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Resenhas de Discos

30 Anos de October Rust, do Type O Negative

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Type O Negative, foto promocional do álbum October Rust; Créditos: Joseph Cultice
Foto: Type O Negative, foto promocional do álbum October Rust; Créditos: Joseph Cultice

Estamos na segunda metade do ano de 1996, e esse já deu muito o que falar com os lançamentos do primeiro semestre. Independentemente se você fazia parte de um grupo de nicho ou mainstream, o que menos faltava naquele momento eram lançamentos que agradavam a todos os gostos. E um deles era “October Rust”, o tão aguardado quarto álbum de estúdio da banda Type O Negative, que, três anos antes, havia dado o que falar na indústria fonográfica com o disco Bloody Kisses (1993), apresentando uma banda que, ao mesmo tempo que trazia polêmica com seu humor negro ácido, acabou encantando uma nova geração de apreciadores do estilo gótico e toda sua estética por meio de letras profundas que abordavam o luto, amor e a melancolia. Tais temas seriam recorrentes na discografia, mais precisamente até o álbum Life Is Killing Me (2003), lançado na década seguinte.

Johnny Kelly, Josh Silver, Peter Steele & Kenny Hickey; Créditos: Joseph Cultice
Johnny Kelly, Josh Silver, Peter Steele & Kenny Hickey; Créditos: Joseph Cultice

Então, você volta da loja de discos com um CD cuja arte da capa apresenta ramos verdes com espinhos que cobrem um fundo preto, afinal, nada melhor do que representar o pecado esteticamente por meio da coroa de quem carregou tal fardo. Mídia na bandeja, contagem no zero:zero, a sua única tarefa é dar play, e então, de repente, um zunido esquisito começa a tomar conta do áudio após iniciar a execução. Você entra em pânico. Começa a se perguntar se o problema era seu aparelho de som ou algum input do amplificador que não estava conectado certo. E até trocou de disco para conferir se não era problema técnico, apenas para ficar com a possibilidade de que o produto em mãos que havia comprado naquele dia estava com defeito. E aí, até deu uma última chance, isso se não considerou devolver à loja ou trocar por uma outra cópia, em uma esperança fajuta de que tudo estaria bem. É aliviado na faixa seguinte pela própria banda, que se apresentava um a um, agradecendo-lhe por ter comprado seu novo disco.

O humor sempre foi um elemento principal dos The Drab Four, apelido dado ao grupo que brincava de forma irônica com o “The Fab Four” dos Beatles. Cada qual tinha uma personalidade evidente, todos fanfarrões, porém, galanteadores. Principalmente o frontman da banda, Peter Steele, cuja alta estatura de 2,03 m e a expressão vampírica, com traços eslavos fortes em seu rosto, saltavam aos olhos de qualquer um presente, especialmente pela imponência que sua presença causava. Dono de uma beleza e estilo únicos, não apenas o gigante era atraente às mulheres, como também tinha uma presença de palco única e inconfundível.

Type O Negative, 1996; Créditos: Niels Van Iperen
Type O Negative, 1996; Créditos: Niels Van Iperen

Dessa vez, quem integrava o time na posição das baquetas era Johnny Kelly, que havia substituído Sal Abruscato após sua saída entre o final de 1993 e o começo do ano de 1994. “Existia uma enorme pressão por conta do sucesso do Bloody Kisses”, diz o baterista à revista Louder. “Todo mundo ao nosso redor dizia: ‘O próximo disco tem que ser grande, tem de ser um sucesso’.” Nós não esperávamos isso, éramos realistas”. E também, a ansiedade não era por menos. Bloody Kisses havia garantido à gravadora Roadrunner Records o seu primeiro disco de ouro, sendo um enorme sucesso, principalmente por conta dos videoclipes para Black No. 1 (Little Miss Scare-All) e Christian Woman, que tiveram alta rotatividade na MTV, além dos rumores que cercavam a possibilidade de os membros serem vampiros ou lobisomens… Isso para não falar do tempo perdido pela audiência em tentar decifrar o sexo dos anjos quando se tratava da posição política dos membros da banda.

“Foi o primeiro álbum a ser certificado como ouro na história da Roadrunner. Era um sonho se tornando realidade. Houve um período em que o Type O Negative pegou o espaço de King Diamond como a maior banda da gravadora.” – Monte Conner à Revolver Magazine.

Capa do álbum October Rust; Créditos: Stefan Sagmeister/Sagmeister Inc.
Capa do álbum October Rust; Créditos: Stefan Sagmeister/Sagmeister Inc.

Embora não tivesse o mesmo sucesso que o predecessor, October Rust garantiu, de forma eventual, um disco de ouro para o grupo, certificado pela RIAA nos Estados Unidos, e ainda, de quebra, uma posição de número 42 na Billboard 200 daquele ano. Alguns poucos dias antes do lançamento, o single “Love You To Death” havia chamado bastante atenção, principalmente pela mudança brusca na sonoridade, apresentando a mesma luxúria de sempre, porém, em tons puramente comerciais, criando a balada perfeita que todo grupo gostaria de ter. “Era a tentativa de Peter em ser sensual”, diz o guitarrista Kenny Hickey a Louder. “Ele queria mais garotas.”

