Goose -Big Modern!, um dos discos mais interessantes de 2026
Durante boa parte da última década, o Goose carregou um rótulo difícil de abandonar. Para alguns, era a grande esperança da nova geração das jam bands americanas. Para outros, apenas uma banda competente tentando ocupar um espaço historicamente associado a nomes como Phish e Grateful Dead. O problema de qualquer comparação desse tipo é que ela costuma limitar a percepção sobre o que um grupo realmente está tentando construir.
Com Big Modern!, lançado em 2026, o Goose parece finalmente disposto a deixar essa discussão para trás.
Mais do que um novo capítulo na discografia da banda, o álbum funciona como uma declaração de intenções. É o trabalho em que Rick Mitarotonda e seus companheiros abraçam de vez a ideia de que podem dialogar com a tradição das jam bands sem ficar presos a ela. O resultado é um disco que combina rock, pop, sintetizadores, improvisação, art rock e comentários sobre a vida digital contemporânea de maneira surpreendentemente natural.
O título não poderia ser mais apropriado. Big Modern! soa exatamente como uma tentativa de traduzir musicalmente a experiência de viver em uma era dominada por telas, notificações, algoritmos e excesso de informação.
Mas, ao contrário do que acontece com muitos discos conceituais, a banda evita transformar essa proposta em um manifesto ou em um exercício excessivamente intelectual. O Goose prefere observar o mundo moderno em vez de julgá-lo. Essa escolha torna a audição muito mais interessante.

Logo nos primeiros momentos do álbum, percebe-se uma mudança de abordagem. Os sintetizadores assumem um papel central, as melodias ganham maior destaque e a produção aposta em texturas mais sofisticadas do que aquelas encontradas nos trabalhos anteriores. É impossível não notar a influência dos Talking Heads nesse processo.
Em vários momentos, o disco remete à forma como David Byrne e companhia utilizavam grooves repetitivos, elementos eletrônicos e observações sobre a sociedade contemporânea para construir músicas que eram simultaneamente acessíveis e estranhas. Não se trata de uma cópia estética, mas de uma filosofia semelhante. Canções como “MEDIA” e a faixa-título parecem dialogar diretamente com essa tradição.
Ao mesmo tempo, há outra referência pairando sobre o álbum: Peter Gabriel. A construção dos arranjos, a preocupação com atmosferas e a maneira como o Goose utiliza os sintetizadores lembram, em vários momentos, a fase mais ambiciosa da carreira solo de Gabriel. Existe algo de So e Us na forma como essas músicas são estruturadas. São canções que funcionam individualmente, mas que também contribuem para uma experiência maior quando ouvidas dentro do contexto do álbum.
Talvez a surpresa mais interessante, porém, seja a aproximação indireta com o Rush dos anos 1980. Não o Rush progressivo das longas suítes instrumentais, mas o grupo de Signals, Grace Under Pressure e Power Windows. Assim como aqueles discos, Big Modern! demonstra fascínio pela relação entre tecnologia e comportamento humano. Além disso, compartilha uma característica fundamental daquela fase da banda canadense: a capacidade de equilibrar ambição musical e acessibilidade.
As camadas de sintetizadores, as texturas eletrônicas e arranjos e até mesmo algumas escolhas harmônicas remetem discretamente àquele período em que Geddy Lee e seus parceiros mergulharam na new wave sem abandonar completamente suas raízes progressivas.
A diferença é que o Goose filtra essas referências através de uma sensibilidade muito mais contemporânea.
O indie rock moderno também aparece com frequência ao longo do disco. Algumas harmonias vocais e passagens atmosféricas evocam artistas como Bon Iver e Fleet Foxes, enquanto determinadas escolhas de produção aproximam o álbum da estética adotada por bandas que cresceram já no ambiente do streaming e das playlists.
Mas o aspecto mais impressionante de Big Modern! talvez seja justamente sua capacidade de absorver todas essas influências sem soar derivativo.

Musicalmente, o álbum apresenta um equilíbrio raro entre refinamento e espontaneidade. Mesmo quando as estruturas são mais compactas e orientadas para a canção, ainda existe espaço para que a banda respire. A experiência acumulada nos palcos aparece em pequenos detalhes: uma transição inesperada, uma passagem instrumental mais longa, uma mudança de dinâmica que impede as músicas de seguirem caminhos previsíveis.
Essa é uma qualidade que muitas bandas contemporâneas perderam. Em uma época marcada por produções excessivamente calculadas, Big Modern! preserva uma sensação de movimento constante.
Outro mérito importante está na forma como o álbum aborda seus temas centrais. O Goose fala sobre hiperconectividade, excesso de estímulos e ansiedade digital sem recorrer aos clichês habituais sobre os males da tecnologia. Não há saudosismo nem discursos simplistas.
O que encontramos aqui é algo mais próximo de uma tentativa de compreender o momento atual. O disco reconhece as contradições da vida moderna. Reconhece a dependência das redes, a velocidade da informação e a dificuldade crescente de encontrar silêncio. Mas também entende que não existe retorno possível a um passado idealizado. Essa ambiguidade dá profundidade ao trabalho.
Ao final da audição, fica a impressão de que Big Modern! representa um ponto de virada para o Goose.
Não porque abandone completamente o passado da banda, mas porque demonstra uma confiança artística que talvez ainda não estivesse plenamente desenvolvida nos trabalhos anteriores. É o álbum de um grupo que finalmente compreendeu suas possibilidades e decidiu explorá-las sem medo.
Mais do que o melhor disco da carreira do Goose até agora, Big Modern! é o registro de uma banda que deixou de ser apenas uma promessa para se tornar uma das vozes mais interessantes do rock americano contemporâneo.



