Pelas Esquinas de Ipanema, o disco “ecológico” de Erasmo Carlos

Luis Fernando Brod
6 minutos de leitura
Erasmo Carlos - Pelas Esquinas de Ipanema

Em 1978, quando a indústria fonográfica brasileira estava dividida entre a consolidação da MPB mais sofisticada, o avanço da disco music e os desdobramentos do tropicalismo, Erasmo Carlos lançou um dos trabalhos mais singulares de sua discografia: “Pelas Esquinas de Ipanema”.

À primeira vista, o título remete à geografia afetiva da zona sul carioca. Mas o disco vai além da crônica urbana. Ele é frequentemente lembrado como o “disco ecológico” de Erasmo — um álbum que, em plena década de 70, trouxe à tona preocupações ambientais, reflexões sobre consumo, natureza e o desequilíbrio entre progresso e preservação.

Não se trata de um panfleto. É um trabalho de observação e comentário, feito por um compositor que já havia atravessado a Jovem Guarda, amadurecido liricamente ao longo dos anos 70 e encontrado uma forma mais pessoal de dialogar com seu tempo.

Depois do estrondo da Jovem Guarda ao lado de Roberto Carlos e Wanderléa, Erasmo passou boa parte da década seguinte tentando se libertar da imagem de ídolo juvenil. Discos como “Carlos, Erasmo” (1971) já indicavam uma guinada mais introspectiva, com influências do rock internacional e letras mais pessoais.

Em 1978, ele já não precisava provar que era compositor. A parceria com Roberto estava consolidada, sua carreira solo encontrara estabilidade e o Brasil vivia um período de urbanização acelerada sob o regime militar. O chamado “milagre econômico” deixara marcas ambientais e sociais visíveis.

“Pelas Esquinas de Ipanema” nasce nesse contexto: crescimento urbano, especulação imobiliária, poluição crescente e um Rio de Janeiro que começava a sentir o peso da modernização desordenada.

É importante lembrar que, no final dos anos 70, o debate ambiental ainda não tinha a dimensão pública que ganharia décadas depois. A Conferência de Estocolmo havia acontecido em 1972, mas o tema estava longe de ser central no cotidiano brasileiro.

Erasmo aborda a questão com sensibilidade pop. Em vez de discursos técnicos, opta por imagens cotidianas: praias ameaçadas, concreto avançando sobre áreas verdes, a natureza transformada em mercadoria. O olhar é de quem observa Ipanema — símbolo de beleza natural e urbanidade — e percebe as contradições daquele cenário.

O tom é reflexivo, por vezes melancólico. Não há indignação explícita; há constatação.

Musicalmente, o disco dialoga com a produção da segunda metade dos anos 70. Arranjos mais elaborados, presença marcante de teclados elétricos, guitarras limpas e uma base rítmica que flerta tanto com o rock quanto com a MPB radiofônica.

Erasmo canta com segurança, já distante do entusiasmo juvenil dos anos 60. Sua voz soa mais grave, mais consciente do peso das palavras.

As canções alternam momentos mais contemplativos com faixas de andamento médio, sustentadas por melodias acessíveis. Há uma preocupação clara com acabamento, mas sem abandonar o caráter direto que sempre marcou sua escrita.

O bairro de Ipanema funciona quase como personagem conceitual do álbum. Não é apenas cenário; é metáfora. Representa o Brasil urbano que cresce, consome e transforma paisagens naturais em cartões-postais exploráveis.

Ao circular “pelas esquinas”, Erasmo constrói pequenas crônicas musicais. São olhares sobre comportamento, modernidade e o contraste entre natureza e concreto.

Essa abordagem reforça o caráter “ecológico” do disco — não apenas no sentido ambiental, mas também no sentido mais amplo de ecologia urbana, de relações entre espaço, sociedade e cultura.

“Pelas Esquinas de Ipanema” não é o disco mais citado quando se fala na carreira de Erasmo Carlos. Não teve o apelo popular imediato de seus grandes sucessos nem o peso simbólico de sua fase inicial.

No entanto, ele ocupa um lugar estratégico em sua trajetória. Marca o momento em que Erasmo assume de vez o papel de cronista pop, atento às transformações sociais e ambientais ao seu redor.

É um álbum que envelheceu de maneira interessante. O que em 1977 poderia soar como comentário pontual hoje dialoga com debates urgentes: urbanização predatória, perda de áreas verdes, impacto ambiental do crescimento descontrolado.

Talvez seja exagero classificá-lo como visionário. Mas há, em “Pelas Esquinas de Ipanema”, uma consciência rara para o pop brasileiro da época.

Erasmo não abandona a canção popular nem se distancia do formato acessível. Ele escolhe falar de temas amplos sem sacrificar melodia. O resultado é um trabalho que combina reflexão e comunicabilidade — qualidade difícil de equilibrar.

Se nos anos 60 ele representou a rebeldia jovem, e nos 70 buscou amadurecimento artístico, aqui ele se posiciona como observador crítico da modernidade.

“Pelas Esquinas de Ipanema” é o registro de um compositor atento ao mundo ao redor. Não é um álbum estridente nem programaticamente militante. Sua força está na sutileza.

Ao transformar Ipanema em metáfora e a paisagem urbana em tema central, Erasmo Carlos criou um disco que ultrapassa o contexto imediato de 19778. Ele oferece um retrato de um Brasil em transformação — e deixa no ar uma pergunta que segue atual: qual é o custo do progresso?

Mais do que um “disco ecológico”, é um disco de consciência. E, dentro da vasta obra de Erasmo, permanece como uma esquina que vale a pena revisitar.

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