Du som hater Gud – 30 Anos de Nemesis Divina, do Satyricon

Maurício Silva
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Maurício Silva
Focado na experiência ao vivo e nas vertentes extremas e atmosféricas do metal e rock gótico. Com olhar atento aos detalhes técnicos e de performance, assina...
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Na primeira metade dos anos noventa, a cena do black metal norueguês fez um barulho e tanto, dentro e fora da bolha do cenário metal. Entretanto, durante a segunda metade daquela década, o subgênero mostrou ao mundo que veio de forma definitiva para ficar, com lançamentos que expandiam os horizontes musicais daquelas bandas, especialmente também para o outro continente, onde a cena do metal parecia um tanto saturada com as mesmas bolhas e diversas promessas de grupos aqui e ali que iam por água abaixo do dia para a noite.

Bandas da cena europeia, de uma forma geral, naquela década pareciam estar totalmente livres das amarras do mercado norte-americano, e, no caso do Satyricon, seguir tendências nunca foi uma opção, nem tampouco um caminho. Enquanto outros grupos de sua cena ainda trabalhavam com o renomado engenheiro de som Pytten nos estúdios Grieghallen, Satyr dedicava seu trabalho ao Waterfall Studios, ao lado de Odd H. Jensen e Kai Robøle. Digamos que, desde a primeira tentativa com o álbum Dark Medieval Times (1993), Pytten não tinha muito a oferecer quando se tratava das expectativas do jovem músico na época, tampouco outros poderiam, fazendo-o levar extremamente a sério a atitude de “faça você mesmo”, não apenas ao ter um controle de qualidade ampliado na sonoridade dos lançamentos da banda ao produzi-los, como também no aspecto logístico ao criar a Moonfog Records durante aquele período.

Foto Promocional do álbum, ano de 1996. Frost, Satyr & Kvelduv; Créditos: Per Heimly, maquiagem por Anne Cecile Olavessen

“Grande parte do álbum eu escrevi em uma casinha de madeira, quase uma cabine”, relembra o músico em uma entrevista com o jornalista Dom Lawson, para a Metal Hammer, no ano de 2016. “Eu aluguei essa casa e criei toda uma nova realidade para mim mesmo. Transformei a sala em um centro musical, então eu sentava por lá todo dia, praticando guitarra, escrevendo o Nemesis, e eu era cercado de amplificadores. É o tipo de atmosfera que você precisa para escrever música assim — estando isolado. Era uma pequena e velha casinha de madeira que ficava em uma fazenda, bem próxima da divisa com uma floresta e a única propriedade próxima a um final de estrada. Eu vejo essa como a melhor forma de trabalhar hoje em dia”.

Satyr batendo cabeça ao vivo no show em Ratskeller, Fraureuth, Alemanha, 1996; Créditos: Tomas Zierhold

Durante a concepção de Nemesis Divina, a ideia de um line-up fixo com mais de dois membros era uma realidade distante. Durante o processo de composição e gravação do álbum anterior, The Shadowthrone (1994), contou-se com a participação de ninguém menos que Samoth (Emperor, ex-Zyklon) tanto na posição do baixo como nas guitarras. Entretanto, naquele mesmo ano o músico não apenas cumpriu uma pena de dois meses por conta de sua participação na queima de igrejas em 1992 ao lado de outros membros específicos do Inner Circle, como também passou a dedicar-se mais profundamente à sua banda principal, juntamente com Ihsahn, que curiosamente fez parte dos primeiros ensaios para o disco na posição dos teclados e também cessou sua participação pelos mesmos motivos que o companheiro de banda.

Integram o time Nocturno Culto (Darkthrone), que adotou o pseudônimo Kvelduv para sua participação na unidade, e Svartalv (Gehenna, Nocturnal Breed), tanto para gravarem ao lado de Satyr e Frost como também para tocarem shows ao vivo — algo que não era uma prioridade inicial para os membros fundadores, mas que, após serem convencidos por terceiros de que seria bom para a carreira, expandiu ainda mais os horizontes do Satyricon. Ter Nocturno Culto como parte da banda naquele momento caiu como uma luva, especialmente pela proximidade e amizade que os membros do Satyricon tinham com o Darkthrone, principalmente por esta ter integrado brevemente parte do selo Moonfog, juntamente com o projeto Isengard de Fenriz.

