O cinema brasileiro teve muitos momentos especiais no decorrer de sua existência. No entanto, nenhum produtor teve tanto reconhecimento como José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Sua obra é extensamente estudada até hoje.
Quando “À Meia-Noite Levarei Sua Alma” foi lançado em 1964, o cinema de terror nacional teve um, digamos, marco zero. José Mojica Marins, que cresceu nos cinemas dos pais, desenvolveu ali o gosto pelo terror estrangeiro que, mais tarde, reinventaria à sua própria imagem.
Foi ali que nasceu Zé do Caixão, o agente funerário de visual inconfundível — cartola preta, capa, barba espessa, olhos perfurantes e unhas longas que às vezes viravam armas. Mais que um personagem, Zé era um vilão sádico e assassino em série, movido pela obsessão de gerar um filho com a “mulher perfeita” e por uma necessidade constante de testar o ateísmo desafiando um suposto Deus.
Marins deu sequência à crônica do personagem com “Esta Noite Terei o Seu Cadáver” (1967) e, décadas depois, “A Encarnação do Mal” (2008). Zé do Caixão ainda apareceria em outros quatro longas e curtas do diretor. Mas o que transformou o personagem em um ícone (contra)cultural no Brasil foi a participação de Marins, caracterizado como Zé, apresentando programas de TV que exibiam curtas de terror nacionais ao longo de décadas — conteúdos hoje tragicamente perdidos.
A influência de Marins sobre o terror brasileiro é direta. Ele inspirou uma geração de cineastas a pegar tropos consagrados do gênero no exterior e adaptá-los em termos de idioma, ambientação, cultura e religião. O resultado é um horror que fala a língua do país, confrontando religião, patriarcado, classe e poder com uma identidade própria.
Foi com esse olhar que o British Film Institute (BFI), referência no Reino Unido em preservação e divulgação cinematográfica, destacou o terror brasileiro ao publicar uma lista que evidencia a força e a originalidade das produções nacionais do gênero. A lista completa dos 10 filmes você consegue ver clicando neste link aqui.
Abaixo, listamos os 3 primeiros desta lista. Recomendamos ler a lista completa e assistir os filmes, para entender melhor sobre este gênero.
À meia-noite levarei sua alma (1964)
Lançado pouco antes do início da ditadura militar no Brasil, período que se estenderia por 21 anos, o primeiro filme de terror de José Mojica Marins — e também considerado o primeiro longa de horror brasileiro — já começa rompendo convenções. Logo nas cenas iniciais, tanto o personagem Zé do Caixão quanto uma velha bruxa interpretada por Eucaris Moraes falam diretamente para a câmera e avisam o público sobre os horrores que serão apresentados ao longo do filme.
A partir daí, o espectador acompanha a trajetória de um personagem cruel e provocador, que desafia a religião, espalha violência e comete crimes sem demonstrar arrependimento. Entre suas vítimas estão a própria esposa e o melhor amigo, em uma sequência de atos marcados por brutalidade e desprezo pelas regras morais.
Embora Zé do Caixão afirme que suas ações servem como prova da inexistência de Deus, o desfecho sugere outra leitura. No fim, o personagem acaba confrontado pelo medo que tentou esconder durante toda a narrativa, sendo consumido pela culpa ou por uma vingança sobrenatural que parece surgir do além-túmulo.
Proezas de Satanás na Vila de Leva-e-Traz (1967)
No longa de estreia de Paulo Gil Soares, uma pequena vila entra em decadência após seus moradores abandonarem o local em busca do progresso trazido pela exploração de petróleo. Até o padre deixa a comunidade, levando consigo a imagem do santo padroeiro.
Os poucos habitantes que permanecem passam então a conviver com a presença do Diabo, que surge em diferentes formas, entre elas um cavaleiro misterioso interpretado por Paulo Broitman.
Misturando folclore, superstição e horror rural, o filme usa sua atmosfera estranha e simbólica para criticar um Brasil que troca tradições e espiritualidade pela promessa de modernização e riqueza.
Anjo da Noite (1974)
No suspense dirigido por Walter Hugo Khouri, Ana, personagem de Selma Egrei, aceita cuidar de duas crianças em uma mansão isolada em Petrópolis enquanto os pais viajam no fim de semana. Porém, já na primeira noite, ela começa a receber ligações assustadoras e passa a acreditar que alguém está dentro da própria casa.
Inspirado em clássicos como Os Inocentes e Natal Negro, o filme aposta em uma atmosfera lenta e inquietante, misturando tensão psicológica, elementos sobrenaturais e crítica social.
À medida que Ana explora a mansão e convive com os empregados da casa, o ambiente se torna cada vez mais estranho, como se todos ali estivessem sob influência do próprio lugar.
(Via: British Film Institute )



