Load, o álbum que colocou o Metallica contra seus próprios fãs
Poucos discos de rock provocaram uma reação tão intensa quanto Load, lançado pelo Metallica em 4 de junho de 1996.
Para muitos fãs, aquele álbum representou uma traição. Para outros, foi uma demonstração de maturidade artística. Três décadas depois, continua sendo um dos trabalhos mais debatidos da história do heavy metal.
A controvérsia não surgiu apenas por causa das músicas. O problema era muito maior. O Metallica parecia ter mudado de identidade.
Os cabelos longos desapareceram. As roupas inspiradas no thrash metal deram lugar a um visual influenciado por moda alternativa e hard rock contemporâneo. As fotos promocionais lembravam mais bandas do rock alternativo dos anos 1990 do que o grupo que havia criado clássicos como Master of Puppets e Ride the Lightning.

Mas a transformação visual era apenas o reflexo de uma mudança musical que já estava em andamento desde o chamado Black Album.
Quando o Metallica lançou o álbum homônimo de 1991 — frequentemente chamado de Black Album — a banda conquistou um nível de popularidade que poucas formações de metal haviam alcançado.
O disco vendeu dezenas de milhões de cópias e transformou o grupo em atração de estádios. Entretanto, esse sucesso criou um dilema. Seria possível continuar compondo músicas cada vez mais longas, complexas e agressivas como nos anos 1980? A resposta de James Hetfield, Lars Ulrich, Kirk Hammett e Jason Newsted foi não. O quarteto queria explorar outras referências.
Blues, Southern Rock, Hard Rock Clássico, Rock Alternativo, Country Rock, Psciodelia. Era uma decisão arriscada, especialmente para uma banda cuja base de fãs valorizava justamente a agressividade e a velocidade.
Um dos personagens centrais dessa história é Bob Rock. Depois de ajudar a transformar o Black Album em um fenômeno global, Bob Rock passou a exercer influência crescente sobre os rumos da banda.

Durante as sessões de Load, a filosofia era diferente da adotada nos anos 1980. Em vez de construir músicas a partir de riffs rápidos e estruturas complexas, o foco estava em groove, dinâmica, peso baseado em andamento, exploração de timbres, desenvolvimento melódico. O resultado foi um álbum muito mais orgânico e menos técnico.
Antes mesmo de ouvir uma nota sequer, muitos fãs já estavam indignados. A capa de Load utilizava uma obra do artista Andres Serrano intitulada Semen and Blood III. A fotografia mostrava uma composição abstrata criada a partir da mistura dos fluidos mencionados no título. A escolha foi deliberadamente provocativa.
Lars Ulrich sempre demonstrou interesse por arte contemporânea, e a banda queria romper com qualquer expectativa tradicional associada ao heavy metal. Para parte do público, foi um gesto artístico. Já para outra parte, um escândalo desnecessário.
O maior equívoco sobre Load talvez seja dizer que ele “não é metal”. Na verdade, ele continua sendo pesado, só que é um peso diferente, menos baseado em velocidade e mais baseado em atmosfera. Muito mais próximo de Black Sabbath, Led Zeppelin e Lynyrd Skynyrd do que a cena thrash que ajudou a construir sua reputação. Ao longo do disco, predominam riffs arrastados, afinações graves e uma forte influência blues. É também um dos trabalhos mais pessoais da carreira de James Hetfield.
A recepção inicial foi extremamente polarizada. Muitos fãs do thrash metal sentiram que o Metallica havia abandonado suas raízes. As críticas mais comuns envolviam excesso de influência hard rock, músicas mais lentas, mudança visual, ausência da velocidade característica dos primeiros discos.
Entretanto, o álbum foi um enorme sucesso comercial, estreando no topo das paradas em diversos países e vendeu milhões de cópias. A controvérsia não impediu que o público geral abraçasse o trabalho.
A comparação constante com Master of Puppets, Ride the Lightning e …And Justice for All prejudicou a percepção inicial de Load. Se analisado como sucessor direto daqueles discos, ele parece uma ruptura. Mas ouvido sem esse peso histórico, revela qualidades próprias como uma produção excelente, composições mais maduras, letras muito mais pessoais, entre outros
Hoje existe uma reavaliação crescente de Load. Mesmo fãs que não o colocam entre os melhores trabalhos da banda costumam reconhecer que ele contém algumas das composições mais fortes da década de 1990 como “Bleeding Me”, “The Outlaw Torn”, “Until It Sleeps”, “King Nothing”, “Hero of the Day”.
Trinta anos depois, Load continua sendo um álbum controverso. E justamente por isso permanece fascinante: é o retrato de uma das maiores bandas do rock tentando descobrir quem era quando já não precisava provar mais nada a ninguém.
Load foi assunto do episódio número 115 do Redação Disconecta.