Satyricon ao vivo no Biebob, em Vosselaar, Bélgica, 1996; Créditos: Imprensa

“Ele (Nocturno Culto) era fã do Dark Medieval Times. Ele saiu do outro lado do país para a pequena península da qual faço parte e também onde a banda ensaiava. Foi um grande passo. Ele permaneceu na minha vizinhança, onde cresci na infância, para fazer parte disso. Mesmo que não estivesse envolvido na composição, a presença dele ainda assim era muito importante”, relembra Satyr.

“Mother North” é um clássico atemporal e o principal hino, que não apenas compõe o álbum, como também representa parte do bis nos shows — especialmente porque, de forma geral, estes shows incluem duas faixas do álbum Now, Diabolical, lançado em 2006, dez anos depois — destoando totalmente da natureza comercial daquela década com a natureza crua da trilogia medieval que compunha os clássicos do grupo na década de noventa. Um videoclipe de divulgação foi incluído na promoção, fazendo jus totalmente à temática lírica, com camadas que mostravam tanto o esplendor natural das matas norueguesas e as caras e bocas do power trio que compunha a formação oficial do álbum, como também uma dose de erotismo e perversidade que o transformavam em um épico audiovisual. Foi lançado promocionalmente em formato de fita de vídeo, contendo a versão original de exibição para televisão e outra versão censurada estendida, que possuía uma introdução contendo “Romeo and Juliet, No 13 Dance of the Knights”, do compositor russo Sergei Sergeyevich Prokofiev (1891–1953).

Clipe Oficial de “Mother North”, 1996; Créditos: Moonfog Productions

Nemesis Divina, em termos técnicos, é considerado um trabalho que juntou o melhor de cada um dos dois trabalhos anteriores, mas que também removeu algumas peculiaridades de cada um ou simplesmente as reduziu ao fator comum que é perceptível durante a audição deste terceiro disco: uma maturação nas composições. De Dark Medieval Times existe aquela tonalidade medieval distinta que compunha o álbum, porém sem passagens acústicas. Em The Shadowthrone havia uma produção melhor, melhores composições e uma atmosfera bem mais folclórica; embora aqui essa mesma atmosfera fique mais pela tonalidade gótica e sombria, presente em faixas como Immortality Passion, e também por ser um disco mais porrada na orelha: direto, curto e grosso.

Ave de rapina sentada sob um trono e uma espada, foto promocional para o álbum; Créditos: Per Heimly

Du som hater Gud é puro black metal, quebradiço e caótico, e nada melhor do que ter um compositor lírico como o próprio Fenriz, já considerando a evidente influência da natureza primitiva, direta e agressiva de sua banda principal nessa faixa. De acordo com Satyr, a inspiração veio de um programa na televisão em que um pastor maluco, explodindo de raiva, apontava o dedo para uma pessoa em específico e gritava “Aquele Que Odeia a Deus”. Em um momento, teria dito ao amigo que seria um ponto inicial para algo interessantemente lírico.

The Dawn Of A New Age já chega dando um chute na porta, sem mais nem menos. Após uma introdução explosiva que pega o ouvinte de surpresa, o vocalista profetiza o fim dos tempos com “This Is Armageddon”, dando sequência a uma quebradeira infinita, som extremo em sua plenitude, com uma forte abordagem melódica que irá compor o álbum como um todo. Nessa linha, o conteúdo das letras torna cada vez mais clara a mensagem inicial do frontman, ao citar partes do Livro da Revelação, ou, para os mais íntimos, o Livro do Apocalipse, o último que compõe o Novo Testamento. Tem a participação de Nebelhexë (Andrea Haugen), musicista e ex-esposa de Samoth, falecida em 2021 durante um terrível atentado terrorista em Oslo.

Capa de Nemesis Divina, lançado em 22 de Abril, 1996; Créditos: Halvor Bondin & Stein Løken

A capa do álbum, dessa vez foi feita por Halvor Bondin e Stein Løken, sendo um destaque inteiro para cena na época. Era bem diferente de outros trabalhos que tendiam a ser no padrão bem pobres em termos de qualidade, e fotos amadoras questionáveis. Porém, convenhamos, eram essas mesmas fotos que davam graça a coisa toda, especialmente vindo de algo forjado no extremo underground. Consistia em uma impactante imagem de uma ave de rapina pregada em um crucifixo invertido, representada por cores quentes com tons escuros que enalteciam a temática e a agressividade do disco.