Love You To Death havia se tornado um hino aos apaixonados, não apenas pela sua natureza romântica, mas também pelas suas camadas extremamente luxuriosas. Em seu contexto lírico, a besta interna deixa de ser quem domina e fica submissa em torno de uma bela mulher, fazendo seus votos de adoração a um amor profundo. Talvez a pedida perfeita para o Dia dos Namorados de vocês, caros leitores, bem acompanhada de uma taça de vinho para comemorar. Esse papel se repete de forma lírica na faixa “Be My Druidess”, já descrevendo o ato libidinoso de forma quase totalmente explícita, expressando novamente a ideia de união.

Clipe de Love You To Death; Créditos: Roadrunner Records

Green Man abre com o som de pássaros cantando e o farfalhar de folhas no chão, coletadas por alguém, e, em cada refrão, o frontman irá repetir ser o personagem do título da faixa. Na letra, Peter Steele nos convida a ouvir sobre a época mais feliz de sua vida, na qual trabalhou no Departamento de Parques de Nova York. Steele, de forma metafórica, usa o símbolo pagão antigo da mitologia celta para descrever os ciclos de nascimento, vida, morte e renascimento da natureza, associando-os com as passagens da vida de uma pessoa. As estações do ano são descritas por meio do olhar de experiência, que vai da paixão até a decepção, abrindo espaço até a esperança.

Peter Steele; Créditos: George de Sota/Redferns
Peter Steele; Créditos: George de Sota/Redferns

Quando somos crianças, o Natal é um período recheado de vida, comida e alegria, além de, é claro, dos presentes. Em tempos mais prósperos, é um momento que contagia, que solidifica a união e nos convida a fazer votos para um futuro melhor. Noite feliz, assim diria a velha canção. Entretanto, nem tudo são flores em nossas vidas. Com o tempo, parentes e amigos se vão, deixando essas celebrações cada vez mais vazias. Chega a data, mas algo parece fora do lugar; não é mais sobre alegria. Red Water (Christmas Mourning) é sobre a dor do luto da ausência do pai de Steele, que havia falecido em 14 de fevereiro de 1995, um ano antes do lançamento do disco. Peter descreve que, no Natal daquele ano, uma de suas irmãs teve a ideia de colocar uma cadeira vazia ao lado da mãe, representando o lugar do patriarca da família de maneira simbólica. Foi uma péssima ideia; era como olhar para uma sepultura durante a ceia. Deixou de ser uma celebração e virou um funeral.

E, de repente, a coisa muda do nada de figura. Aquele clima soturno e fúnebre abre espaço para “My Girlfriend’s Girlfriend”, um single pop chiclete e sem vergonha que acaba sendo não apenas uma das melhores canções do álbum, como também a segunda mais prestigiada do disco, rendendo outro clipe com extrema rotatividade na MTV, totalmente colorido e psicodélico. Peter descreve uma fantasia de um relacionamento poliamoroso com duas mulheres lésbicas. E convenhamos, nem é preciso matutar muito para saber que, conhecendo a figura, é a descrição de uma experiência real.

Clipe de My Girlfriend’s Girlfriend; Créditos: Roadrunner Records

Entretanto, o luto volta. Nenhuma fantasia ou refrão chiclete é capaz de conter a forte onda que traz dor ao peito do que é a despedida em Die With Me. Steele fala sobre um amor que, de forma metafórica, “voa como um pássaro” para perseguir seus sonhos, enquanto o eu lírico havia morrido por dentro no aeroporto JFK. Ele não consegue mais segurar a saudade, principalmente a tristeza que a partida lhe traz. E anseia que essa pessoa possa um dia voltar e morrer com ele, na esperança obsessiva de que ainda o ame.

Burnt Flowers Fallen representa o começo do fim… ou talvez o fim por si só de um amor. Peter diz ao ouvinte que seu amor não possui mais nenhum desejo sobre ele, remoendo isso de forma repetitiva na música, acrescentando o fato de que as flores que foram oferecidas para realinhar esse relacionamento também foram simplesmente queimadas como se fossem nada. Uma vez que as flores, o símbolo da união e intimidade, são destroçadas, varrem-se quaisquer chances de reafirmar os votos, colocando o narrador em um ciclo vicioso de ansiedade antes que aquela relação chegue a acabar de vez.

