Tá com dificuldade de rimar? Antes de ir pro Google… tenta criar memória; faz o seu dicionário próprio de tudo o que você lembra com as últimas três letras ou quatro letras. Tem que conviver com as palavras, com a escrita”, disse. O rapper aconselhou jovens artistas a deixarem o celular de lado e criarem o próprio vocabulário para desenvolver suas rimas, conforme um post do Africanize no X (antigo Twitter).
O encontro com Nei Lopes também teve um momento descontraído. Quando o compositor carioca mencionou a tradição de compêndios formais de métrica na língua portuguesa, Brown reagiu com bom humor: “Aconselha a olhar no dicionário de rima? No rap, acho mancada, mas tudo bem, né, mano?”
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Nascido no Capão Redondo, em 1970, Mano Brown é vocalista e principal letrista dos Racionais MC’s, grupo fundado em 1988 e um dos mais importantes da história do rap brasileiro. Sua escrita se destaca pela precisão vocabular, por imagens do cotidiano das periferias de São Paulo e pela capacidade de transformar relatos de violência e desigualdade em crônica poética. Que um dos maiores letristas do país venha a público defender o caderno e questionar o Google diz muito sobre o que entende como base do ofício de compositor.
(Via: Rolling Stone Brasil)