“Mother North, how can they sleep while their beds are burning?
Mother North, your fields are bleeding”

Satyr ao vivo, 1996; Créditos: Imprensa

Em 1996, os primeiros shows ao vivo do Satyricon tornaram‑se realidade. De uma forma um tanto anormal, nenhuma banda costuma começar a tocar ao vivo apenas depois do lançamento de seu terceiro álbum — algo que é até normal pelos padrões de hoje, especialmente se bandas desse gênero estão envolvidas na equação. Para o início dos trabalhos, um show realizado dias antes do lançamento do novo álbum ocorreu em 6 de abril no Rockefeller, casa de espetáculos da Noruega, tendo o Darkthrone também como atração; curiosamente, foi o último show que esta daria em toda a carreira, considerando que nenhum dos membros expressa o desejo de tocar ao vivo sob o nome, especialmente Fenriz, que expressamente detesta se apresentar em cima dos palcos.

Flyer do show em Oslo “A Night Of Unholy Black Metal”, com Satyricon, Darkthrone e convidado especial que se revelaria sendo o Dissection; Créditos: Imprensa

Naquela noite, o Dissection também marcou presença, sendo a banda de abertura do evento. De acordo com Nocturno Culto, para a revista Nordic Division, que cobriu os shows daquela noite, o Darkthrone saiu mais cedo do palco, tocando apenas seis das oito músicas que constavam no setlist, alegando desinteresse por parte de uma plateia morna e vergonhosamente embriagada. Não é de se imaginar por que sentem tanta animosidade pelo formato ao vivo. Após o fim do show do Satyricon, no intervalo entre a apresentação da outra dupla que encerraria a noite, aconteceu a première do vídeo oficial de “Mother North” em um telão, dando uma imensidão cinematográfica a um clipe que já havia nascido majestoso para o público.

Flyer promocional para o álbum Nemesis Divina (1996); Créditos: Imprensa

Durante a semana de lançamento de Nemesis Divina, ocorreram outros shows pela Europa, com um itinerário massivo que tinha bandas como Gorgoroth e novamente o Dissection como suporte, que também divulgavam seus trabalhos mais recentes, recebendo devido prestígio do público. Entretanto, a turnê realizada pela Metalyse Booking, agência de shows novata naquele momento, foi cheia de percalços e problemas dignos de uma grande e trágica comédia de erros, dando um grande e belo exemplo de como um produtor deveria agir… caso fosse um novato ou preferisse seguindo a vida agindo como um perfeito amador.

Dissection, Satyricon & Gorgoroth, itinerário de shows da turnê europeia e divulgação dos trabalhos mais recentes; Créditos: Imprensa

Diversos problemas técnicos ocorreram durante algumas apresentações, culminando em shows incompletos. Começou por uma agenda inconsistente que fugia do bom senso quando se tratava de logística, parecendo um ato vindo de certa produtora brasileira moribunda na segunda metade da década passada, que causou um rebuliço por aqui, mas irei me abster de tais fatos. As datas eram totalmente próximas umas das outras, o que sempre corria o risco de fazer com que bandas ora não chegassem a tempo ao país ou à cidade em que ocorreria o próximo show, com direito a line-ups incompletos durante as apresentações; ora equipamentos de cada banda acabavam faltando por ainda estarem na estrada, resultando em uma ajudando a outra por meio de empréstimo para fazer a noite ser pelo menos um sucesso, ou algo próximo disso. Aparentemente, também, em um show em Paris o Gorgoroth teria deixado o palco na terceira música após um ato de ofensa à banda. Em Essen ocorreu o último show da turnê, devido ao cancelamento total desta, deixando sete outras cidades sem a menor possibilidade de celebração. Uma pena.

