Quando o Metallica sabotou a turnê do Bon Jovi em 1986

Luis Fernando Brod
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Luis Fernando Brod
Publicitário, redator e pesquisador musical com foco em classic rock, hard rock e bastidores da indústria fonográfica. Especialista com mais de 5 anos em resgatar a...
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Metallica. Crédito: Ross Marino/Getty Images

A cena musical de Los Angeles no início dos anos oitenta era um desfile de vaidade. Entre camadas de laquê, batom e calças de elastano, o rock and roll parecia ter se transformado em um espetáculo visual onde a música era apenas um detalhe decorativo. Foi nesse cenário saturado que o Metallica surgiu como um choque térmico necessário. James Hetfield e Lars Ulrich não queriam ser bonitos ou aceitáveis. Eles queriam tocar mais rápido e mais alto do que qualquer um, sem pedir desculpas ou permissão.

Hetfield, em especial, assumiu o papel de antítese do movimento glam metal que dominava as rádios. Para ele, a ideia de artistas que se preocupavam mais com a aparência do que com a agressividade do som era uma ofensa pessoal. Nos palcos daquela época, o vocalista fazia questão de deixar claro para o público que ali não haveria espaço para canções românticas ou refrões açucarados. O Metallica oferecia uma mistura feroz da velocidade do punk com a atmosfera sombria do Black Sabbath, criando algo que a velha guarda ainda não conseguia classificar.

Essa postura intransigente colocou a banda em rota de colisão direta com os gigantes da televisão, como Jon Bon Jovi. Enquanto o Metallica ainda se recusava a gravar videoclipes para manter sua integridade artística, Bon Jovi se tornava o rosto favorito da MTV. O conflito de mundos atingiu seu ponto crítico durante o festival Monsters of Rock, em um episódio que ficaria marcado na memória de Hetfield como um ato de sabotagem deliberada.

No momento em que o Metallica subia ao palco para entregar sua dose de metal pesado, um jato comercial sobrevoou o festival em baixa altitude. Dentro da aeronave estava Jon Bon Jovi, chegando de forma triunfal e barulhenta exatamente durante a performance dos rivais. O ruído dos motores competiu com as guitarras de Hetfield, desviando a atenção de milhares de fãs. Para o vocalista do Metallica, aquilo não foi um acidente geográfico ou uma coincidência de horários, mas uma tentativa calculada de roubar o foco do show.

A reação nos bastidores foi explosiva. Hetfield não poupou insultos ao colega de profissão, acusando o músico de Nova Jersey de tentar estragar a apresentação da banda. A raiva era tamanha que, nas noites seguintes, o guitarrista passou a exibir uma mensagem direta e violenta escrita em seu instrumento, deixando claro o que pensava sobre o líder do Bon Jovi. Era a guerra declarada entre o thrash metal autêntico e o hair metal comercial.

O destino, porém, reservava ironias para ambos os lados. Anos depois, o Metallica acabaria recrutando Bob Rock, o mesmo produtor que havia trabalhado com Bon Jovi, para lapidar o som do “The Black Album”. O movimento foi um sucesso estrondoso, elevando a banda a um nível de popularidade global que poucos grupos de metal conseguiram alcançar. Enquanto o Metallica se adaptava aos novos tempos sem perder sua essência pesada, outros artistas da cena glam tentavam desesperadamente mudar de visual para sobreviver à chegada do grunge.

A trajetória daquele dia no festival serviu para mostrar que, embora o brilho das câmeras e as entradas triunfais pudessem garantir a atenção momentânea, a força bruta da música do Metallica tinha uma durabilidade maior. Hetfield não precisava se preocupar em ser superado por aviões ou jatos particulares. A surra sonora que a banda aplicava em arenas lotadas falava por si, provando que a agressividade genuína sempre encontraria seu caminho, independentemente de quem estivesse tentando cruzar o céu naquele instante.

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