A história da música é construída não apenas por discos lançados, mas também por decisões que quase aconteceram. Entre esses episódios pouco conhecidos está a tentativa de aproximação entre Metallica e Geddy Lee, baixista e vocalista do Rush. A ideia? Tê-lo como produtor de Master of Puppets, um dos álbuns mais importantes do thrash metal. Uma colaboração improvável que, se tivesse se concretizado, poderia ter alterado o rumo sonoro do disco.
Na metade dos anos 1980, James Hetfield e Lars Ulrich buscavam amadurecer o som do Metallica em seu terceiro álbum de estúdio. A ponte para essa possível parceria foi construída por Cliff Bernstein, empresário que gerenciava a banda e já tinha trabalhado com o Rush. Ele articulou um encontro entre as partes, acreditando que a experiência e a visão musical de Lee poderiam oferecer uma nova perspectiva ao grupo californiano.
A conversa, no entanto, não avançou além da fase inicial. Anos depois, em 2015, Geddy Lee relembrou o episódio em entrevista à Vice, repercutida pelo Rock and Roll Garage. O músico foi direto: naquela época, sua familiaridade com o metal — especialmente com o thrash que o Metallica estava ajudando a consolidar — era limitada. Havia respeito, mas não identificação estética suficiente para assumir a responsabilidade de produzir o disco.

Lee explicou que o peso associado ao Rush vinha de referências clássicas como Led Zeppelin, Black Sabbath e Blue Cheer. Para ele, a conexão com o metal moderno era mais indireta, fruto da herança do hard rock setentista, e não de uma afinidade com a agressividade e a velocidade do thrash metal que o Metallica desenvolvia.
O encontro entre Lee e Ulrich aconteceu na Inglaterra, antes do lançamento de Master of Puppets. A relação de amizade entre o músico canadense e o empresário do Metallica foi determinante para viabilizar a reunião — um momento que hoje integra o campo das possibilidades não realizadas da história do rock.
Lee também recordou ter assistido a um show do Metallica em Toronto, no Masonic Temple, ainda com a formação que incluía Cliff Burton. Pouco tempo depois, em 1986, o baixista morreria em um acidente de ônibus durante a turnê europeia da banda. A lembrança daquela apresentação, marcada pela intensidade e pela coesão do grupo, permaneceu viva na memória do músico do Rush.
Apesar do interesse inicial, a produção de Master of Puppets acabou seguindo outro caminho. O escolhido foi Flemming Rasmussen, que já havia trabalhado com o Metallica em Ride the Lightning. A parceria trouxe continuidade estética e uma compreensão profunda da proposta sonora da banda, algo essencial naquele momento de consolidação artística.

Lançado em 1986, Master of Puppets não apenas elevou o Metallica a um novo patamar, como também redefiniu os limites do thrash metal. Foi o primeiro álbum do gênero a alcançar o status de platina, ultrapassando posteriormente a marca de 12 milhões de cópias vendidas no mundo. Mais do que números, o disco se tornou referência de composição, arranjos e ambição musical dentro do heavy metal.
O reconhecimento institucional veio anos depois: Master of Puppets foi o primeiro álbum de heavy metal incluído no Registro Nacional de Gravações da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, distinção concedida a obras consideradas de relevância artística, histórica e cultural.
A ideia de Geddy Lee ter produzido o disco segue como uma dessas histórias que sempre desperta um “e se?”. É impossível não se perguntar que variações ou particularidades ele teria acrescentado — talvez um olhar mais progressivo, um tratamento diferente para as linhas de baixo, quem sabe uma dinâmica menos crua e mais detalhista. No entanto, Master of Puppets ganhou forma com outra assinatura e se tornou exatamente o clássico que conhecemos hoje. Ainda assim, confesso: imaginar esse álbum sob a supervisão de Lee é um daqueles exercícios deliciosos para quem gosta de revisitar as encruzilhadas do rock e pensar em como pequenas decisões poderiam ter redesenhado a história.