“Assim que tivemos a oportunidade de fazer outras coisas, como por exemplo, ir a Austrália, Nocturno Culto sentiu que era demais para ele. Não era exatamente o que queria fazer. Ele vinha de uma banda que não tocava ao vivo e queria permanecer como o lobo solitário. Svartalv é um cara muito legal, mas sinto que ele não estava pronto para tudo isso. Depois disso, só era eu e Frost.” – Relembra Satyr.

Ao vivo no Gibus Club em Paris, França, 1996; Créditos: Imprensa

Embora o surgimento de grandes oportunidades, devido a fatores logísticos como a falta de um baixista e a saída de Nocturno Culto, ficou difícil de se realizar algum show que saísse de território europeu, realidade que foi quebrada durante a turnê de divulgação do próximo e polêmico álbum Rebel Extravaganza (1999), que trocava o clima medieval funesto para uma atmosfera industrial e caótica de grandes metrópoles. Em alguns desses shows, foi banda suporte ao Pantera na América do Norte, ao lado também dos Powerman 5000, dando origem a um line-up bem dissonante, porém, interessante.

Frost estraçalhando ao vivo na bateria no show em Baroeg, Roterdão, Holanda, 1996; Créditos: Woody (Antiga página do Facebook “Morbid, Mayhem And More)

Vinte anos mais tarde, em 2016, celebraram o aniversário do álbum após um momento fatídico na vida de Satyr, que havia passado por um tratamento de um tumor cerebral benigno; embora não estivesse totalmente curado, podia conviver tranquilamente com ele, desde que o tumor não voltasse a crescer. Tais shows ocorreram tanto no Rockefeller, quanto também em grandes festivais de verão, porém, não estendendo a experiência para além disso por turnês comemorativas não fazerem o estilo da banda, que deixou bem claro que não faria mais isso novamente. Consistiam no álbum sendo tocado de forma completa, de trás para frente, apenas com Mother North mudando de posição no set de celebração para última música.

Satyricon ao vivo no Graspop Metal Meeting em 2016, tocando “Nemesis Divina” na íntegra na comemoração de 20 anos do álbum; Créditos: Imprensa

Essas apresentações tinham na abertura uma versão remixada de “The Dawn Of A New Age” feita pela banda norueguesa Apotygma Berzerk, que foi para o EP “Megiddo”, que tinha também uma regravação da música “The Dark Castle In The Deep Forest” (Dark Medieval Times) sobre o nome de “Night Of Divine Power”, além de uma faixa ao vivo de Forhekset e um cover de Orgasmatron, do Motörhead, não muito distante da natureza crua da versão que o Sepultura também havia feito anos antes desse lançamento.

EP “Megiddo”, lançado em 13 de Junho, 1997; Créditos: Union Of The Lost Souls

Para a edição de aniversário lançada há 10 anos atrás, a capa foi retrabalhada por Halvor Bodin, removendo a logo e o título do álbum, deixando apenas a arte e a lhe dando tonalidades mais escuras, principalmente um pouco mais de nitidez. Foi remasterizado por George Tandero, embora muitos reclamem, por exemplo, de um menor detalhe que por mais tola que seja a reclamação, fazia toda a diferença, se tratando do barulho da foice sendo empunhada pela morte na primeira faixa. Para que? Por que? Fica o questionamento.

Nemesis Divina segue sendo um clássico atemporal, e que inspira diversas outras bandas do gênero até hoje. Simplesmente foi um dos álbuns daquela leva da segunda metade dos anos noventa que deu uma nova cara ao subgênero, e que mesmo em seu som extremo, era palatável a novas audiências. Toda temática aqui deve se levar em conta de não ser satânica, e sim mais uma mensagem anti-sistema relacionada ao cristianismo, levando em conta também todo o sentimento de resgate cultural as antigas tradições escandinavas que era um sentimento mútuo entre várias bandas conterrâneas.

“Alguém me disse há mais de 20 anos atrás que era mais importante fazer algo que seria lembrado em dez anos do que algo feito apenas para vender mais de 10.000 discos. Foi assim que eu sempre me senti. Eu adotei essa frase porque sinto que faz sentido com o meu jeito de pensar sobre as coisas e o que eu acho sobre o Nemesis Divina. Eu acho que fizemos um grande impacto com esse e outros trabalhos que já fizemos antes. Acredito que nossa presença tem sido relevante e eu sou bem grato por isso” – Satyr.

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