Bora Bora (1988): quando Os Paralamas decidiram atravessar fronteiras — e pagaram o preço por isso

Luis Fernando Brod
7 minutos de leitura
Os Paralamas. Crédito: Reprodução.

Quando “Bora Bora” chegou às lojas em 1988, muita gente não soube exatamente o que fazer com aquele disco. Não era o pop-rock direto de “O Passo do Lui“, nem a sofisticada mistura latina que tinha colocado Os Paralamas do Sucesso no topo com “Selvagem?“. “Bora Bora” soava estranho, fragmentado, por vezes árido. Hoje, mais de três décadas depois, fica claro que esse estranhamento não era um defeito — era o próprio sentido do álbum.

O quinto disco de estúdio dos Paralamas marca um ponto de inflexão claro na trajetória da banda. É o momento em que Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone resolvem ir além da assimilação elegante de referências e mergulhar de vez em experimentações rítmicas e estéticas que, à época, soavam quase como um gesto de provocação.

Um Brasil além do eixo óbvio

Desde “Selvagem?“, os Paralamas vinham se afastando do modelo anglo-saxão clássico do rock brasileiro dos anos 1980. Em “Bora Bora“, esse movimento se radicaliza. O disco amplia o diálogo com ritmos nordestinos — baião, xote, maracatu — e incorpora com mais ousadia elementos da música do Norte do país, em especial a chamada guitarra paraense, com sua pegada metálica, reverb acentuado e fraseados que dialogam com o carimbó e a música amazônica.

Não se trata de citação decorativa. Essas referências moldam a espinha dorsal do disco, especialmente na forma como Herbert toca guitarra: menos riffs tradicionais, mais texturas, linhas quebradas, efeitos e climas. Em 1988, isso era um gesto consideravelmente transgressor para uma banda que ainda era vista como um dos pilares do pop-rock nacional.

Enquanto muitas bandas buscavam profissionalização e clareza sonora, os Paralamas optaram pelo risco.

Um disco de atmosfera, não de hits

Bora Bora” é menos imediato do que seus antecessores. As canções pedem escuta atenta. Há um clima quase cinematográfico em várias faixas, com arranjos que priorizam ambiência e ritmo sobre refrões explosivos. Os singles escolhidos refletem essa ambiguidade.

Uns Dias” acabou se tornando a música mais lembrada do álbum, muito por sua letra melancólica e confessional, que conversa com temas de introspecção e desgaste emocional. Ainda assim, mesmo ela foge do formato radiofônico clássico dos Paralamas.

O Beco” e “Quase um Segundo” também circularam nas rádios, mas não repetiram o impacto imediato de sucessos anteriores como “Alagados” ou “A Novidade”. Isso contribuiu para a percepção, na época, de que o disco era “difícil” ou pouco acessível.

As participações: pontes culturais

As participações especiais em Bora Bora não são meros enfeites — elas ajudam a entender o espírito do álbum.

Charly García, já então uma figura central do rock argentino, aparece trazendo uma carga simbólica forte. Sua presença reforça o diálogo latino-americano que os Paralamas vinham construindo desde “Selvagem?“. Mais do que um convidado de prestígio, Charly representa uma visão de rock menos presa a padrões de mercado e mais aberta ao caos criativo — algo que combina perfeitamente com o clima do disco.

George Israel, parceiro histórico de Herbert Vianna, participa com arranjos de sopros que reforçam a mistura entre rock, música brasileira e influências caribenhas presente no disco.

Peter Metro, nome importante do dancehall jamaicano, aparece como um símbolo da conexão dos Paralamas com a música negra internacional. Desde o início da carreira, a banda flertava com reggae e ska, mas aqui essa influência surge menos celebratória e mais integrada à proposta rítmica do disco.

A recepção: estranhamento e silêncio

Na época do lançamento, “Bora Bora” dividiu público e crítica. Parte dos fãs sentiu falta do Paralamas mais direto, mais “hitmaker”. As rádios, por sua vez, tiveram dificuldade em encaixar o disco em suas programações. O resultado foi um álbum que vendeu menos que seus antecessores imediatos e ficou marcado como um trabalho “menor” por muito tempo.

A banda sentiu o impacto. Em entrevistas posteriores, Herbert Vianna já comentou que “Bora Bora” foi um aprendizado duro: nem sempre o público acompanha o artista quando ele resolve mudar de rota de forma tão abrupta.

Mas, ao mesmo tempo, o disco abriu caminhos. A assimilação de ritmos regionais de forma menos óbvia se tornaria algo cada vez mais comum na música brasileira dos anos 1990. O que em 1988 soava estranho, alguns anos depois passaria a ser visto como ousadia necessária.

Curiosidades e legado tardio

– “Bora Bora” foi gravado em um momento de grande inquietação criativa da banda, que buscava se afastar da imagem de “rock de rádio”.
– O álbum antecede diretamente “Big Bang” (1989), que, curiosamente, traz um retorno parcial a estruturas mais acessíveis — quase como uma resposta ao choque causado por “Bora Bora“.
– Com o tempo, o disco passou a ser reavaliado por fãs e críticos como um dos trabalhos mais corajosos dos Paralamas, justamente por não tentar agradar.

Um disco que faz mais sentido hoje

Ouvir “Bora Bora” hoje é uma experiência diferente. Em um Brasil musicalmente mais acostumado a misturas, o álbum soa menos deslocado do que em 1988. Ainda assim, ele preserva seu caráter inquieto, quase desconfortável.

Talvez esse seja seu maior mérito. “Bora Bora” não é um disco feito para confirmar expectativas. É um álbum de transição, de risco, de perguntas sem respostas claras. Um momento em que Os Paralamas do Sucesso decidiram desafiar não só o público, mas também a si mesmos.

E, mesmo tropeçando, mostraram que crescer, às vezes, significa exatamente isso: aceitar o desconforto como parte do caminho.

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