Peter Steele performando com o Type O Negative no Lowlands Festival, Holanda, 23 de Agosto 1996; Créditos: Niels Van Iperen
Peter Steele performando com o Type O Negative no Lowlands Festival, Holanda, 23 de Agosto 1996; Créditos: Niels Van Iperen

In Praise Of Bacchus é sobre um amor viciante e prazeroso, tal como as celebrações da figura mitológica de Baco, deus do vinho, porém, preso a um ciclo de autodestruição. A amante sugere que ela e o eu lírico queimem juntos, como um pávio que não se sabe quando vai chegar ao seu derradeiro fim. Basicamente, é um amor que é uma bombinha-relógio. Ela se exibe, é o desejo alucinante, usa e abusa até não poder mais. Recita um amor cheio de promessas e bonito nas ideias. Porém, fútil vindo da boca de uma pessoa que sequer sabe realmente o que quer em seu ciclo de irresponsabilidades. Ela diz amar, mas a atitude não demonstra ser recíproca; é algo tão vazio como uma própria garrafa de vinho já usada.

Cinnamon Girl é o terceiro single do disco, cover da canção de Neil Young, lançada no ano de 1970. É tida por muitos como a melhor versão dessa música, tendo mais vida que a original, ainda mais se considerar como é traduzida para as texturas que compõem o disco. Ela cabe muito bem aqui, ainda mais se considerar o seu contexto lírico, que traz uma fantasia romântica sobre criar raízes com alguém, imaginando cenários aqui e ali onde essa relação funcionaria, feliz para o resto de sua vida, como quem narra descreve.

Clipe de Cinnamon Girl; Créditos: Roadrunner Records

The Glorious Liberation of the People’s Technocratic Republic of Vinnland by the Combined Forces of the United Territories of Europa é uma faixa instrumental rápida sobre uma terra fictícia chamada Vinnland. Repetem-se “Eins, zwei, drei, vier”, sendo “um, dois, três, quatro” em alemão, enquanto um avião de caça levanta voo e sai em linha reta em direção ao seu destino. Product Of Vinland acabou se tornando uma marca e slogan, junto de uma bandeira verde, composta por uma cruz preta nórdica que estaria presente em todo merchandising do grupo por aí em diante. Fazia alusão também a uma das descendências do vocalista, que dizia ter um pouco de escandinavo, considerando as outras mais conhecidas pelo público, como polonesa, russa e irlandesa. Esse instrumental, botado de forma sem contexto nenhum, era apenas um atestado de que a banda realmente não se levava tão a sério como o público ou a mídia gostaria que o fizessem.

Petr Steele e Kristoffer Rygg do Ulver, Alemanha (1997); Créditos: Ulver
Petr Steele e Kristoffer Rygg do Ulver, Alemanha (1997); Créditos: Ulver

Wolf Moon (Including Zoanthropic Paranoia) é sobre nada mais e nada menos que o ciclo de menstruação de uma mulher e o desejo carnal de uma besta, nesse caso, um lobisomem, de se deliciar desse período que chega no vigésimo oitavo dia. Sangue é vida, assim como a cor vermelha representa o desejo ardente e a luxúria. É uma criatura que se banha na essência da dama, porém, não a caça, e sim aprecia todo seu esplendor, sendo submissa à figura divina que seus olhos veem. E é claro que os elementos sobrenaturais não acabam por aí, pois Haunted introduz a vinda noturna de uma figura espectral feminina que assombra o narrador durante a noite, lambe e beija, morde sem nenhum pudor. Esse súcubo aparecia para se satisfazer de seus desejos libidinosos, tendo a figura que narra como totalmente entregue ao prazer e sem se render.

Haunted teve um reconhecimento comercial posterior ao fazer parte da trilha sonora do filme found-footage A Bruxa de Blair (1999), cuja polêmica em torno dos desaparecidos já era o suficiente para gerar uma legião de fãs malucos que consumiriam qualquer coisa relacionada àquele universo, e nada melhor do que conhecer uma das bandas que mais se encaixam bem na temática de Halloween do que o próprio Type O Negative.

Peter Steele, Ozzy Osbourne e Max Cavalera – Retirement Sucks Tour; Créditos: Kerrang Magazine
Peter Steele, Ozzy Osbourne e Max Cavalera – Retirement Sucks Tour; Créditos: Kerrang Magazine

“Pictures of Matchstick Men”, que ficou de fora do disco, foi selecionada para entrar como parte da trilha sonora de “O Rei da Baixaria” (1997), tendo Rick Rubin como um dos produtores. Rubin sugeriu que Ozzy Osbourne cantasse na música, substituindo a voz já gravada de Peter. Então, a banda apenas enviou os instrumentais e remixou com a gravação do Madman. Embora não tenham se encontrado em nenhum momento durante essa colaboração, integraram como parte do Ozzfest de 1997, até mesmo já abriram para o Príncipe das Trevas ao lado do Sepultura um ano antes na Retirement Sucks Tour.

É um disco que deixa um legado importante na discografia, mostrando não apenas que conseguiam fazer hits penetrantes e envolventes, porém, sem perderem a sua essência metálica, virando até mesmo inspiração para outros grupos que viriam ao longo do tempo. É a mistura da densidade do Black Sabbath, juntamente com a leveza etérea, porém fúnebre, de bandas do cenário gótico da década anterior ao seu lançamento. É o amor em sua essência, sem nenhum tabu. É uma tragédia byroniana. Um clássico definitivo da década de noventa.

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